Burnout, ansiedade e depressão: quando o trabalho pesa na saúde mental
Adobe Stock
São Paulo - A sobrecarga e a pressão por produtividade já não aparecem apenas como parte da rotina de trabalho: elas também têm reflexos na saúde mental dos profissionais. Em 2025, 546.254 benefícios foram concedidos por transtornos mentais e comportamentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social, número 15% superior ao registrado no ano anterior.
Leia também
A lógica de fazer mais com menos, cada vez mais presente nas organizações, também cobra um preço dos trabalhadores. Para Darwin Grein, CEO da Juntxs e especialista em desenvolvimento humano, a redução das equipes acompanhada pelo aumento das metas criou um cenário de sobrecarga corporativa, que ganhou novos contornos após a reestruturação do mercado de trabalho no período pós-pandemia.
“Tenho visto uma diminuição no número de pessoas dentro das organizações e um número de metas cada vez mais expressivo, justamente no momento em que estamos numa crise financeira global, afirma o especialista.
Ou seja, as metas aumentam, mas a gente não tem mais capacidade para atingir esses números extraordinários.”
O papel das empresas
Para além de práticas pontuais, como campanhas do Setembro Amarelo, a discussão sobre saúde mental também passou a alcançar a própria organização do trabalho. A partir de maio de 2026, os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho passaram a integrar o gerenciamento de riscos ocupacionais previsto pela Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1).
Na prática, a mudança amplia a atenção sobre situações como excesso de demandas, jornadas extensas, falta de autonomia e problemas nas relações de trabalho, que podem contribuir para o adoecimento dos profissionais.
Grein, que atua há mais de 15 anos como coach organizacional, avalia a aplicação das novas regras como uma via de mão dupla: “O trabalho depende de como as organizações vão olhar para seus colaboradores, para suas lideranças, para seus sistemas e processos, garantindo que tudo isso convirja para uma melhor qualidade de vida dos colaboradores e, consequentemente, melhores resultados financeiros para a organização”.
A atenção aos riscos psicossociais também muda a forma de interpretar os números de afastamentos por transtornos mentais e comportamentais. O adoecimento deixa de ser observado apenas a partir do indivíduo e passa a levantar questionamentos sobre o ambiente e a estrutura organizacional em que ele está inserido.
Há sinais que podem indicar o desgaste de uma equipe, como jornadas excessivas, dificuldade de recuperação após períodos de maior demanda e mudanças na forma como os trabalhadores lidam com as atividades cotidianas.
“A primeira coisa é observar o cansaço. Fases mais cansadas todos nós temos, por questões hormonais, por variações no volume de trabalho, por questões que coincidem com a vida pessoal. O problema é quando esse cansaço não tem mais fase de recuperação”, destaca o psiquiatra Daniel Sócrates.
Quando o cansaço passa do limite
O cansaço, por si só, não representa necessariamente um quadro de adoecimento. A preocupação surge quando a exaustão se torna persistente e começa a comprometer outras áreas da vida. Alterações no sono, irritabilidade, dificuldade de concentração, perda de interesse por atividades habituais e sensação constante de esgotamento estão entre os sinais que merecem atenção e podem indicar a necessidade de avaliação profissional.
Entre os quadros relacionados ao contexto ocupacional está a síndrome de burnout, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no ambiente de trabalho. Para Sócrates, a atenção aos primeiros sinais é importante para evitar o agravamento do sofrimento psíquico.
“Ansiedade e depressão seriam evoluções: o burnout seria esse primeiro degrau para chegar a essas doenças psiquiátricas de fato. Hoje o burnout não é considerado uma doença, é uma síndrome relacionada ao trabalho e pode evoluir para essas doenças”, alerta Sócrates.
A avaliação médica, no entanto, é fundamental para compreender cada caso. Sintomas de ansiedade, depressão, esgotamento e estresse podem se apresentar de formas semelhantes, mas não significam necessariamente o mesmo diagnóstico. Por isso, quando o sofrimento persiste ou começa a interferir na rotina, nas relações pessoais ou na capacidade de trabalhar, a busca por atendimento especializado pode ser necessária.
A prevenção também não se resume a iniciativas individuais. Ações de bem-estar podem fazer parte das estratégias de cuidado, mas mudanças mais profundas dependem da forma como jornadas, metas, processos e relações de liderança são estruturados.
“Uma das principais frentes é o desenvolvimento das nossas lideranças. A conscientização de quem vai passar demandas para os colaboradores, para que a pressão recebida de cima não seja repassada para baixo do mesmo jeito. Cuidar do desenvolvimento da liderança é um passo super importante para garantir a saúde mental do colaborador”, afirma Grein.
Indivíduo e coletivo
Se as condições de trabalho podem contribuir para o adoecimento, o cuidado também não pode ser colocado exclusivamente sobre os ombros do trabalhador. Ainda assim, existem comportamentos individuais que podem ajudar na identificação precoce do sofrimento e na preservação da saúde mental.
Em sua atuação clínica, Sócrates observa que alguns padrões podem favorecer a adesão a uma rotina de trabalho disfuncional, especialmente quando os limites entre a vida profissional e pessoal deixam de existir.
“A gente abre mão muito fácil do nosso descanso. Assume trabalho que não é nosso, passa do horário, compromete o feriado, o final de semana, o tempo com a família. Se eu não tiver descanso, se estiver tudo sempre muito intenso, eu vou me esgotar em algum momento.”
Na contramão desse ciclo, manter momentos de descanso e uma rotina de cuidados básicos pode contribuir para a saúde mental, mas não substitui a avaliação e o tratamento profissional. “Existem alguns pilares que precisam ser mantidos sempre ativos para que eu tenha saúde mental de um modo geral: sono, com uma noite bem dormida, atividade física e boa alimentação. Eles são inegociáveis no tratamento de saúde mental”.
(Por Isabelle Santana, especial para o VIVA)
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.