Bonecos com IA ajudam idosos e combatem mortes por solidão na Coreia do Sul
Reprodução/Hyodol
São Paulo - Pode até parecer um episódio da série britânica Black Mirror, mas não é. A Coreia do Sul está usando bonecas com inteligência artificial (IA) para oferecer companhia e apoio a idosos que vivem sozinhos, e a prática já apresenta bons resultados. Conhecida como Hyodol, a tecnologia foi criada para reduzir os efeitos da solidão, ajudar na rotina diária e monitorar sinais de bem-estar em um País que enfrenta o rápido envelhecimento da população.
A iniciativa ganhou destaque na Coreia do Sul em meio a um cenário preocupante. Em 2024, mais de 3.920 pessoas morreram sozinhas no País e tiveram seus corpos encontrados apenas algum tempo depois. O fenômeno, conhecido como "morte por solidão", tornou-se um desafio social e de saúde pública para as autoridades sul-coreanas.
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Atualmente, cerca de 42% dos domicílios da Coreia do Sul são compostos por apenas uma pessoa. Entre os idosos, o isolamento social é uma das principais preocupações, especialmente porque o País já é considerado uma sociedade superenvelhecida, com mais de 10 milhões de habitantes acima dos 65 anos.
O que é a boneca Hyodol?
A Hyodol é uma boneca feita de tecido e componentes eletrônicos, equipada com inteligência artificial e conectada a uma plataforma digital. O dispositivo foi desenvolvido para funcionar como uma companhia diária para idosos, oferecendo interação social e suporte para atividades rotineiras.
Com voz infantil, a boneca conversa com os usuários, faz perguntas, canta músicas, propõe exercícios cognitivos e responde a estímulos físicos, como toques na cabeça ou apertos de mão. Ao retornar para casa, o idoso pode ouvir mensagens como "estive esperando por você o dia todo", criando uma sensação de interação constante.
Além da companhia emocional, a Hyodol desempenha funções práticas relacionadas à saúde e ao cuidado diário. Entre os principais recursos estão:
- Lembretes para tomar medicamentos;
- Avisos sobre horários das refeições;
- Incentivos para prática de exercícios;
- Alertas em situações de emergência;
- Monitoramento de períodos prolongados de inatividade;
- Registro de hábitos diários para acompanhamento de cuidadores.
As informações podem ser acessadas por familiares, assistentes sociais e cuidadores autorizados por meio de aplicativos e plataformas online. Os sensores presentes na boneca permitem acompanhar indicadores relacionados à qualidade de vida do usuário.
Dados sobre rotina, humor, padrões de sono e relatos de desconforto podem auxiliar profissionais responsáveis pelo acompanhamento dos idosos. Segundo os desenvolvedores, o sistema opera mediante consentimento prévio e com foco na proteção da privacidade dos usuários.
Até novembro de 2025, aproximadamente 12 mil unidades haviam sido distribuídas por programas governamentais destinados a idosos que vivem sozinhos. Além disso, cerca de mil bonecas foram adquiridas diretamente por famílias interessadas em oferecer suporte adicional a parentes idosos.
A unidade do boneco custa cerca de 1,3 milhão de won sul-coreanos, valor equivalente a aproximadamente R$ 4.800.
Redução de sinais de depressão
Um estudo de 2024, publicado no Journal of Korean Gerontological Nursing, indica resultados positivos associados ao uso da tecnologia. A pesquisa ouviu 69 idosos que conviviam com a Hyodol e identificou redução de sintomas relacionados à depressão e melhora nas funções cognitivas.
Os pesquisadores apontam que a interação frequente pode contribuir para o estímulo mental e para a manutenção de rotinas mais organizadas.
Apesar dos benefícios relatados, a utilização de bonecas com inteligência artificial para idosos também é alvo de discussões. Parte dos especialistas e dos próprios idosos questiona se esse tipo de solução pode representar uma forma de infantilização da velhice.
As críticas argumentam que o recurso não substitui o contato humano e pode impactar a percepção de autonomia e dignidade das pessoas mais velhas. Ainda assim, defensores da iniciativa afirmam que a tecnologia atua como ferramenta complementar de apoio, especialmente em regiões onde há escassez de cuidadores e aumento do número de idosos vivendo sozinhos.
Esse debate ocorre em um contexto de crescente preocupação com a saúde mental da terceira idade na Coreia do Sul. Dados publicados na Revista da Associação Médica Coreana apontam que, em média, dez idosos tiram a própria vida diariamente no País, um dos índices mais elevados entre as nações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
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