CONFIRA

Exclusivo: Mais de 25 mil idosos tiraram a própria vida nos últimos 10 anos

Para especialistas, a transição para aposentadoria e solidão são gatilhos significativos para o aumento de comportamentos autolesivos entre idosos

Emanuele Almeida

Por Emanuele Almeida

23/09/2026 | 09h12

Adobe Stock

Especialistas explicam que pessoas frequentemente recorrem ao discurso da morte para sair de um sufoco ou estancar uma dor profunda - Adobe Stock
Especialistas explicam que pessoas frequentemente recorrem ao discurso da morte para sair de um sufoco ou estancar uma dor profunda
Ouvir texto 2:27 1x

O suicídio entre idosos no Brasil tem se tornado uma preocupação crescente, com mais de 25 mil casos registrados na última década, representando 17,87% do total de suicídios no País. A normalização do sofrimento na velhice e a dificuldade em identificar a causa real das mortes contribuem para a gravidade do problema.

Dados do Ministério da Saúde indicam um aumento contínuo nos casos de suicídio entre idosos, com 2.988 óbitos em 2023, um aumento de 49,70% desde 2016. A subnotificação é um fator crítico, pois muitos casos podem ser erroneamente classificados como mortes naturais devido à complexidade das condições de saúde dos idosos.

Especialistas destacam a necessidade urgente de melhorias nas políticas de saúde mental e no acesso a tratamentos adequados para idosos, além de um maior acolhimento familiar e comunitário. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece suporte emocional gratuito, funcionando 24 horas por dia, como uma alternativa para aqueles que buscam ajuda.

Resumo gerado por IA

São Paulo - "É uma consequência do processo de desistir da vida aos poucos". Essa frase tenta resumir o que é o suicídio, segundo a psicóloga e membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Valmari Cristina Aranha. No casos de idosos, esse processo pode ser ainda mais silencioso e até mesmo normalizado diante do envelhecimento. Porém, a incidência de tentativas contra a própria vida na população 60+ é grande.

Dados coletados pelo VIVA do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), vinculado ao Ministério da Saúde, mostram que, entre 2016 e 2025, 25,7 mil idosos tiraram a própria vida no Brasil. Incluindo a prévia de 2026, esse número sobe para 26,6 mil óbitos - o número representa 17,87% de todos os casos de suicídio registrados no País no período analisado (149.259 casos).

Os dados coletados apontam para uma tendência de continuidade dos casos de autoeliminação. Isso porque, a evolução dos números aponta para uma trajetória de crescimento contínuo até 2023, seguida de estabilização em patamares elevados - em 2016, foram contabilizados 1.996 óbitos de idosos. O número subiu ano a ano até atingir o ponto máximo em 2023, com 2.988 óbitos - o que equivale a um aumento de 49,70% no período todo.

A partir de 2024, ano que teve os dados já consolidados pelo Ministério da Saúde, os casos apresentaram uma leve queda com os registros somando 2.925 óbitos. Em 2025, foram 2.825 mortes, com informações ainda preliminares.

A primeira prévia de 2026 já contabiliza 883 óbitos, quase metade da média anual – dado que confirma que o problema permanece em um patamar historicamente elevado e ainda pode aumentar, apesar de não apresentar uma curva elevada de notificações de autolesão. 

Número pode ser maior por subnotificação 

Frente aos dados, especialistas ouvidos pelo VIVA apontam que as chances de subnotificação dos casos de suicídio em idosos pode fazer com que esse número seja ainda maior. A discussão se torna ainda mais importante durante o Setembro Amarelo, a maior campanha nacional de conscientização e prevenção ao suicídio, criada no Brasil em 2015. 

Valmari Aranha afirma que a subnotificação decorre de uma dificuldade na hora de atestar a causa do óbito. 

O envelhecimento pode trazer uma sobreposição de doenças crônicas, déficits cognitivos e alterações psicológicas. O que torna extremamente difícil determinar se um evento fatal, como uma queda, atropelamento ou ingestão errada de remédios, foi um acidente involuntário ou um ato intencional” 
Valmari Aranha, psicóloga e membro da SBGG


Ela acrescenta que há ainda o "suicídio passivo", um comportamento que tende a ser normalizado na velhice, quando o idoso abandona tratamentos médicos, deixa de se alimentar ou se expõe a riscos de forma consciente ou inconsciente. “Como consequência, a morte acaba sendo registrada oficialmente como complicação de uma doença preexistente ou causas naturais”, pondera.

