Dislexia afeta crianças e adultos; entenda o que é e como tratar
Pexels/Kathy Jones
São Paulo, 02/03/2026 - Sabe aquela troca de letras na escrita ou dificuldade de pronunciar certos fonemas? Muitas vezes associado a crianças em fase de alfabetização, a dislexia é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica que afeta também adultos.
Apesar de não ser uma deficiência intelectual, pode causar dificuldades persistentes na leitura e na escrita e trazer impactos emocionais e funcionais ao longo da vida.
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A seguir, especialistas explicam o que é, como se manifesta na infância e vida adulta, quais são os sintomas e como tratar.
O que é dislexia?
Segundo Lucas Ravagnani, neurologista e professor de Medicina da UniCesumar, "a dislexia é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, como uma dificuldade persistente na leitura e na escrita que ocorre apesar de ensino adequado, inteligência preservada e oportunidades educacionais."
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Ele explica que a definição internacional atualizada em 2025 reforça que a dislexia não tem uma causa única, "pois resulta da interação entre fatores hereditários, funcionamento das redes cerebrais da linguagem e aspectos ambientais, como a qualidade da alfabetização e os estímulos linguísticos ao longo do desenvolvimento".
A fonoaudióloga Cristina Zerbinati complementa que a dislexia "se caracteriza principalmente por uma dificuldade no processamento fonológico", ou seja, na relação entre sons e letras.
Como ela afeta as crianças?
Na infância, a dislexia pode aparecer como dificuldade para aprender a ler e escrever, troca ou omissão de letras, lentidão na leitura e dificuldade para soletrar, algo que surge depois de iniciada a alfabetização, por volta dos quatro e cinco anos de idade.
Zerbinati explica que as crianças podem apresentar "dificuldade para decodificar palavras", leitura mais lenta e esforço maior para realizar tarefas escolares. Quando não reconhecida, a condição pode gerar frustração, insegurança e baixa autoestima desde cedo. Quanto mais cedo identificada, melhores serão os encaminhamentos e estratégias para ajudar a prosseguir na vida escolar.
O desinteresse momentâneo pela escola costuma aparecer em certas fases ou em matérias específicas. Já uma dificuldade de aprendizado se mostra constante, em diferentes situações, e mesmo quando a criança se esforça, ela não consegue avançar como deveria", pontua a psicopedagoga e escritora infantil Paula Furtado.
E é nesse momento que psicopedagogos, psicólogos e fonoaudiólogos podem atuar em conjunto para garantir uma abordagem global.
Para ajudar essas crianças, ela diz que é possível adotar em casa e na escola ações práticas para apoiar, com leveza, na rotina de estudos.
Rotina de estudos para crianças com dilexia
Entre as recomendações para crianças com dislexia estão:
- estabelecer rotinas curtas e previsíveis;
- tornar o estudo lúdico usando cronômetro colorido, músicas suaves ou um quadro de conquistas;
- dividir tarefas em etapas pequenas;
- aplicar reforço positivo diante dos avanços;
- ler junto e brincar com letras ou jogos que estimulem a atenção;
- e evitar críticas ou comparações, valorizando cada conquista da criança.
Além de ser parceira das famílias, o papel das instituições de ensino é acolher, orientar e desenvolver os alunos. Paula Furtado sugere algumas estratégias pedagógicas para atender essas necessidades:
- Uso de materiais multissensoriais (visual, auditivo, cinestésico).
- Divisão das tarefas em partes curtas.
- Oferecer tempo extra em provas e atividades.
- Trabalhar a leitura com jogos, músicas e recursos lúdicos.
- Incentivar a cooperação em vez da competição.
"Transtornos não significam incapacidade, e sim um modo diferente de aprender. Todas as crianças são capazes, basta encontrar o caminho certo para cada uma", conclui Furtado.
Dislexia acontece em adultos?
Sim. De acordo com Zerbinati, "a dislexia acontece desde a infância e acompanha a pessoa ao longo da vida".
Em adultos, o impacto costuma ser funcional, afetando provas, concursos, produtividade no trabalho e organização de tarefas. Em muitos casos, especialmente pessoas com mais de 50 anos, elas não receberam diagnóstico na escola porque o tema era pouco discutido décadas atrás.
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Segundo a fonoaudióloga, muitas dessas pessoas desenvolveram estratégias de compensação ao longo da vida. Além disso, o envelhecimento natural pode reduzir a velocidade de processamento e afetar memória, visão e audição. Isso pode tornar as dificuldades mais evidentes, mas não significa que a dislexia piorou. "A dislexia não piora com a idade", observa.
É importante diferenciar dislexia de declínio cognitivo ou demência. Na dislexia, o padrão de dificuldade está presente desde a infância. Já no declínio cognitivo, há perda progressiva de habilidades antes preservadas.
Quais são os sintomas da dislexia?
Os principais sintomas da dislexia incluem:
- Dificuldade persistente na leitura.
- Leitura lenta e com esforço.
- Trocas, omissões ou inversões na escrita.
- Dificuldade para soletrar.
- Dificuldade para lembrar sequências verbais.
- Sensação constante de esforço com baixo rendimento.
Apesar disso, muitas pessoas com dislexia têm boa compreensão oral, criatividade elevada e pensamento global.
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Dislexia tem cura?
Zerbinati explica que "a dislexia não é algo que tenha uma cura, mas tem uma intervenção que pode ser feita e é altamente eficaz". Essa intervenção é realizada em parceria entre médicos, fonoaudiólogos e psicopedagogos, com apoio da família e da escola.
No caso dos adultos, as estratégias podem ajudar na preservação da autonomia e nas atividades produtivas. Nesse sentido, o objetivo do tratamento não é eliminar o transtorno, mas reduzir o esforço e melhorar a funcionalidade.
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Como tratar a dislexia?
O tratamento da dislexia envolve avaliação especializada e abordagem multiprofissional. Pode incluir:
- Intervenção fonoaudiológica.
- Treinos de consciência fonológica.
- Estratégias metacognitivas.
- Adaptações funcionais.
- Uso de tecnologias assistivas, como audiolivros e programas de leitura por voz.
Ravagnani reforça que não existe medicação que trate diretamente o núcleo da dislexia e que os medicamentos são indicados apenas quando há condições associadas, como déficit de atenção, ansiedade ou depressão.
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