Formação de arquitetos ignora longevidade da população, diz especialista
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São Paulo - A falta de profissionais capacitados para projetar moradias considerando o envelhecimento da população é um problema que atinge não apenas o Brasil e começa lentamente a entrar em debate. Nos meios acadêmicos a discussão sobre o direito à moradia digna, uma garantia constitucional para todos os brasileiros, esbarra na transformação demográfica que vivemos globalmente.
Para entender melhor a questão o VIVA foi ouvir engenheiros, arquitetos e profissionais da saúde especializados no tema para marcar o Dia Nacional da Habitação, celebrado nesta sexta-feira (21). Criada em 1964, a partir do surgimento do Banco Nacional da Habitação (BNH), a data representa o direito à moradia.
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Mesmo com programas de incentivo como o Minha Casa Minha Vida (MCMV), o País ainda registra um déficit habitacional estimado em 5,7 milhões de moradias, segundo dados mais recentes da Fundação João Pinheiro (FJP). Ao mesmo tempo, o MCMV reserva uma cota de apenas 3% de suas unidades para a população idosa.
Foto: Fabiana Holtz/Viva
Para o engenheiro Norton Mello, CEO da Bioeng Projetos, especialista em Senior Living e PhD em Gestão de Assistência em Saúde (Healthcare Management), um problema estrutural para o avanço de projetos que atendam a longevidade é a falta de profissionais (engenheiros e arquitetos) que estejam preparados para essa revolução que é o envelhecimento da população. Segundo ele, não apenas no Brasil, mas globalmente são raros os cursos que apresentam alguma introdução para essa matéria.
Quando um professor da graduação quer pedir um trabalho difícil ele manda fazer um hospital. O mundo acadêmico ainda tem essa mentalidade. Na arquitetura e na engenharia não temos nenhuma disciplina na graduação que fale sobre saúde ou sobre envelhecimento, lamenta Mello.
O profissional que procurar hoje uma especialização vai encontrar apenas arquitetura hospitalar. Não há nada voltado para a arquitetura do envelhecimento. "Falta fomentar isso dentro das universidades", afirma Mello. Para fazer seu doutorado, acrescenta ele, foi preciso buscar formação fora do Brasil.
Protagonismo negado
Foto: Reprodução Streamyard
Maria Luisa Trindade Bestetti, doutora em Arquitetura e Urbanismo e professora da graduação, mestrado e doutorado em gerontologia na Universidade de São Paulo (USP), concorda que, por mais incrível que pareça, entre os arquitetos ainda não está devidamente clara a necessidade de se compreender o processo de envelhecimento e o impacto disso no seu trabalho.
"Tornar a casa mais acessível vai além do cálculo de vigas e paredes e muitas vezes envolve escuta ativa e afeto. Esse protagonismo do morador precisa prevalecer e pode ser garantido com a introdução de dispositivos simples ou processos que evitem uma queda, por exemplo, imagens ou cores que facilitem a identificação de ambientes. Isso faz com que ele se sinta mais seguro em casa", diz a arquiteta, considerando o surgimento de dificuldades de mobilidade e esquecimentos eventuais.
Inovações e o mercado
Na visão da arquiteta Bestetti, quando se fala em conforto e segurança para moradia de idosos, os arquitetos têm que pensar em conceitos que vão além do mobiliário. "A introdução de tecnologia em uma casa não se trata apenas de equipamentos eletroeletrônicos, mas também em processos", acrescenta ela. Existe hoje no mercado uma série de inovações que podem facilitar a permanência da pessoa idosa em casa, mesmo com algum cuidador profissional ou um familiar. Um exemplo simples mencionado por ela são os sensores de luz, que são extremamente uteis para evitar quedas durante a noite.
Outro dispositivo de voz já bastante popular no Brasil que é útil para a rotina do idoso é a Alexa, aponta a arquiteta. "Há um dispositivo de voz com a Alexa que se chama Atos que é bastante útil com dicas de bem estar, mas sempre reforçando que ele não anula a necessidade de uma consulta médica, evidentemente", afirma.
A ideia é proporcionar uma facilitação da autonomia, da independência e da organização dos cuidados diários, diz o geriatra Paulo Fernandes Formighieri, que é médico assistente da divisão de Geriatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCRP), da USP. "São coisas que vão desde de uma organização dos dispositivos ali da cozinha em relação a gaveteiro e suporte a introdução de tecnologia mais avançada".
Envelhecer não é só doença
No caso da arquitetura voltada para o envelhecimento, pontua Formighieri, é preciso quebrar o 'conceito prévio' de que são necessárias adaptações na moradia somente por questão de doenças. Segundo ele, esse é um mercado grande, crescente e financeiramente muito relevante que as pessoas muitas vezes não investem por falta de profissionais com conhecimento, materiais adequados e bons projetos.
Isso se aplica também ao fato da resistência desse público em assimilar novas tecnologias, o que já vem sendo superado por boa parte dos idosos, segundo o geriatra. "A barreira inicial de lidar com dispositivos digitais, mecanismos básicos (liga, desliga, menu, acessar funções) considero que está sendo superada. Claro que ainda existem algumas dificuldades", afirma. O problema, segundo Formighieri, é que ainda não existe um mercado maduro suficiente para a oferta de tecnologias úteis e necessárias no formato adequado para a população idosa.
O acesso da moradia até a rua, lembra a arquiteta, também precisa ser amigável. Nesse contexto, as discussões sobre planejamento urbano já tratam há alguns anos sobre a cidade ser mais amiga da pessoa idosa. O reconhecimento público da importância dessas ações é valioso, reafirma Bestetti, e tem ajudado no letramento da população sobre o tema. A arquiteta reforça que é importante que se construam espaços especificamente adequados e não adaptados.
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