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Burnout: os sinais que o corpo e a mente dão antes do afastamento

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Empresas devem construir ambientes onde seja possível falar sobre sobrecarga - Adobe Stock
Empresas devem construir ambientes onde seja possível falar sobre sobrecarga
Por Claudio Marques

28/07/2026 | 08h29

São Paulo - Em meio a um cenário em que a alteração na NR-1 colocou a saúde mental no centro de discussões estratégicas das empresas, Luiz Edmundo Rosa, diretor nacional de Saúde e Bem-estar da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil), avalia que o burnout raramente acontece de forma repentina.

E o problema vem crescendo rapidamente. Dados do INSS indicam que a exaustão extrema tem se tornado motivo cada vez maior de afastamento dos trabalhadores. Segundo levantamento exclusivo feito pelo VIVA, o número de concessões de auxílio-doença por esgotamento mental aumentou 12 vezes entre 2019 e 2025.

Há uma pergunta que empresas, líderes e profissionais deveriam fazer com mais frequência: estamos percebendo os sinais de que alguém não está bem?", questiona.

Em entrevista ao VIVA, ele aponta como reconhecer os sinais de esgotamento e o papel fundamental das organizações na prevenção do burnout.

VIVA: O burnout costuma pegar os profissionais de surpresa?

Luiz Edmundo Rosa: O burnout raramente acontece de forma repentina. Antes do afastamento do trabalho ou da necessidade de um tratamento prolongado, o corpo e o comportamento costumam emitir alertas importantes. O problema é que eles, muitas vezes, são confundidos com o estresse comum da rotina, excesso de trabalho ou apenas uma fase difícil. Quando isso acontece, perde-se a oportunidade de agir antes que a situação evolua para uma crise.

Muito tem se falado sobre saúde mental nas empresas. Isso é suficiente para a prevenção?

Vivemos um momento em que a saúde mental ganhou espaço nas organizações, mas ainda precisamos avançar na capacidade de reconhecer o sofrimento antes que ele se torne incapacitante. A prevenção do burnout não começa no consultório. Ela começa na observação, no diálogo e na disposição para acolher alguém que demonstra, ainda que silenciosamente, que já não consegue lidar sozinho com a pressão.   

Quais seriam os primeiros sinais de que um profissional caminha para o esgotamento?

Os primeiros sinais costumam ser discretos. A ansiedade aumenta, a irritabilidade passa a fazer parte da rotina, o sono deixa de ser reparador e a energia oscila entre a agitação constante e um cansaço persistente. Pequenas falhas de memória, dificuldade de concentração e o isolamento de atividades antes prazerosas também merecem atenção. Sozinhos, eles não significam necessariamente burnout. Mas, quando se repetem, se intensificam e aparecem em conjunto, passam a indicar que algo precisa ser investigado.   

De óculos e blazer escuro, Luiz Edmundo Rosa sorri
Luiz Edmundo Rosa, diretor de Saúde e Bem-Estar da ABRH-BR - Divulgação/ABRH-BR

E quando o quadro se agrava, como o corpo reage?

À medida que o desgaste emocional se aprofunda, o organismo também manifesta esse desequilíbrio. Insônia crônica, transpiração excessiva, alterações de peso, aumento da pressão arterial e episódios de taquicardia podem surgir como consequência de um estado permanente de tensão. É o corpo mostrando aquilo que muitas vezes a pessoa ainda não conseguiu verbalizar.   

Quais são os impactos psicológicos caso nenhuma intervenção seja feita?

Quando nenhuma intervenção acontece, os impactos deixam de ser apenas físicos. Sentimentos persistentes de angústia, desesperança e perda de propósito podem comprometer profundamente a qualidade de vida. Em situações mais graves, surgem pensamentos relacionados à morte, um sinal inequívoco de que é preciso buscar ajuda especializada imediatamente. Nesses casos, o acolhimento rápido faz toda a diferença.   

Qual é a importância da rede de apoio — colegas, gestores e familiares — nesse processo?

É importante compreender que ninguém enfrenta esse processo sozinho. Assim como a pessoa pode ter dificuldade para perceber que está adoecendo, colegas, gestores, amigos e familiares também podem deixar de reconhecer mudanças importantes de comportamento. Criar uma rede de atenção é tão relevante quanto oferecer acesso a profissionais especializados.

Muitas vezes, uma conversa respeitosa, feita no momento certo, pode ser o primeiro passo para interromper o agravamento do quadro."

Qual deve ser o papel das organizações nessa frente?

Promover saúde mental vai muito além da oferta de benefícios ou campanhas pontuais. Significa construir ambientes psicologicamente seguros, onde seja possível falar sobre sobrecarga sem medo de julgamento, capacitar lideranças para identificar sinais precoces de sofrimento e estimular uma cultura em que pedir ajuda seja visto como um ato de responsabilidade, e não de fragilidade.   

Mas isso não colocaria os líderes empresariais em uma posição de terapeutas?

Isso não transforma gestores em psicólogos nem transfere às empresas a responsabilidade pelo tratamento clínico. O papel das organizações é criar condições para que o sofrimento seja percebido, acolhido e encaminhado adequadamente. Quanto mais cedo isso acontece, maiores são as possibilidades de evitar afastamentos prolongados, preservar vínculos e reduzir os impactos provocados pelo burnout.   

Afinal, é realmente possível evitar o burnout?

Talvez a pergunta mais importante não seja se podemos evitar o burnout, mas sim se estamos preparados para enxergar os sinais enquanto ainda há tempo."

Em muitos casos, podemos impedir que ele chegue ao ponto de ruptura. A prevenção começa pela atenção, passa pelo acolhimento e se fortalece em ambientes onde cuidar das pessoas deixa de ser um discurso para se tornar uma prática cotidiana. Nenhuma organização será verdadeiramente saudável se não aprender, antes de tudo, a reconhecer quando alguém precisa de ajuda.

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