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Realidade virtual na fisioterapia traz autonomia e mais mobilidade a idosos

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Tecnologia ajuda idosos a melhorar mobilidade, equilíbrio e autonomia - Adobe Stock
Tecnologia ajuda idosos a melhorar mobilidade, equilíbrio e autonomia
Por Alexandre Barreto

16/06/2026 | 16h45

São Paulo - A realidade virtual (RV) tem se consolidado como uma aliada da fisioterapia voltada à população idosa. Por meio de exercícios que simulam situações do cotidiano, a tecnologia contribui para melhorar o equilíbrio, a mobilidade e a capacidade de reação, fatores essenciais para a prevenção de quedas, um dos principais desafios de saúde entre os idosos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 28% e 35% das pessoas com mais de 65 anos sofrem pelo menos uma queda por ano. O índice aumenta conforme o avanço da idade, tornando a prevenção uma das prioridades da reabilitação geriátrica.

Instituições de longa permanência, clínicas, atendimentos domiciliares têm começado a incorporar ferramentas de realidade virtual aos tratamentos tradicionais. Especialistas ouvidos pelo VIVA afirmam que a tecnologia não substitui a fisioterapia convencional, mas pode potencializar os resultados quando utilizada de forma integrada.

Realidade virtual é um recurso complementar

O fisioterapeuta e especialista em gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) Rafael Linhares explica que a realidade virtual é aplicada como um recurso complementar de reabilitação.

“A gameterapia proporciona enriquecimento sensorial dentro de uma proposta multicomponente, lúdica e inovadora, mas não substitui a fisioterapia convencional. O cenário ideal é combinar a tecnologia da realidade virtual com estímulos personalizados de cinesioterapia, conforme sugerem os estudos realizados sobre o uso dessa tecnologia nesse contexto”, explica.

Rafael Linhares é fisioterapeuta, especialista em Gerontologia e CEO do Fisio do Idoso
Rafael Linhares é fisioterapeuta, especialista em Gerontologia e CEO do Fisio do Idoso - Divulgação

De acordo com o especialista, diferentes tecnologias podem ser utilizadas, desde sensores de movimento presentes em videogames até óculos de realidade virtual imersiva. O objetivo é criar cenários que reproduzam desafios enfrentados no dia a dia.

"Um dos principais diferenciais é a possibilidade de gerar perturbações controladas em ambiente seguro. Ao simular desequilíbrios, por exemplo, desafiamos a pessoa idosa a treinar estratégias de reação rápidas e ajustes posturais em tempo real", explica.

A fisioterapeuta Thais Cassiolato destaca que a ferramenta também torna os exercícios mais atrativos para os pacientes.

“Ela serve como uma ferramenta capaz de tornar os exercícios mais animados e estimulantes, incentivando a participação ativa do idoso durante o processo de reabilitação”, disse.

Benefícios vão além do equilíbrio

Os especialistas relatam ganhos importantes na coordenação motora, velocidade de resposta e confiança para realizar tarefas cotidianas. Para Rafael Linhares, um dos principais avanços observados está na capacidade de executar a chamada dupla tarefa, habilidade que combina movimento físico e processamento de informações simultaneamente.

A realidade virtual exige que a pessoa idosa perceba, interprete, reaja e interaja com o cenário virtual (estímulo cognitivo e visual) enquanto transfere peso, move as pernas e realiza alcances (resposta motora)."

Essas evoluções podem ser acompanhadas por meio de avaliações amplamente utilizadas na fisioterapia, como o Timed Up and Go (TUG), o Short Physical Performance Battery (SPPB) e a Escala de Equilíbrio de Berg.

Já Thais Cassiolato destaca que muitos pacientes apresentam melhora da autoconfiança após o treinamento. “Os aprimoramentos mais significativos incluem melhorias no equilíbrio, na coordenação motora, na velocidade de resposta e na autoconfiança para executar atividades cotidianas. Adicionalmente, a realidade virtual propicia desafios controlados e seguros, permitindo que o paciente pratique diversas situações funcionais sem se expor a riscos desnecessários”, pontua.

