Associações médicas e de ensino superior divergem sobre resultados do Enamed
Foto: Adobe Stock
21/01/2026 | 18h38
São Paulo, 21/01/2026 - A divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) nesta semana evidenciou divergências entre entidades médicas e representantes do ensino superior. Sociedades médicas classificam o cenário como "alarmante" e cobram respostas das autoridades, enquanto mantenedoras questionam o caráter punitivo do exame e apontam problemas metodológicos na divulgação das notas.
Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, mais de 100 cursos de medicina obtiveram conceitos 1 ou 2, considerados insuficientes, o que resultará em sanções como suspensão de vagas e restrições ao Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). Ao todo, 32,6% dos 351 cursos avaliados ficaram abaixo do mínimo aceitável.
Entidades médicas defendem exames de proficiência, mas criticam expansão
Para o presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), Antonio José Gonçalves, a avaliação é essencial. "O Brasil não precisa de mais médicos, mas de melhores médicos", afirmou. Ele relata casos de recém-formados sem domínio de procedimentos básicos e alerta que denúncias de má prática cresceram no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). "Isso mostra que a população já está sofrendo as consequências dessa formação deficiente."
Levantamento da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), com dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, mostra que entre janeiro de 2024 e setembro de 2025 o MEC autorizou 77 novos cursos de Medicina e ampliou vagas em outros 20, somando 5.461 novas vagas em menos de dois anos. Em 2025, o País chegou a 494 escolas médicas, com cerca de 51 mil vagas anuais, 80% em instituições privadas.
Leia também: Lista de faculdades de medicina com 'piores notas' preocupa internautas
A região Nordeste concentrou 43% das novas vagas, seguida pelo Sudeste. Pará, Bahia e São Paulo lideraram em autorizações de novos cursos. Para o coordenador da pesquisa, Mário Scheffer, "essa expansão reflete tanto o lobby do setor privado da educação quanto diferentes marcos regulatórios".
Com o ritmo atual, o Brasil poderia alcançar 1,2 milhão de médicos até 2030. "A expansão aumenta a disponibilidade de profissionais, mas aprofunda o descompasso entre graduação e residência médica", avalia Scheffer.
O aumento no número de cursos já havia sido criticado pela Associação Médica Brasileira (AMB), que nesta semana também publicou nota manifestando "preocupação com a realidade gravíssima" das notas e estacando a necessidade de buscar "respostas firmes e responsáveis por parte das instituições de ensino e das autoridades regulatórias".
Assinada pelo presidente da entidade, César Eduardo Fernandes, a nota destaca que "os dados do Enamed também evidenciam uma forte assimetria na formação médica no Brasil".
"Universidades públicas federais e estaduais concentram mais de 84% de seus cursos nas faixas de excelência, enquanto os piores resultados ocorrem principalmente em instituições municipais e privadas com fins lucrativos."
Leia também: Ministério da Saúde seleciona 202 instituições para programa de residência médica
Ele diz ainda que, embora 67,1% dos cursos estejam entre conceitos 3 e 5, cerca de 13 mil estudantes não demonstraram proficiência adequada. "A nossa população atendida por esse contingente de médicos não proficientes ficará exposta há um risco incalculável de má prática médica", disse.
A AMB defende a criação de um exame de proficiência como pré-requisito para o registro profissional e avalia como positivas as sanções anunciadas pelo MEC, como suspensão de ingressos e restrições ao Fies.
Governo destaca papel do Enamed
Após o anúncio das notas, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou a importância do Enamed como referência para avaliar a qualidade dos cursos de medicina. "Na saúde, a gente sempre começa com um bom diagnóstico. O Enamed traz o melhor diagnóstico da proficiência no País", observou, e completou dizendo:
"Com ele, será possível identificar onde estão as instituições que formam bem, quais precisam melhorar a formação e quais necessitam se reorganizar para qualificar seus cursos. Ter médicos e médicas bem formados, com avaliação permanente e alinhados às novas diretrizes curriculares, é fundamental. A Constituição estabelece esse compromisso, e temos a expectativa de que essas medidas contribuam significativamente para a melhoria da formação médica."
Leia também: Sem controle, venda de atestados falsos avança nas redes sociais
Instituições de ensino questionam critérios e punições
Do lado das mantenedoras, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) criticou a aplicação imediata de sanções na primeira edição do exame. Em nota, a entidade afirmou que a divulgação tardia de critérios "fere princípios de previsibilidade e segurança jurídica" e alertou para risco de judicialização.
Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp, apontou inconsistências entre dados preliminares enviados às instituições e os resultados finais, atribuídas à mudança da nota de corte de proficiência. Embora reconheça que a metodologia final esteja correta, ele destaca que a divergência "gerou insegurança jurídica". Também criticou a escala de conceitos de 1 a 5, considerada "pouco intuitiva".
Ver essa foto no Instagram
Outros exames e mercado de preparação
Em outubro do ano passado, o Conselho Federal de Medicina publicou nota dizendo que apoia a criação de outro mencanismos de avaliação para futuros médicos, o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (ProfiMed).
O projeto foi aprovado em comissão do Senado naquele mês e está atualmente parado para vistas. Para parlamentares que participaram da votação, o novo exame seria criado por projeto de lei, garantido maior estabilidade que o Enamed em caso de trocas de governos.
Em outra frente, o Enamed também movimentou o mercado educacional. Plataformas como o Estratégia MED lançaram em 2025 cursos gratuitos de preparação para universitários. Segundo o coordenador pedagógico Joshua Viana, a iniciativa busca orientar estudantes "diante de um novo modelo de avaliação", que também é valida para ingresso em programas de residência.
Leia também: Levantamento inédito lista os 100 melhores hospitais públicos do Brasil
O que é o Enamed?
Criado pelo Inep, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) avalia competências e conhecimentos de concluintes de Medicina e integra o o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes).
Na primeira edição, os conceitos variaram de 1 a 5. Cursos com conceito 1 ou 2 sofreram punições que incluem suspensão de novos alunos, redução de vagas e bloqueio de acesso ao Fies, válidas até a próxima edição do exame, prevista para outubro de 2026.
Leia também: Programa abre vagas para médicos especialistas em áreas prioritárias do SUS
Vale lembrar que os cursos de medicina no Brasil são terminais. Ou seja, quando o aluno conclui o curso de graduação, ele recebe o diploma de formado em medicina. Com base nesse certificado, pode ir ao Conselho Regional de Medicina (CRM) do seu Estado e obter o registro profissional e o número de inscrição no CRM. Apenas com esse documento ele estará legalmente habilitado para atender pacientes e exercer a medicina no País.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