Sofrimento psíquico

Outro ponto trazido pelos especialistas é o déficit de acolhimento e atendimento na saúde pública. Isso porque, a fragilidade emocional do idoso é agravada pelas lacunas na rede pública de saúde e pelas barreiras do mundo digital, o que interfere diretamente nas taxas de diagnóstico de doenças mentais e possíveis comportamentos suicidas. 

O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, pontua que, o avanço do atendimento automatizado e da telemedicina criou um cenário de exclusão digital, assim como reforça que ainda falta suporte medicamentoso via Farmácia Popular para pessoas em sofrimento psíquico. 

"Qualquer indicador que aponte estabilização ou queda no número de suicídios em idosos é fruto direto da subnotificação de registros, e não de avanços nas políticas públicas."
Antônio Geraldo da Silva, da ABP

O presidente da ABP fala também sobre a carência de assistência no Farmácia Polular. Para ele, há falta de uma estrutura pública ambulatorial de saúde mental bem delimitada. "A ausência de medicamentos fundamentais, como antidepressivos e estabilizadores de humor, na Farmácia Popular faz com que os idosos adoeçam sem diagnóstico e sem registro formal no sistema de saúde”, diz. 

remédios em cima da mesa de cabeceira
Inibidores seletivos de recaptação de serotonina como fluoxetina e sertralina estão disponíveis no SUS, porém o acesso não é similar a outros medicamentos. Foto: Envato Elements

Hoje, a lista do programa Farmácia Popular conta com mais de 40 itens voltados ao tratamento de doenças como diabetes, hipertensão, asma, osteoporose e saúde da mulher, mas não inclui nenhum medicamento para saúde mental, diz o especialista.

Para ter acesso aos medicamentos disponíveis no SUS, os pacientes precisam solicitar nas farmácias das UBS ou via processo administrativo nas farmácias estaduais de alto custo. 

A psiquiatra do Programa Terceira Idade/Proter do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Rita Cecília Ferreira reforça que houve melhora em relação a anos anteriores, mas a quantidade de medicamentos disponíveis no sistema público de saúde ainda é muito reduzida.

Além disso, ela pontua que muitos idosos enfrentam dificuldades para manusear celulares, agendar exames online ou arcar com os custos de acesso à internet, o que impede a realização até mesmo de consultas virtuais que poderiam oferecer auxílio em momentos críticos de crise. 

Estão disponíveis na rede pública apenas alguns inibidores seletivos de recaptação de serotonina, o lítio e alguns antipsicóticos e neurolépticos, diz Ferreira. "Essa falta de medicamentos pode atrapalhar o cuidado desse paciente, pois nem sempre apenas sessões com psicólogos fazem parte do tratamento".

Saúde mental dos idosos 

O Brasil passa por uma transição demográfica significativa, na qual a população idosa aumenta constantemente. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2030, o número de idosos ultrapassará o total de crianças entre zero e 14 anos. E com o aumento da expectativa de vida, observou-se uma incidência muito maior de transtornos neuropsiquiátricos, destaca a especialista do IPQ/HC.  

Transtornos esses que se iniciam tardiamente – a partir dos 60 anos –, como depressão, transtorno bipolar e demências, podem elevar o risco de comportamentos e tentativas suicidas quando não diagnosticados e tratados”. 
Rita Cecília Ferreira, psiquiatra do HC

Para além dos transtornos mentais, a psiquiatra aponta também que o acúmulo de comorbidades como diabetes, hipertensão e limitações sensoriais interfere na saúde mental dos idosos, levando à limitação social e maior isolamento.

Valmari Cristina complementa que embora as pessoas estejam vivendo por mais tempo, não significa que estão vivendo melhor. “A longevidade pode se tornar um fardo quando o indivíduo perde o propósito ou a funcionalidade”, pontua.