Thais Cassiolato é fisioterapeuta especialista em atendimento domiciliar e pilates terapêutico
Thais Cassiolato é fisioterapeuta especialista em atendimento domiciliar e pilates terapêutico - Arquivo pessoal

A prevenção de quedas é uma das áreas que mais têm despertado interesse dos pesquisadores. Thais afirma que estudos já demonstram benefícios da realidade virtual nesse aspecto, especialmente quando a ferramenta é associada a programas estruturados de exercícios físicos.

Segundo ela, os ambientes virtuais permitem que o paciente enfrente desafios semelhantes aos encontrados fora da clínica, mas sem os riscos associados ao mundo real.

Os exercícios simulam cenários semelhantes aos encontrados no cotidiano, permitindo que o paciente desenvolva estratégias para lidar melhor com obstáculos e mudanças no ambiente", destaca.

Exercícios que apresentam bons resultados

Os especialistas apontam que atividades relacionadas ao controle postural e aos deslocamentos corporais costumam apresentar os resultados mais expressivos. Entre os exemplos estão jogos que simulam boliche, tênis, canoagem e caminhadas com obstáculos virtuais. Essas atividades exigem transferência de peso, alcance de objetos e movimentação fora da zona de conforto corporal.

Embora a realidade virtual possa ser utilizada em diferentes perfis de pacientes, alguns grupos tendem a apresentar melhores resultados. De acordo com os especialistas, idosos com comprometimentos leves ou moderados de mobilidade, equilíbrio preservado parcialmente e boa capacidade cognitiva costumam responder melhor ao tratamento.

"Aspectos como capacidade cognitiva preservada, aderência ao tratamento e regularidade das sessões impactam diretamente os resultados alcançados", afirma Thais.

Idosa usa um headset de realidade virtual enquanto uma fisioterapeuta orienta os movimentos do braço
Idosa usa um headset de realidade virtual enquanto uma fisioterapeuta orienta os movimentos do braço - Divulgação

Por outro lado, pacientes com alterações cognitivas mais avançadas podem exigir adaptações específicas ou apresentar menor resposta às terapias imersivas.

Um estudo publicado na PubMed Central (PMC) em 2024 analisou 20 ensaios clínicos envolvendo idosos saudáveis e encontrou resultados positivos para a utilização da realidade virtual na reabilitação.

Os pesquisadores concluíram que a terapia com realidade virtual foi mais eficaz do que os cuidados habituais e, em diversos casos, apresentou desempenho superior aos exercícios convencionais na melhora do equilíbrio estático, equilíbrio dinâmico e marcha.

Barreiras que limitam expansão da RV

Apesar dos resultados promissores, a adoção da tecnologia ainda enfrenta desafios. O principal deles é o custo dos equipamentos e a necessidade de capacitação dos profissionais para utilizar os recursos de forma terapêutica.

Outro obstáculo está na disponibilidade limitada da tecnologia em locais frequentados por idosos, como unidades básicas de saúde, centros de convivência e instituições de longa permanência. "Sem essa infraestrutura, o acesso acaba ficando restrito a poucos serviços especializados", observa o especialista.

Também existem desafios relacionados à adaptação dos pacientes, já que alguns idosos apresentam resistência inicial ao uso de tecnologias ou possuem limitações visuais, auditivas e cognitivas que exigem abordagens individualizadas.

A expectativa dos especialistas é que a popularização dos equipamentos reduza custos e amplie o acesso à tecnologia nos próximos anos. Além disso, as futuras gerações de idosos deverão chegar à terceira idade com maior familiaridade com computadores, smartphones e videogames, o que pode facilitar a adesão às terapias digitais.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o uso da internet pela população com 60 anos ou mais no Brasil alcançou 69,8%. O número de idosos conectados saltou de 6,5 milhões, em 2016, para 24,5 milhões em 2024.

A aceitação e o engajamento com as terapias virtuais serão cada vez mais orgânicos, consolidando a RV como um recurso importante para promover a reabilitação, o bem-estar e um envelhecimento cada vez mais ativo e inclusivo", conclui Rafael Linhares.

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