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Idosos faltam mais a exames médicos durante recesso escolar; entenda

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Na indisponibilidade dos pais, as pessoas idosas assumem a rede de cuidado para manter a harmonia familiar - Adobe Stock
Na indisponibilidade dos pais, as pessoas idosas assumem a rede de cuidado para manter a harmonia familiar
Por Emanuele Almeida

14/07/2026 | 17h52

São Paulo - As férias escolares podem trazer consigo um fenômeno pouco percebido nos serviços de saúde: o aumento de faltas de pessoas idosas a consultas, exames e sessões de reabilitação.  Somente na cidade de São Paulo, o número de ausências pode crescer em até 30% durante o mês de julho. Mas segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) pode chegar a 40% nesse período.

De acordo com a SBGG, o principal motivo para essas ausências é a dedicação integral dos avós ao cuidado dos netos e bisnetos, o que os leva a adiar o próprio acompanhamento médico.

Para compreender a gravidade do problema, o médico geriatra e diretor administrativo da SBGG, Eduardo Canteiro Cruz, diz de onde vêm essas estatísticas: embora o Brasil ainda não possua um levantamento nacional consolidado sobre o tema, são estudos amostrais realizados em diversos Estados que mostram que a taxa habitual de faltas (que flutua entre 20% e 30%) pode atingir a marca de quase 40% durante o recesso escolar.

Matematicamente, isso significa que há um aumento relativo de 25% a 50% nas ausências em comparação ao padrão normal do resto do ano. O geriatra esclarece que esses números são o reflexo de uma escolha comportamental: na indisponibilidade dos pais, as pessoas idosas assumem a rede de cuidado para manter a harmonia familiar, colocando o bem-estar dos netos acima de suas próprias necessidades clínicas.

Mais do que um fenômeno relacionado ao inverno, a ausência das pessoas idosas deve-se, em grande parte, ao fato de comporem a rede de cuidado de netos e bisnetos durante as férias escolares, quando nem sempre os pais conseguem estar disponíveis. Dessa maneira, elas acabam priorizando a harmonia familiar e o senso de colaboração em detrimento das próprias necessidades de saúde", afirma o geriatra.

Impacto na saúde 

O impacto desses números, contudo, vai muito além do agendamento perdido. Do ponto de vista clínico, o atraso nas consultas significa adiar diagnósticos e interromper tratamentos — um risco incalculável em doenças onde o tempo é crucial, como o câncer. Além disso, interromper a reabilitação faz com que o idoso perca a autonomia conquistada, tornando-se vulnerável novamente.

dois avós segurando as mãos dos netos em um passeio
Especialistas alertam que férias escolares não devem impedir avós de cuidarem da saúde. Foto: Envato Elements

"Do ponto de vista do sistema de saúde, isso significa desperdiçar um recurso público que já é escasso para o tamanho da necessidade da população. É como se, durante o mês de julho, jogássemos fora três ou quatro de cada dez reais investidos no cuidado em saúde", afirma Cruz.

Convivência vs. sobrecarga

Os dados apresentados exigem uma reflexão sobre a rotina. A terapeuta ocupacional, doutora em gerontologia e conselheira da SBGG-CE Elcyana Bezerra Carvalho aponta que é vital saber a diferença entre a simples convivência e a obrigação de cuidado diário.

A convivência faz parte da avosidade e costuma ser prazerosa. Já o cuidado diário exige reorganizar horários, compromissos e a própria rotina."

Segundo Carvalho, o impacto dessa mudança é silencioso. O verdadeiro desafio da longevidade atual não é o idoso achar tempo para cuidar da família, mas sim garantir que ele não esqueça de cuidar de si mesmo.

Quais são os riscos do adiamento?

"Quando toda a rotina passa a girar em torno das necessidades dos netos, existe o risco de a pessoa idosa adiar aquilo que também é essencial para sua saúde, como atividade física, momentos de descanso, participação social e acompanhamento médico", pontua a terapeuta ocupacional. 

A solução defendida pelos especialistas não é afastar avós e netos. Pelo contrário, as férias são vistas como uma oportunidade de ouro para fortalecer laços intergeracionais e criar memórias para a vida toda. O objetivo é evitar a sobrecarga, garantindo que o cuidado oferecido à família não exija o sacrifício da própria saúde.

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