Casos de burnout disparam no INSS e tendência é crescer nas empresas sob NR-1
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São Paulo - O número de concessões de auxílio-doença por síndrome de burnout aumentou 12 vezes entre 2019 e 2025 no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), assim como o total de afastamentos por saúde mental no País. É o que aponta um levantamento exclusivo realizado pelo VIVA.
Embora o crescimento ao longo dos anos seja expressivo e o fenômeno cada vez mais comentado no meio corporativo, o burnout ainda representa uma porcentagem pequena no cenário de afastamentos por saúde mental no INSS.
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A questão é que, com a entrada em vigor da norma corporativa NR-1, que exige das empresas políticas de prevenção de problemas de saúde mental aos funcionários, a tendência é que haja mais notificações desses casos, segundo especialistas.
Sendo assim, as empresas têm a oportunidade de avaliar o impacto financeiro das iniciativas de prevenção em comparação ao gasto com afastamentos dos funcionários, que quando entram no INSS para soliciar o benefício ficam fora do trabalho em torno de 3 meses.
A CEO da Umanni e presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos de São Paulo (ABRH- SP), Eliane Aere, afirma que a prevenção não é apenas a abordagem mais humana, mas inquestionavelmente a mais econômica.
Ela argumenta que dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Banco Mundial comprovam que cada US$ 1 investido em saúde mental gera um retorno de US$ 4 em produtividade e redução de custos com saúde.
Ela cita uma pesquisa própria na ABRH-SP/Umanni que reforça que Cultura Organizacional e Desenvolvimento de Liderança foram apontados por mais de 30% dos respondentes como os principais desafios para 2026.
Lideranças preparadas e uma cultura que não normalize o adoecimento são os verdadeiros antídotos contra o burnout. Implementar políticas corporativas de prevenção, como orienta a NR-1, é investir diretamente na perenidade da empresa e na performance sustentável de seus talentos", diz Aere.
Impacto da NR-1 nos quadros de burnout
O amadurecimento dos critérios diagnósticos e a vigência da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) desde maio deste ano geram expectativa de uma medição mais fiel no futuro. "Isso provavelmente fará com que os números de burnout cresçam nos próximos anos, sem que isso signifique, necessariamente, que as empresas adoeceram de repente", afirma a especialista em medicina legal e perícia médica Caroline Daitx, CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (Caepe).
A atualização da NR-1, que passou a exigir das empresas a identificação e o gerenciamento dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), ampliou a atenção dada ao tema dentro das organizações, segundo a advogada trabalhista Elisa Alonso, sócia da RCA Advogados.
Mas o aumento dos afastamentos no INSS não significa, automaticamente, que a doença tenha origem no trabalho. A legislação exige análise individual para verificar se existe nexo causal ou concausal entre a atividade exercida e o adoecimento.
Embora tenha aumentado a investigação sobre a influência das condições de trabalho em quadros de ansiedade, depressão e burnout, a mera existência de um transtorno psicológico não caracteriza doença ocupacional. Essa conclusão depende da perícia médica e das provas."
O que explica o aumento de afastamentos por burnout?
O burnout foi reconhecido como uma síndrome ligada ao estresse crônico de trabalho não gerenciado, em 2019, pela Organização Mundial de Saúde, que o inclui na última versão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11).
Isso deu nome, critério e legitimidade a um quadro que antes era diagnosticado e codificado de outras formas. Médicos passaram a atestar 'burnout', trabalhadores passaram a nomear o próprio sofrimento assim, e a discussão sobre a nova NR-1 colocou o tema no centro do debate corporativo", afirma Daitx.
Entretanto, o código específico de burnout ainda captura uma fração pequena de um problema muito maior. Como revela o levantamento do VIVA, as principais causas de afastamento são ansiedade e depressão.
"É preciso cautela para não superestimar esse número", afirma Daitx. Afinal, é possível que, entre os 603 mil registros de ansiedade e os 100 mil de reações ao estresse do levantamento, existam quadros com componente ocupacional relevante, que hoje poderiam ser nomeados como burnout.
