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Posvenção ao suicídio: familiares enlutados combatem o silêncio

A posvenção é qualquer ato de ajuda que aconteça após o suicídio com o objetivo de auxiliar familiares, os sobreviventes enlutados, a viver melhor

Bárbara Ferreira

Por Bárbara Ferreira

30/09/2026 | 15h27 ● Atualizado | 16h26

Acervo pessoal / Carol Pinho

"Meu pai era uma pessoa extremamente alegre, super divertido e brincalhão", descreve Carol Pinho - Acervo pessoal / Carol Pinho
"Meu pai era uma pessoa extremamente alegre, super divertido e brincalhão", descreve Carol Pinho
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O suicídio de idosos no Brasil tem se tornado uma preocupação crescente, com 25,7 mil casos registrados nos últimos dez anos, impactando profundamente as famílias enlutadas que enfrentam um luto atípico e doloroso.

A falta de adaptação ao envelhecimento e o estigma em torno da saúde mental são fatores que contribuem para essa tragédia, como exemplificado pela história de Laercio Assolin, que se sentiu incapaz de buscar ajuda após sua aposentadoria.

Iniciativas de posvenção estão sendo promovidas para apoiar os sobreviventes, com grupos de apoio e campanhas de conscientização, visando desestigmatizar o luto por suicídio e incentivar o diálogo sobre a saúde mental na sociedade.

Resumo gerado por IA

São Paulo - O que vem depois que alguém decide tirar a pópria vida é uma discussão interminável, mas e o que fica depois da morte? Aqueles que ficam, os enlutados pelo suicídio, são chamados de "sobreviventes". Sempre resistindo à dor da perda e à saudade.

"Lidar com suicídio não é um luto normal. É outro luto. Eu já tinha perdido pessoas amadas, mas a dor fica em outro lugar", tenta descrever Carol Pinho, de 43 anos, que perdeu o pai em fevereiro deste ano. Laercio Assolin morreu três meses depois que parou de trabalhar e 17 dias depois que completou 73 anos. 

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Nos últimos 10 anos, 25,7 mil idosos tiraram a própria vida no Brasil. Os dados foram apresentados em matéria do VIVA, com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), vinculado ao Ministério da Saúde. Para quem fica, a posvenção auxilia e instrumentaliza os afetadas após uma perda por suicídio.

Você se pergunta por quê, o que que aconteceu. Você passa por momentos de tristeza profunda, de raiva".
Carol Pinho, perdeu o pai em 2026

O suicídio não pode ser explicado ou justificado, mas a família atribuiu o sofrimento dele à falta de adaptação ao envelhecimento. Laercio chegou a ser diagnosticado com depressão, mas recusou o tratamento psicológico. Ele também negou os incentivos da família para que ocupasse seu tempo depois que parou de trabalhar. 

"Eu acho que muitas mulheres continuam tendo propósito na vida depois da velhice, porque sempre foram cuidadoras, além de trabalhadoras. Meu pai parou de trabalhar e sentia que não fazia nada". 

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Tem uma questão muito séria de machismo, dessa resistência de homens mais velhos a aceitarem problemas de saúde mental. De falarem sobre suas dores e dúvidas, de deixarem esse lugar do provedor, do cara que trabalha".
Carol Pinho

'Meu pai morreu porque não conseguiu falar sobre isso'

Depois da morte, a família de Carol se questionou se divulgaria a causa da morte para outras pessoas. Foi ela quem decidiu que não ia inventar nenhuma história, mas incentivar o debate, prevenção e posvenção ao suicídio. "Meu pai não tem menos valor por causa do que ele fez, vai ser sempre uma das pessoas que mais amei na vida."

As pessoas precisam entender o que aconteceu, precisam falar sobre isso. Meu pai morreu porque não conseguiu falar sobre isso".
Carol Pinho
 "Um pai incrível, um avô maravilhoso. Um contador de piadas", disse Carol Pinho
"Um pai incrível, um avô maravilhoso. Um contador de piadas", diz Carol Pinho - Acervo pessoal / Carol Pinho

A sociedade não pode silenciar esse luto, defende Daniela Coelho, psicóloga e vice-secretária da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS). Ela também perdeu o pai para o suicído em 2002, quando existia menos material, apoio e profissionais preparados para lidar com o assunto.

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A profissional relembra a memória de uma conhecida se benzendo diante dela ao saber que o pai dela havia tirado a própria vida. "Esse tipo de experiência mostra como o luto por suicídio pode ser atravessado por estigma, preconceito e silenciamento. Algumas pessoas acreditavam que falar sobre meu pai me faria sofrer mais", afirma.

Esse estigma pode ser reafirmado pelos próprios enlutados, segundo Coelho, que relatou ter sentido raiva do pai em alguns momentos. "Cheguei a pensar que ele pudesse ter sido covarde ou egoísta. Mas, aos poucos, comecei a me lembrar da vida que vivi com ele. Um homem de quem sempre tive orgulho." 

Eu me recuso a permitir que ele seja definido pela forma como morreu. A causa da morte dele é apenas a causa da morte dele."
Daniela Coelho, psicóloga e enlutada

'Não fique sozinho com o seu luto'

Além da prevenção ao suicídio, como divulgada ao longo do Setembro Amarelo, os enlutados defendem que a posvenção alcance o debate público. O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre prevenção do suicídio e promoção da saúde mental realizada durante setembro.

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Segundo a psicóloga Coelho, ela decidiu estudar e se especializar no luto por suicídio justamente para ajudar outras pessoas. "Não fique sozinho com o seu luto", pontua.

"Eu sabia que não poderia mudar o que aconteceu com meu pai, mas poderia fazer algo por outras pessoas, outras filhas, pais, mães, irmãos e amigos", afirma Coelho. Ela desenvolveu um projeto para que a posvenção seja inserida na grade curricular do curso de Psicologia, e continua lutanto por isso.

O luto não termina, porque a pessoa que morreu continua fazendo parte da nossa existência e da nossa memória. A morte não apaga a existência dela. Consolida a existência dela na nossa".
Daniela Coelho

Carol Pinho relata que se sentiu perdida após a morte do pai e não compreendida por pessoas que lidavam com lutos diferentes do dela. Hoje, participa dos grupos de apoio da Associação Brasileira de Apoio aos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (Abrases).

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"Esses grupos fazem um sentido totalmente diferente. Conversar com pessoas que entendem de verdade o que você está passando, porque eu acho que só quem realmente afetado pelo suicídio consegue compreender o tamanho do buraco que se forma na vida", afirma Pinho.

Eu acho que o luto não melhora com o tempo, ele muda com o tempo. No começo, é uma ferida aberta, dilacerante. Depois, a vida vai se desenvolvendo em volta do luto."
Carol Pinho

Busque apoio

A posvenção é qualquer ato de ajuda que aconteça após o suicídio com o objetivo de auxiliar os sobreviventes a viver mais e melhor, com produtividade e menos estresse. As associcações de posvenção defendem que os enlutados busquem apoio.

O site Posvenção do Suicídio oferece um mapeamento de serviços nacionais e gratuitos para pessoas impactadas ou em luto pelo suicídio. Conheça outras instituições de ajuda:

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  • Abrases - Associação Brasileira de Apoio aos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (WhatsApp: 11 93920-4893)
  • Vita Alere (e-mail: contato@vitaalere.com.br ou WhatsApp: 11 97647-0989)
  • Grupo de Acolhimento Viver (e-mail: viver.lutopelavida@gmail.com ou WhatsApp: 21 99749-6987)

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