Gatilhos na aposentadoria e solidão

Fatores sociais interpretam papéis importantes na saúde mental do idoso - e a transição para a aposentadoria representa um dos momentos de maior vulnerabilidade. Segundo Rita Cecília Ferreira, do IPq, o fim da rotina de trabalho retira abruptamente o papel social e a convivência cotidiana, deixando a pessoa frequentemente isolada em casa, com renda reduzida e sem canais para expressar suas angústias

“Esse acúmulo de perdas econômicas, somado à solidão provocada pela perda do cônjuge e pela ausência de suporte familiar, atua como um severo gatilho para o desenvolvimento de quadros depressivos e comportamentos autolesivos”, observa. 

Valmari Cristina destaca outro fenômeno desse contexto, que o País envelheceu antes de enriquecer, fator que submete uma parcela expressiva da população idosa à insegurança financeira e alimentar, que somada ao papel de alicerce financeiro da família, pode causar um grande sofrimento mental.

Dados da Previdência Social indicam que cerca de 70% de todos os benefícios pagos pelo INSS correspondem exatamente ao piso nacional, de R$ 1.621,00.  

A perda do poder econômico e do patrimônio afeta principalmente os homens de forma especialmente severa, pois muitos foram educados para associar o seu valor pessoal exclusivamente ao papel de provedor e à potência financeira”
Valmari Aranha, psicóloga e membro da SBGG

De fato, conforme a idade avança, a proporção de suicídios masculinos cresce de forma contínua. Na faixa de 80 anos ou mais, a fatia de homens atinge 84,6% dos casos de suicídio; somente de 2020 a 2026 foram 2.027 mortes masculinas para 368 femininas, o que equivale a 5,51 mortes de homens para cada mulher. 

Antônio Geraldo, da ABP, enfatiza que a pressão vivida no ciclo que antecede a velhice, entre 50 e 59 anos, marcado pela dificuldade de reemprego em uma fase descendente da carreira, impacta a saúde mental desse grupo. 

“Nessa etapa, somam-se despesas elevadas com a formação dos filhos e o custo de planos de saúde, gerando profunda angústia sobre a capacidade de se aposentar, manter moradia ou obter suporte na velhice”, elenca. 

Dor não "é da idade"

A análise dos especialistas revela que o pensamento voltado para a morte raramente busca a extinção da vida em si, mas sim a interrupção de um sofrimento psíquico ou físico intolerável.

Rita Ferreira explica que transtornos como depressão e quadros graves de ansiedade geram um estado de desesperança em que a autoeliminação passa a ser enxergada, erroneamente, como a única solução para o desespero. 

Valmari Aranha esclarece que as pessoas frequentemente recorrem ao discurso da morte para sair de um sufoco ou estancar uma dor profunda.

idosa com as mãos no rosto indicando sofrimento, tristeza
Sinais de sofrimento psíquico em idosos podem ser normalizados, segundo especialistas. Adobe Stock

"Isso acontece sem elas se darem conta de que, ao interromperem a dor, também encerram as vivências positivas e a própria vida", observa. 

Do pensamento até o ato de autoeliminação em si de em idosos, diferente dos jovens — que muitas vezes agem por impulsos momentâneos —, é frequente que o planejamento e ação seja feito com antecedência, o que explica a elevada taxa de letalidade e o êxito nos atos autolesivos nessa faixa etária, segundo Aranha. 

Diante desse cenário, a atenção da família e da comunidade torna-se a principal ferramenta de prevenção. A psiquiatra alerta que parentes e amigos não devem naturalizar a tristeza ou o isolamento com mitos como "é da idade" ou "é só para chamar atenção" — frases e atitudes que mascaram pedidos reais de socorro. 

Ela reforça que é fundamental manter presença constante, perceber alterações de comportamento, combater o estigma e garantir um cuidado interdisciplinar – médico, psicoterápico e social –, assegurando que o idoso não enfrente a velhice em desamparo. 

A frase ‘quem fala em se matar não se mata’ é um mito. Falar ou tentar tirar a própria vida é um pedido desesperado de ajuda, e nunca deve ser visto como ‘chantagem’ ou ‘tentativa de chamar atenção"
Rita Ferreira, do IPQ

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.