Emilio Umeoka
Colunista VIVA
11/09/2026 | 11h09
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Embaixador do Stanford Center on Longevity, atua na interseção entre longevidade, trabalho e inclusão. Ex-executivo global na Microsoft e Apple, é também conselheiro de startups.
Desconforto é biológico: O que a neurociência ensina sobre o cérebro maduro
Envato
Palo Alto (Califórnia) - Voltar a estudar em tempo integral após mais de 35 anos de carreira corporativa foi um choque. Durante décadas, a sociedade nos convenceu de que o cérebro atinge o pico na juventude e entra em declínio inevitável na maturidade.
Quando ingressei no Distinguished Careers Institute (DCI), em Stanford, buscava exatamente o que o programa oferecia: renovar o propósito de vida, construir comunidade e recalibrar a saúde mental, física e espiritual.
No entanto, sentar novamente em salas de aula, cercado por estudantes de diferentes gerações, encarar leituras densas e participar de discussões complexas me fez temer que talvez eu estivesse um pouco enferrujado.
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Felizmente, uma das primeiras lições que tive, foi que a neurociência moderna e a experiência prática desmentem esse dogma.
O cérebro maduro não perde a capacidade de aprender; apenas exige estímulos deliberados para ativar sua principal ferramenta de adaptação, a plasticidade."
A lição de David Eagleman: o cérebro vivo
Entre as disciplinas mais marcantes que cursei na Universidade de Stanford, a aula sobre Plasticidade Cerebral, ministrada pelo neurocientista David Eagleman — autor do livro "Livewired" —, transformou minha visão sobre o potencial humano.
Eagleman desconstrói a metáfora clássica de que o cérebro opera como um computador, dividido entre hardware (a máquina física fixa) e software (os programas que executamos). O cérebro humano é livewired: um sistema vivo que se reconfigura fisicamente a cada segundo em resposta a estímulos, experiências e ao ambiente.
No fundo, o cérebro opera como uma caixa-preta trancada no silêncio e na escuridão do crânio. Ele não enxerga luz nem escuta sons diretamente; apenas recebe sinais elétricos que representam o mundo externo. Bilhões de neurônios iluminam regiões específicas para decodificar esses dados por meio de conexões cuja complexidade a ciência ainda começa a desvendar.
Essa flexibilidade explica casos extraordinários como o estudo de caso do menino Matthew, submetido, na infância, à remoção cirúrgica de metade do cérebro para controlar convulsões graves. Contra todas as previsões, o hemisfério restante assumiu as funções perdidas, permitindo-lhe uma vida cognitiva normal.
Em sua startup Neosensory, Eagleman levou essa lógica além, criando tecnologia de substituição sensorial: pulseiras que convertem sons em vibrações na pele, permitindo que pessoas com perda auditiva "ouçam" por meio do tato. Como o cérebro processa apenas pulsos elétricos, aprende a interpretar qualquer canal de entrada.
Essa imersão gerou debates enriquecedores entre os colegas de turma no DCI. Compreendemos que o cérebro foi biologicamente programado para detectar mudanças e novidades. Quando entramos em rotinas previsíveis, economizamos energia e passamos a operar em piloto automático.
Para evitar essa cristalização, Eagleman sugeria pequenos desafios diários: alternar trajetos no trânsito, trocar o relógio de pulso ou fazer anotações à mão em vez de digitar. Pequenas rupturas sensoriais forçam os neurônios a criar caminhos alternativos.
Três lições sobre neuroplasticidade:
- O cérebro nunca está pronto: a biologia não impõe data de validade ao desenvolvimento. O cérebro passa por remodelação constante.
- Neurônios que disparam juntos se conectam entre si: circuitos utilizados com frequência tornam-se mais eficientes. Essa dinâmica consolida tanto competências quanto padrões improdutivos, como a ansiedade.
- A adaptabilidade exige novidade: Acomodar-se à rotina atrofia o aprendizado. Estimular o cérebro requer sair intencionalmente da zona de conforto.
Bem longe da minha zona de conforto
Curioso sobre como aplicar essa plasticidade em alto nível, perguntei diretamente a Eagleman o que eu deveria fazer.
O conselho dele foi enfático: "Aprenda a tocar um instrumento musical ou estude um idioma totalmente distante da sua zona de conforto."
Então decidi cursar um ano inteiro de mandarim em Stanford. Em vez de escolher uma língua com raízes latinas familiares, busquei o desconhecido: uma língua tonal, com quatro tons distintos que alteram o significado de cada palavra, além de uma escrita e uma fala sem qualquer paralelo com a minha.
Foi uma das experiências acadêmicas mais desafiadoras da minha vida. Turmas com quatro a seis alunos exigiam chamadas orais diárias, memorização rigorosa de caracteres e participação ativa. Sentir o cérebro sob tensão ao decodificar sons e símbolos novos foi a prova viva da neuroplasticidade: o desconforto intelectual é o sinal das sinapses sendo formadas.
O aprendiz centenário
Percebi que essa busca por desafios e conhecimento sempre esteve presente na minha família. Meu pai foi um exemplo de lifelong learner — um eterno aprendiz. Ele manteve a mente curiosa e ativa até os 97 anos. Testemunhar sua lucidez ao longo de quase um século me ensinou que uma vida longa só ganha plenitude quando acompanhada de vitalidade intelectual.
A revolução da longevidade não consiste em acumular aniversários, mas em sustentar a capacidade de aprender, adaptar-se e contribuir ao longo de todas as etapas.
O cérebro humano foi programado para evoluir até o fim. Cabe a cada um de nós decidir se vamos tratá-lo como hardware ou como um território infinito de renovação."
E você, qual foi a última vez que tirou seu cérebro da zona de conforto?
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