Estudo da Fiocruz contraria ideia de geração de jovens "nem-nem"; entenda
Antônio Cruz/Agência Brasil
São Paulo - Um novo estudo divulgado nesta terça-feira, 30, pela Secretaria Nacional de Cuidados e Família do Ministério de Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (SNCF/MDS) juntamente com a Fiocruz, contraria dados anteriores sobre a chamada "geração nem-nem", mostrando que a maioria dos jovens acumula estudos, atividade remunerada e trabalho doméstico e de cuidados.
O relatório do estudo "Superposição de atividades na juventude: estudar, trabalhar e cuidar" mostra que apenas 2% dos jovens de 15 a 29 anos está sem fazer pelo menos uma dessas atividades. O estudo analisa os microdados da Pnad Contínua Anual do IBGE no ano de referência de 2022 e contrasta com dados divulgados semana passada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que mostram 6,2 milhões de jovens fora da escola e do trabalho, equivalente a cerca de 18% dessa população.
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A publicação da Fiocruz pondera que a maioria das jovens rotuladas como "nem-nem" está em atividades de cuidados não remuneradas, incluindo cuidado com a casa, filhos e parentes. Nesse sentido, 82,5% dos jovens entre 15 e 29 anos realizam atividades de cuidado, mas, entre as mulheres, essa porcentagem chega a 90%.
“É muito comum no debate público sobre os jovens brasileiros o alarme em torno dos que nem estudam e nem trabalham. Mas os nossos estudos empíricos sobre a juventude estão demonstrando que essa é uma etapa da vida muito marcada pelo acúmulo de atividades, e a grande maioria dos jovens está ocupada no mercado de trabalho, muitas vezes de forma simultânea com os estudos, enquanto também precisam dar conta do cuidado de outras pessoas, especialmente no caso das mulheres”, afirmou em nota o coordenador da Agenda Jovem Fiocruz, André Sobrinho.
Sobreposição de jornadas
Segundo o estudo, as pessoas jovens vivenciam uma sobreposição de jornadas que gera vulnerabilidade social nessa fase da vida. O trabalho doméstico e de cuidados se soma aos estudos, ao trabalho remunerado e, às vezes, a ambos ao mesmo tempo.
Mais de um quarto das jovens estudantes com mais de 18 anos também cuidam de alguém no domicílio ou na família: um contingente de cerca de um 1,2 milhão de mulheres.
Entre os 15 e 17 anos, três em cada quatro mulheres adolescentes realizam trabalho doméstico ou de cuidados não remunerado ao mesmo tempo em que frequentam a escola.
Além disso, cerca de 9% das mulheres entre os 18 e os 24 anos também acumulam essas funções com trabalho remunerado, taxa que sobe para 18% entre os 25 e os 29 anos.
Já a porcentagem das que não fazem nenhuma dessas atividades flutua entre 0,7% e 2,6% entre 25 e 29 anos, o que refuta a ideia de uma juventude desocupada, destaca o relatório do estudo.
A desigualdade racial também gera desigualdades na distribuição do trabalho de cuidados na família: jovens mulheres negras dedicam o dobro de horas ao trabalho de cuidados, comparativamente a homens brancos e negros. Jovens negras com idade entre 18 e 24 anos dedicam, em média, 19 horas por semana a tais atividades.
“A Política Nacional de Cuidados dedica uma atenção especial às pessoas jovens, e em especial às jovens mulheres e às jovens mulheres negras. Elas são as mais sobrecarregadas com o trabalho não remunerado de cuidados que, na ausência de políticas públicas adequadas, compromete o exercício de seus direitos em diversos âmbitos da vida, como à educação, ao trabalho decente, à cultura, ao lazer e à participação na vida pública”, afirmou também em nota a secretária nacional da Política de Cuidados, Laís Abramo.
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