Quatro em cada dez brasileiras já apostaram em bets em busca de renda extra
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Rio – As bets já afetam mais da metade das mulheres brasileiras, especialmente as de classes sociais mais vulneráveis. Quatro em cada dez mulheres (42%) apostam ou já apostaram em plataformas online, enquanto 12% não jogam, mas têm alguém da família que aposta. Somados, os dois grupos representam 54% das mulheres.
Os dados são da pesquisa "Mulheres & Bets", divulgada nesta segunda-feira pelo estúdio CLARICE em parceria com a Estratégia Latina e o IDEIA. Segundo o levantamento, 49% dos brasileiros já fizeram esse tipo de aposta – 42% das mulheres e 56% dos homens. Ao mesmo tempo, 56% dos brasileiros defendem a proibição das bets, percentual que sobe para 62% entre as mulheres e fica em 50% entre os homens.
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Renda extra
Entre as mulheres, a aposta surge como tentativa de complementar a renda. As principais razões citadas são buscar renda extra (21,5%), ganhar dinheiro rápido (19%), pagar despesas básicas (16%) ou quitar dívidas (11,5%).
Segundo a cientista social Beatriz Della Costa, fundadora e codiretora da CLARICE, a aposta aparece como promessa de acesso rápido a uma vida mais digna, em meio à dificuldade de fechar o orçamento, sobretudo entre as classes D e E.
Costa relaciona o cenário às consequências econômicas da pandemia, que atingiram especialmente mulheres que perderam o emprego ou deixaram o mercado de trabalho para cuidar da família. "As bets entram nesse buraco que ficou e que continua", disse.
Na avaliação da pesquisadora, a falta de políticas públicas para recuperar a renda dessas mulheres contribuiu para que as plataformas sejam vistas como uma alternativa mais acessível.
As mães apostam mais do que as mulheres sem filhos (22,7%, ante 14,6%). Além disso, 72% das apostadoras têm filhos, o que pode estar relacionado à necessidade de complementar a renda. Diferentemente dos homens, mais focados em apostas esportivas, quase metade das mulheres prefere cassinos online (48%), como roleta e o jogo do "Tigrinho".
Redes sociais são porta de entrada
Os resultados apontam que a rede de confiança é determinante para a entrada nesse universo: 24% das mulheres conheceram as apostas por redes sociais, 23% por amigos, 18% por influenciadores e 14% por familiares.
A pesquisadora ressalta que a influência não se limita às celebridades, mas envolve também "microinfluenciadores", como amigos, vizinhos e parentes que compartilham links de apostas. O estudo mostra ainda que 37% das apostadoras já receberam algum benefício para indicar plataformas.
O que aparece nas redes sociais é só sobre ganhar. Não aparecem as pessoas que perderam", afirma Della Costa.
Além das perdas financeiras, o jogo traz impactos emocionais severos, com relatos de ansiedade e depressão entre mulheres desde que começaram a apostar. Apenas 13% das mulheres que apostam ou já apostaram, no entanto, buscaram ajuda.
Apoio à proibição
O apoio à proibição das bets atravessa diferentes espectros políticos: entre os favoráveis ao banimento, 62% se declaram apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e 56% do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Para Della Costa, o apoio majoritário à proibição indica que há espaço político para medidas mais incisivas.
Quando a gente fala que mais da metade da população, inclusive pessoas que jogam, diz ‘precisa proibir’, a gente tem um espaço, uma possibilidade, uma abertura política muito grande", afirma.
Entre as medidas de enfrentamento ao vício em jogos, 45% aprovam o bloqueio do Pix em apostas para quem recebe benefícios sociais, e 33% teriam interesse em um canal anônimo de apoio — índice que sobe para 57% entre quem aposta com frequência.
Bloqueio voluntário
A pesquisa também alerta para o baixo conhecimento sobre políticas já existentes. Setenta por cento dos brasileiros nunca ouviram falar do sistema de autoexclusão criado pelo governo federal. A plataforma do Ministério da Fazenda permite que o cidadão bloqueie voluntariamente o próprio CPF em todas as bets regularizadas. O desconhecimento é maior entre mulheres das classes D e E.
Para Della Costa, o mecanismo de autoexclusão é importante, mas ainda precisa ser mais divulgado. Ela ressalta, porém, que essas ferramentas são recentes. "As pessoas não têm conhecimento de que podem se cadastrar e bloquear o próprio CPF nas plataformas. Falta uma comunicação mais eficiente sobre a existência dessas ferramentas, mas elas são muito recentes", diz.
Enfrentamento às bets
A pesquisadora destaca que o enfrentamento às bets deixou de ser apenas uma questão de governo e passou a envolver toda a sociedade. Segundo Costa, empresas já lidam com efeitos do problema entre funcionários e familiares, incluindo perda de produtividade e de capacidade de trabalho.
Na avaliação da cientista social, a dimensão do fenômeno exige políticas de prevenção, contenção e recuperação, além de mais informação sobre os mecanismos disponíveis.
A pesquisa ouviu 2.008 mulheres e homens em todo o Brasil, entre 8 e 9 de julho, respeitando a distribuição populacional do Censo 2022 e da PNAD 2025. As entrevistas qualitativas ouviram 60 pessoas entre junho e agosto, com foco em mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E, no Sudeste e Nordeste.
(Por Paula Martini)
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