Emilio Umeoka
Colunista VIVA
15/07/2026 | 10h08
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Embaixador do Stanford Center on Longevity, atua na interseção entre longevidade, trabalho e inclusão. Ex-executivo global na Microsoft e Apple, é também conselheiro de startups.
A longevidade exige um novo pacto entre indivíduos e organizações
Envato
Palo Alto, Califórnia - Durante muito tempo, confinamos a longevidade aos congressos de medicina, às planilhas demográficas e aos gabinetes de políticas públicas. Delegamos o envelhecimento aos sistemas de saúde e à previdência social, enquanto mantivemos quase intacta a estrutura tradicional das carreiras.
A resposta padrão do mercado continuou a mesma: estender as exigências sobre o profissional e, então, adiar a aposentadoria por alguns anos. Esse enquadramento gerou um descompasso evidente. Ele já não responde à velocidade do mercado contemporâneo.
No Stanford Center on Longevity, o estudo The New Map of Life (O Novo Mapa da Vida) demonstra que viver mais exige uma reorganização profunda da trajetória humana. Precisamos superar a rigidez do modelo que concentra educação, trabalho e contribuição em fases isoladas e estáticas, distribuindo o aprendizado e a capacidade de contribuir ao longo de toda a existência.
A longevidade não representa apenas um acréscimo de tempo no final da vida; exige a redefinição completa do ritmo e da estrutura das carreiras profissionais.
O limite das carreiras lineares
O modelo tradicional de sucesso foi concebido segundo uma lógica industrial: uma sequência previsível em que o indivíduo estuda na juventude, trabalha em tempo integral por algumas décadas e se aposenta. Essa estrutura funcionava em um contexto de expectativa de vida mais curta e de mercados consideravelmente mais estáveis.
Hoje, diante de horizontes que frequentemente ultrapassam os 100 anos, esperar que uma única trajetória profissional linear sustente as necessidades cognitivas, financeiras e emocionais de alguém por meio século tornou-se pouco realista.
A longevidade evidencia que as carreiras saudáveis evoluem em ciclos de aprendizado, adaptação e renovação. A principal questão para as lideranças e gestores de talento deixou de ser por quanto tempo uma pessoa consegue permanecer ativa. O verdadeiro desafio passa a ser estruturar períodos de desenvolvimento, pausas estratégicas e reinvenção de forma consistente ao longo de uma jornada prolongada.
Carreiras organizadas em capítulos
A consequência mais visível dessa transformação é a consolidação de múltiplas fases profissionais ao longo da vida. A educação deixa de ocupar apenas o início da trajetória. A contribuição máxima deixa de se concentrar exclusivamente na meia-idade.
Profissionais maduros encerram determinados ciclos não por obsolescência, mas porque seus interesses evoluem, suas prioridades mudam e novas oportunidades de gerar impacto surgem."
O mercado precisa aprender a absorver o profissional que faz transições, recicla competências e retorna ao ambiente corporativo com um repertório ampliado. Esses movimentos não indicam instabilidade, mas sim uma característica estrutural de adaptabilidade.
Nesse cenário, o próprio conceito de ambição evolui. O sucesso na economia da longevidade não se mede apenas pela velocidade da ascensão vertical, mas também pela capacidade de construir uma trajetória coerente, flexível e relevante ao longo das décadas.
Experiência e adaptabilidade para inovar
Muitas organizações ainda cometem o equívoco de tratar a experiência e a capacidade de inovação como atributos concorrentes, associando erroneamente a juventude à agilidade e a maturidade à estagnação.
A prática demonstra o contrário. Profissionais que mantêm a curiosidade intelectual desenvolvem uma vantagem competitiva robusta: combinam a plasticidade do aprendizado contínuo com a maturidade de quem sabe mitigar riscos, liderar em momentos de incerteza e qualificar a tomada de decisões.
A reinvenção não é propriedade exclusiva dos profissionais mais jovens, assim como a visão estratégica não deve ficar restrita aos estágios finais da carreira.
Deixar de integrar o potencial das equipes multigeracionais representa uma clara perda de vantagem competitiva.
Empresas que estimulam a colaboração entre diferentes gerações e criam trilhas de atualização contínua não estão apenas cumprindo uma agenda social; estão blindando sua capacidade de inovação em um ambiente de negócios complexo.
O novo significado do trabalho
Vidas longas alteram profundamente o papel do trabalho na experiência humana. Remuneração e status permanecem fundamentais, mas fatores como pertencimento, aprendizado contínuo e propósito assumem um papel central na construção de carreiras maduras.
O desafio corporativo do nosso século não consiste em esticar o tempo de serviço segundo as regras antigas. Consiste em projetar ecossistemas de trabalho flexíveis, humanos e inteligentes o bastante para evoluírem junto com as pessoas ao longo das diferentes fases da vida."
A longevidade exige um novo pacto entre indivíduos e organizações. O sucesso desse processo dependerá da nossa capacidade de redesenhar as carreiras à mesma velocidade com que avançamos na expectativa de vida.
Como a sua organização está planejando o futuro do trabalho para uma força de
trabalho centenária?
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