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Burnout dopaminérgico: por que você não consegue mais desligar o cérebro

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Hiperexposição a estímulos e recompensas mantém a mente em constante estado de alerta - Adobe Stock
Hiperexposição a estímulos e recompensas mantém a mente em constante estado de alerta
Por Redação Viva

07/09/2026 | 17h00

São Paulo - Sempre à procura de novas mensagens e e-mails, com necessidade de respostas rápidas e dificuldade para simplesmente parar. Esses comportamentos podem estar relacionados ao chamado burnout dopaminérgico, expressão usada para descrever um estado de sobrecarga provocado pela exposição constante a estímulos e recompensas.

O cérebro parece não parar. O fim de semana já não é suficiente para recuperar a energia. Durante as férias, a mente continua no trabalho. Os momentos de descanso podem vir acompanhados de culpa por não estar sendo produtivo. Até que, em alguns casos, a pessoa chega ao ponto de não conseguir mais trabalhar.

Para a neuropsicóloga especialista em longevidade mental e neurofeedback Anelise Pirola, esse processo pode ser entendido como uma resposta do cérebro ao excesso de informações e estímulos aos quais ele é submetido diariamente. O uso constante de telas, as redes sociais com feeds intermináveis e a cobrança excessiva no ambiente profissional, fazem parte de uma rotina que nem sempre permite momentos reais de pausa.

O tempo que se tem entre um estímulo e a expectativa da recompensa vai diminuindo. Então é uma questão da urgência. As pessoas ficam hipervigilantes, sempre na expectativa de que tem que ter uma resposta muito rápida”, afirma a especialista.

Segundo Anelise, esse processo ganhou força principalmente depois da pandemia, quando o trabalho remoto aproximou ainda mais a vida profissional da pessoal. Com dashboards, aplicativos de mensagens e e-mails disponíveis praticamente o tempo todo, ficou mais difícil estabelecer um momento claro para parar.

Quais são os sinais?

O problema pode ser difícil de perceber justamente porque a pessoa continua funcionando. Ela trabalha, entrega resultados e cumpre suas obrigações. Por fora, pode parecer que está tudo bem. Por dentro, porém, a sensação pode ser bem diferente.

Entre os sinais apontados pela neuropsicóloga estão:

  • Dificuldade para pensar e organizar as ideias
  • Sensação de sobrecarga mental
  • Necessidade constante de conferir notificações
  • Expectativa de respostas imediatas
  • Estado de alerta praticamente permanente
  • Menor tolerância à frustração
  • Dificuldade para se desconectar do trabalho
  • Sensação de que férias e fins de semana não são suficientes para descansar
  • Uso das redes sociais como forma de descanso, sem que a mente realmente desacelere
  • Sensação de que sempre existe alguma coisa prestes a acontecer

“A pessoa está fazendo as entregas que precisa. É algo muito mais interno esse processo”, explica a neuropsicóloga.

O risco, segundo ela, está justamente em transformar esse estado de alerta em algo considerado normal. Quando a pessoa se acostuma a estar sempre disponível, pode começar a parecer errado, improdutivo ou até desconfortável.

O problema não é exclusivo do mercado de trabalho

A sobrecarga não precisa nascer dentro de uma empresa e também não está restrita aos adultos. De acordo com Anelise, o mesmo mecanismo pode aparecer em quem passa muitas horas conectado às redes sociais, busca constantemente curtidas e respostas ou simplesmente não consegue ficar longe das telas. “O sistema não faz diferenciação da fonte”, afirma.

No trabalho, porém, o processo parece ser mais frequente devido às cobranças por produtividade e entregas. Principalmente quando existe uma expectativa de que o trabalhador esteja disponível o tempo todo, mesmo fora do expediente.

E existe ainda outro problema: muitas pessoas acreditam que estão descansando quando, na realidade, apenas trocaram uma forma de estímulo por outra. Passar horas no celular depois de um dia inteiro diante do computador, por exemplo, pode representar uma mudança de atividade, mas não necessariamente uma pausa para o cérebro. Segundo a especialista, momentos de descanso precisam reduzir a quantidade de estímulos para que a mente tenha a oportunidade de desacelerar.

Pressão entre gerações

O fenômeno também pode aparecer entre adolescentes. A especialista explica que o mecanismo é semelhante, mas a relação com a tecnologia muda de acordo com a geração. Quem hoje tem 40 ou 50 anos precisou aprender a viver em um mundo cada vez mais digital. Já os adolescentes cresceram cercados por telas, notificações e respostas imediatas. “Um adolescente já nasceu dentro desse mundo que a gente tem hoje. Ele já cresceu tendo isso como resposta”, afirma.

No ambiente profissional, essa diferença pode criar uma pressão silenciosa entre gerações. De um lado, profissionais mais experientes, acostumados a esperar pelo reconhecimento e pela recompensa depois de um período de trabalho. Do outro, uma geração que cresceu em uma lógica de respostas mais rápidas e expectativas imediatas.

Por que isso preocupa as empresas?

A sobrecarga não atinge apenas executivos ou profissionais em cargos de liderança. Embora pessoas em posições de maior responsabilidade possam estar mais expostas, o excesso de estímulos e a dificuldade de desconexão podem aparecer em diferentes áreas e níveis profissionais.

Os números de afastamentos ajudam a dimensionar o tamanho do problema. Segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), as concessões de auxílio-doença relacionadas ao burnout passaram de 632 em 2019 para 7.648 em 2025, uma alta de aproximadamente 1.110%.

O avanço não aparece apenas nos casos associados ao burnout. Outros problemas relacionados à saúde mental também cresceram no período, como os afastamentos por ansiedade, depressão e estresse.

Para Anelise, o aumento dos afastamentos mostra que a discussão não pode ficar restrita ao comportamento individual.“Não dá para reduzir mais e dizer que é um problema isolado. São muitas pessoas se afastando por isso”, afirma.

Como reduzir a sobrecarga?

A mudança pode começar pelo próprio indivíduo. Em uma rotina marcada por cobranças, notificações e respostas imediatas, reconhecer os sinais de exaustão é o primeiro passo.

Isso também significa rever as formas de descanso. Para Anelise, é importante buscar formas de descanso que realmente reduzam os estímulos: ler um livro, caminhar, ficar em contato com a natureza ou simplesmente passar alguns minutos sem consumir informações.

Estabelecer limites para o trabalho também faz parte desse processo. Sempre que possível, é importante definir horários para encerrar as atividades profissionais, evitar levar demandas para todos os momentos do dia e diminuir a cobrança de estar disponível o tempo inteiro.

As empresas também precisam reconhecer os limites do trabalho e entender que disponibilidade permanente não é sinônimo de comprometimento.

Uma das indicações é criar “ambientes de descompressão”, com espaços e momentos destinados a pausas durante a jornada. Intervalos de 10 a 15 minutos, grupos de leitura ou atividades longe das telas podem ajudar o funcionário a interromper o fluxo contínuo de estímulos. “Essas pausas são muito importantes, porque é aí que a gente se reorganiza, que a gente reabastece a energia”, afirma Anelise.

Desligar por alguns minutos não significa abandonar as responsabilidades. Significa criar condições para que o cérebro possa continuar trabalhando sem permanecer preso ao excesso de estímulos. 

(Por Matheus Konzen, especial para o VIVA)

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