A definição da OMS exige que o burnout decorra especificamente do estresse crônico no contexto do trabalho, e não deve ser aplicado a experiências de outras áreas da vida. Porém, na prática clínica e pericial, o adoecimento mental raramente tem causa única. Os transtornos ansiosos e depressivos são multifatoriais, resultando da interação entre "predisposição individual, histórico pessoal e familiar, eventos de vida, comorbidades clínicas e, entre tantos outros fatores, também as condições de trabalho".
"Diante de um paciente com exaustão, insônia e sintomas ansiosos, que enfrenta simultaneamente sobrecarga profissional, dificuldades financeiras e um luto familiar, definir quanto do quadro é 'do trabalho' é tarefa complexa, que exige avaliação individualizada — e que nenhuma estatística de código CID consegue capturar", explica a perita médica.
É uma possibilidade aventada também pelo Ministério da Previdência. "O eventual aumento de registros pode estar relacionado ao maior uso desse código diagnóstico por médicos assistentes, à possível substituição de códigos anteriormente utilizados para quadros relacionados a estresse, ansiedade ou depressão", afirma em nota ao VIVA.
A Previdência informa que não houve mudança no critério pericial de análise da incapacidade para o trabalho em razão do burnout ou de outros transtornos mentais e comportamentais e que, para fins periciais, a concessão depende da comprovação da incapacidade laborativa, e não apenas do diagnóstico informado.
Ainda que o número de benefícios concedidos tenha aumentado nos últimos anos, o Ministério afirma que não possui levantamento consolidado sobre o impacto financeiro específico dos afastamentos por saúde mental nas contas da Previdência.
Na avaliação da advogada Elisa Alonso, os efeitos econômicos tendem a se tornar mais relevantes à medida que cresce o número de trabalhadores afastados. Segundo ela, sob a perspectiva das empresas, os reflexos também podem ser significativos.
"Dependendo do reconhecimento do nexo ocupacional, o afastamento pode influenciar indicadores utilizados no cálculo do Fator Acidentário de Prevenção, repercutir na alíquota do Seguro contra Acidentes do Trabalho, além de aumentar o risco de ações trabalhistas envolvendo indenizações por danos materiais, morais e, em determinadas situações, existenciais."
Como evitar afastamentos por saúde mental
Há consenso na literatura científica de que ambientes de trabalho mais saudáveis não apenas reduzem o adoecimento, como também favorecem ganhos de produtividade, diz o consultor e especialista em medicina do trabalho Gustavo Locatelli, professor do Hospital Israelita Albert Einstein.
Quando se oferece uma melhor experiência de trabalho, o funcionário produz mais e produz melhor. Hoje, produtividade não significa apenas fazer mais tarefas, mas gerar mais valor por meio da criatividade, da inovação e da capacidade de resolver problemas."
Para Locatelli, a atualização da NR-1 reforça a necessidade de as empresas identificarem e gerenciarem riscos psicossociais. "Quando essas medidas são implementadas de forma consistente, todos ganham, trabalhadores, empresas e a própria sociedade".
O contador e advogado previdenciário Felipe Oliveira afirma que, embora os custos financeiros sejam uma preocupação, o principal desafio está em evitar que o adoecimento aconteça:
Quanto maior o cuidado com a saúde mental dos trabalhadores, melhores tendem a ser as condições de trabalho, a produtividade das empresas e os reflexos para toda a sociedade."
Os efeitos são percebidos com maior intensidade pelas micro e pequenas empresas, que costumam ter menor capacidade para substituir profissionais afastados por longos períodos. "Quando uma empresa com 10 ou 15 funcionários perde um líder, um gerente ou mesmo um colaborador da operação, muitas vezes ela não consegue substituí-lo imediatamente. Isso afeta diretamente a produtividade e a rotina do negócio", pondera.
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