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Dislexia em pessoas 50+: ainda é possível identificar e o que fazer?

Pexels/Gustavo Fring

Na vida adulta, a dislexia tem um impacto geral na vida acadêmica, como em provas e concursos, além da produtividade no trabalho - Pexels/Gustavo Fring
Na vida adulta, a dislexia tem um impacto geral na vida acadêmica, como em provas e concursos, além da produtividade no trabalho
Por Bianca Bibiano

02/03/2026 | 08h08

São Paulo, 02/03/2026 - Os sinais da dislexia, como dificuldades persistentes de leitura e escrita, sensação de esforço constante para realizar tarefas simples e frustrações relacionadas ao aprendizado, parecem problemas que afetam apenas crianças em idade escolar, mas a verdade é que eles podem persistir ao longo de toda a vida.

Segundo estimativas citadas pelo Instituto ABCD, que se dedica ao tema, cerca de 10% da população mundial e 8% da brasileira tem dislexia. Porém, em muitos casos, especialmente entre quem tem mais de 50 anos de idade, esses sinais nunca foram investigados. 

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Segundo o neurologista e professor de Medicina da UniCesumar Lucas Ravagnani, identificar e tratar o transtorno faz diferença mesmo na velhice.

Sempre vale a pena intervir. A dislexia começa na infância, mas o cérebro mantém capacidade de aprendizagem ao longo de toda a vida. O objetivo nessa fase não é 'curar' a dislexia, e sim reduzir o esforço necessário para ler e escrever, melhorar a funcionalidade no dia a dia e aumentar a autonomia."

Inclusive, conta o médico, a definição internacional de dislexia foi atualizada em 2025. Ainda assim, o especialista reforça que dilexia não tem uma causa única, pois resulta da interação entre fatores hereditários, funcionamento das redes cerebrais da linguagem e aspectos ambientais, como a qualidade da alfabetização e os estímulos linguísticos ao longo do desenvolvimento".

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Começa na infância, mas afeta a vida adulta

A fonoaudióloga Cristina Zerbinati explica que a dislexia se caracteriza principalmente por uma dificuldade no processamento fonológico, ou seja, na relação entre sons e letras, o que impacta diretamente leitura, escrita e fluência por toda a vida.

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Zerbinati destaca que as principais características incluem "dificuldade para decodificar palavras", leitura lentificada e com esforço, trocas ou omissões na escrita e dificuldade para soletrar ou lembrar sequências verbais, como dias da semana e listas.

Para muitos adultos 50+, no entanto, o diagnóstico não veio na infância. Zerbinati lembra que, embora esteja em pauta há bastante tempo na área da saúde, o tema era pouco discutido nas escolas no passado. "Talvez as pessoas que hoje estejam já na faixa etária dos 50 a mais, talvez na época de escolaridade, de alfabetização, naquela época ainda não se tinha essa percepção dessa dificuldade."

Do ponto de vista da medicina, o neurologista Lucas Ravagnani reforça que a dislexia ocorre mesmo quando a pessoa tem acesso a um ensino adequado, tenha a inteligência preservada e as melhores oportunidades educacionais.

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Impactos funcionais

Na vida adulta, os efeitos podem aparecer sobretudo em situações formais que envolvem leitura e escrita. "O principal impacto que a gente encontra, sobretudo em adultos, é na vida acadêmica", diz Zerbinati, citando mau desempenho em provas e concursos, além de impactos negativos na produtividade no trabalho.

O resultado pode ser um sentimento recorrente de inadequação. "Acaba gerando aquela sensação de que a pessoa se esforça muito, mas não rende".

Ravagnani complementa destacando que a dislexia pode gerar sofrimento quando não é identificada. "Quando não reconhecida, pode trazer sofrimento emocional, dificuldades acadêmicas e profissionais e sensação de baixa autoestima."

Envelhecimento não piora a dislexia

Uma dúvida comum é se o transtorno se agrava com a idade. A fonoaudióloga Cristina Zerbinati esclarece que "a dislexia não piora com a idade". O que ocorre é que o envelhecimento natural reduz a velocidade de processamento e pode afetar memória operacional, visão e audição.

"São pessoas que já tinham uma dificuldade historicamente na vida. E quando soma com esse processo natural do envelhecer, parece que a dislexia se acentua, mas na verdade não é isso."

Ela também diferencia dislexia de quadros como demência. "Não se mistura a dislexia, por exemplo, com o quadro de demência ou de declínio cognitivo. O que chama atenção para o transtorno é o padrão de dificuldades presente ao longo de toda a vida, e não uma perda recente e progressiva".

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O que se pode fazer?

Para Ravagnani, vale a pena intervir. "Em relação aos adultos, inclusive aqueles que nunca receberam acompanhamento, sempre vale a pena intervir." Ele explica que o objetivo não é curar, mas reduzir o esforço para ler e escrever, melhorar a funcionalidade e ampliar a autonomia.

A intervenção pode envolver tecnologias assistivas, como audiolivros, leitura por voz e programas de ditado, além de estratégias específicas de leitura e escrita. "Não existe medicação capaz de tratar diretamente o núcleo da dislexia; os medicamentos são utilizados apenas quando há condições associadas, como déficit de atenção, ansiedade ou depressão, que podem agravar as dificuldades", afirma o médico.

Quanto mais precoce for o reconhecimento, melhores tendem a ser os resultados, mas nunca é tarde para promover ganhos reais em qualidade de vida e desempenho funcional."

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Para quem suspeita do transtorno, ele diz que o primeiro passo é buscar avaliação especializada, preferencialmente com médicos neurologistas, que podem iniciar a investigação e pedir apoio de outros profissionais para minimizar os impactos no dia a dia.

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