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Longevidade: Quem cuida de quem cuida? Especialistas debatem

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Em evento online, convidados mostraram trabalhos voltados a cuidadores da Índia, Colômbia e Itália - Reprodução/Youtube/@emotionTV
Em evento online, convidados mostraram trabalhos voltados a cuidadores da Índia, Colômbia e Itália
Por Bianca Bibiano

10/09/2026 | 16h52

São Paulo - O avanço acelerado da longevidade global coloca no centro dos debates econômicos e sociais uma pergunta por vezes ignorada: quem vai cuidar de quem cuida? A resposta a essa provocação guiou um dos painéis de apresentações do primeiro dia da Conacare Internacional 2026, evento que integra a programação da Geronto Fair Online

Em vez de tratar a assistência como um fardo doméstico restrito às famílias, especialmente às mulheres e meninas, especialistas e empreendedores sociais de três países apresentaram abordagens complementares que transformam o ato de cuidar em pauta de direitos humanos, desenvolvimento de competências e inclusão no mercado corporativo.

Cuidado também é liderança, defende italiana

Em uma das apresentações do Conacare Internacional, a palestrante e escritora italiana Riccarda Zezza, fundadora da plataforma Lifeed, debateu o espaço do cuidado na vida profissional dos cuidadores.

Com base em mais de dez anos de estudos que acompanharam cerca de 70 mil pessoas em parceria com universidades e centros de pesquisa, ela questiona o viés do mercado de trabalho de definir a maternidade, paternidade ou o amparo a pais idosos como "pausas", "buracos" ou perdas de produtividade no currículo.

Zezza explicou que esse "ponto cego corporativo" ignora o aprendizado contínuo que ocorre fora do escritório.

O mercado conta o que o cuidado parece tirar, mas ignora o que as pessoas estavam praticando através dele."

Nesse sentido, apontou dados de suas pesquisas mostrando que o papel de cuidador surge 2,5 vezes mais entre profissionais acima de 55 anos do que na amostra geral. Mencionou também que ninguém possui uma identidade única: "somos formados por um portfólio dinâmico de papéis (filhos, parceiros, cuidadores, profissionais, amigos)",  destacando que em vidas mais longas, esses papéis se sobrepõem. 

Para transformar essa prática empírica em um recurso visível e mensurável, Zezza criou o conceito de Transiliência (Transilienza, no original em italiano). A metodologia acadêmica propõe uma abordagem que desconstrói a rotina real de um papel pessoal, identifica os comportamentos repetidos e mapeia os recursos desenvolvidos para fazer uma transferência das competências exercidas pelos cuidadores para a vida profissional.

Nossa análise revelou que o cuidado produz um mapa rico de recursos. A parentalidade e o papel de cuidador revelaram perfis de competência tão densos quanto os de cargos de gestão."

Como exemplo, Zezza diz que uma filha que coordena a rotina médica e emocional de um pai idoso está exercitando negociação, gestão de crise e calma sob pressão, ainda que enxergue isso apenas como uma obrigação imediata. Ao dar nome a esses recursos, competências como empatia, inteligência relacional e capacidade de articulação passam a integrar o repertório e o currículo do indivíduo.

Sua tese foi detalhada no livro 'Il potere della transilienza', que chegará este mês ao Brasil com o título Transiliência (Editora Voo) e propõe uma nova pergunta para a era da longevidade: em vez de questionar o que um trabalhador 50+ ainda precisa aprender, a sociedade deve investigar o que ele já sabe e como esse conhecimento pode servir a outras áreas da vida.

A lacuna de direitos na Índia

Se na Europa a discussão avança sobre o aproveitamento dessas habilidades no mercado corporativo, na Índia e em países vizinhos a urgência ainda passa pela garantia da sobrevivência e da dignidade básica.

O fundador e diretor executivo da organização Carers Worldwide (India), Anil Patil, compartilhou no evento o modelo holístico que desenvolveu na Índia, Nepal, Bangladesh e Quênia após vivenciar as dificuldades do cuidado não remunerado na criação de sua filha Maya, que tem síndrome de Down.

Patil destacou que milhões de pessoas vivem em situação de isolamento, estresse e pobreza por não conseguirem conciliar a atenção a parentes idosos ou com deficiência com o trabalho formal. Para romper esse ciclo, ele contou que a organização atua em cinco frentes:

  • Redes comunitárias: criação de grupos de apoio para combater a solidão;
  • Saúde do cuidador: suporte físico e psicológico a quem presta a assistência;
  • Autonomia financeira: estímulo a pequenos negócios flexíveis à rotina doméstica;
  • Centros de convivência: espaços de descanso para os familiares enquanto o dependente recebe atendimento especializado;
  • Articulação política (advocacy): pressão sobre governos para inclusão dos cuidadores em políticas públicas de seguridade social.

"Isso me leva à questão do envelhecimento e da longevidade. Estamos vivendo mais, e isso é algo a ser comemorado. Mas precisamos perguntar: quem fornecerá esse cuidado? Em muitos países, a resposta continuará sendo as famílias", ponderou em sua fala, e destacou:

Não podemos simplesmente esperar que as famílias, particularmente mulheres e meninas, forneçam volumes crescentes de cuidado não remunerado sem apoio. Se queremos que as pessoas envelheçam bem, precisamos garantir que as pessoas que cuidam delas também fiquem bem."

Inclusão econômica de cuidadoras na Colômbia

Na América Latina, a fundadora e diretora executiva da Fundación Soy Oportunidad, María del Mar Jaramillo Salcedo, da Colômbia, abordou a barreira que o cuidado não remunerado impõe ao desenvolvimento econômico feminino.

Segundo Maramo, encontrar um emprego comum não resolve o problema de uma mãe ou cuidadora em situação de vulnerabilidade se a jornada de trabalho for incompatível com a rotina de assistência.

Em vídeo enviado ao evento, ela contou que sua organização atua capacitando mulheres em habilidades digitais e, simultaneamente, prestando consultoria para o setor privado por meio da rede 'Empresas que Cuidam'.

"Elas precisam de oportunidades que realmente se adaptem às suas realidades. Trabalhamos para mudar essa situação. Conectamos mulheres cuidadoras a treinamentos, habilidades digitais, oportunidades de emprego e empreendedorismo, além de mentores, redes de apoio e empresas", explicou.

A iniciativa orienta corporações a adotarem horários flexíveis, redes internas de suporte e estratégias de inclusão que evitem que a profissional precise escolher entre garantir o sustento da casa ou prestar assistência à família. Sobre isso, ela ponderou que: 

O cuidado pode moldar completamente as oportunidades de uma mulher. Ele pode determinar se ela poderá estudar, trabalhar, gerar renda ou construir a vida que imagina para si mesma."

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