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Moradia para idosos é desafio na baixa renda enquanto senior living avança

Foto: Fabiana Holtz/Viva

Projetar moradia para idosos de baixa renda é um desafio global, diz o engenheiro biomédico Norton Mello - Foto: Fabiana Holtz/Viva
Projetar moradia para idosos de baixa renda é um desafio global, diz o engenheiro biomédico Norton Mello
Por Fabiana Holtz

20/08/2026 | 14h42

São Paulo - O conceito de moradia vem se adaptando nos últimos anos cada vez mais ao envelhecimento da população. No Brasil, embora em ritmo mais lento, esses ajustes vem ocorrendo e tem na região Sul seu principal centro. Porto Alegre (RS), em especial, se destaca pela alta renda e grau de escolaridade, além de ser a capital mais longeva do País. Para debater a evolução do mercado de moradia para idosos, o Sindicato da Habitação (Secovi-SP) realizou nesta quinta-feira o Senior Living Meeting, em São Paulo.

Ao falar sobre o desenvolvimento imobiliário e arquitetura para longevidade, o engenheiro biomédico Norton Mello, CEO da Bioeng Projetos, destacou que, infelizmente, a memória afetiva envolvendo moradias para idosos é muito ruim. "Há uma associação ao isolamento, ao abandono, como se fosse uma prisão. Como virar esse jogo?", pergunta ele.

Em termos de políticas públicas para atender a população idosa de baixa renda no País, Mello considera que o assunto precisa evoluir muito. "Apesar de ainda estarmos engatinhando, existem algumas boas alternativas", afirma, citando programas tocados por Estados individualmente.

Uma sugestão seria adequar a cota do Minha Casa Minha Vida (MCVM) para a população idosa local. Atualmente, o MCMV reserva uma cota de somente 3% das unidades para a população idosa. Esse é um problema, ressalva o engenheiro, que não é enfrentado apenas pelo Brasil.

O mundo inteiro ainda não conseguiu equacionar isso. Como que eu faço com que moradias acessíveis economicamente cheguem à população de baixa renda?", questiona.  

O segmento senior living desponta

No âmbito do senior living, que atende um público de maior renda, o mercado imobiliário ainda precisa entender que não se trata de um lugar planejado para tratar doenças.

"São residências de convivência e conveniência, que auxiliam em tarefas diárias, como lembrar de tomar remédios, auxiliar em banhos, trocas de roupas e alimentação, por exemplo. É, sobretudo, moradia".

Norton Mello, homem, branco, cabelos curtos, escuros e usa óculos
Exemplos pelo mundo são diversos e o mercado está atento ao novo perfil desse público, diz Norton Mello - Fabiana Holtz/VIVA

Mello chama a atenção para as falsas promessas que tem observado por aí, definidas por ele como silver washing. Uma variação de greenwashing, o silver washing é uma prática de marketing em que empresas fingem incluir e valorizar os conceitos de longevidade somente para parecerem inclusivas, sem mudar de fato seus produtos, serviços ou atendimento.

"Isso não é só sobre arquitetura e engenharia, é sobre medicina, psicologia, neurologia. Uma casa funcional para esse público cria ambientes onde a pessoa idosa segue ativa, vista e necessária."

Martin Henkel, homem, branco, em um palco apresentando uma palestra
O Senior Living entrou em uma nova fase, diz Martin Henkel - Foto: Fabiana Holtz/Viva

Palestrante no evento, o colunista do VIVA, Martin Henkel, fundador da SeniorLab, falou sobre o consumidor sênior e o futuro da moradia voltada à longevidade. Segundo ele, essas moradias precisam trabalhar fundamentalmente a questão do pertencimento, da família, da confraternização. "Com isso em mente, os projetos lançados recentemente no Brasil tem até estrutura de parque infantil, para a visita de netos e bisnetos", observou ele.

Tecnicamente, explica ele, essa área não é chamada de infantil, mas de 'infraestrutura de vínculo intergeracional', que tem por objetivo proporcionar momentos de convivência. 

Ao falar de projetos arquitetônicos voltados para a longevidade, Henkel pontua que não existe o idoso brasileiro genérico, existe uma pessoa envelhecendo. "Um projeto com esse perfil, que será entregue em 2036, não pode ser projetado com a cabeça de 2026". 

Experiência em um Sênior Living

Recentemente, Henkel ficou hospedado por 12 dias em um Senior Living em Porto Alegre e o que pode observar foi a retomada da convivência social e um certo alívio nos olhares dos hospedes recém chegados com o passar dos dias. "A vida social reaparece. As pessoas voltam a circular, ir ao cinema, jantar acompanhadas, a conversar e a criar grupos", conta.

Para o especialista, o mercado de senior living entrou em nova fase. Segundo ele, agora não se projeta mais apenas para o residente. Para atender a esse público em primeiro lugar é preciso entender qual a história desse futuro residente. "Futuramente será necessário pensar em espaços de coworking", acrescenta.

O segundo passo é decofidificar, investigar qual é o repertório cultural e emocional desses futuros moradores. Feito isso, ao projetar um empreendimento com foco na pessoa idosa, os ambientes precisam traduzir esse repertório, conectando (diferentes gerações), encantando (fazendo a família querer voltar) e trazendo pertencimento (possibilitando que o local vire parte da rotina da família), conclui Henkel.

No Brasil, de acordo com Henkel, o Estado de São Paulo concentra quatro das 10 melhores cidades para investir em senior living no Brasil: São Paulo, Campinas, Jundiaí, Santos e Região. Outras cinco estão no Sul: Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Joinville (SC) e Balneário Camboriú e Região (SC). A cidade de Vitória, no Espírito Santo, completa a lista, que leva em conta o número de habitantes, renda e longevidade da população.

Entre os diversos exemplos de moradias para idosos com estrutura bem sucedida pelo mundo, Mello mencionou o "The Villages Florida", maior comunidade sênior do mundo. Com 170 mil habitantes, o lugar, que antes era um estacionamento para trailers, hoje é ocupado por 75 mil residências. Sâo 2.800 novas casas por ano, 350 carrinhos de golfe/mês (principal veículo de transporte no local), e uma estrutura de bairro que oferece praças, restaurantes e cafeterias. "Com cerca de US$ 250 mil a US$ 350 mil é possível comprar uma casa lá", afirma ele.

No Brasil, Mello deu como exemplo o projeto do BIOOS Home & Health, em Curitiba (Paraná), que foi entregue em junho. Lá funciona um mix de centro médico, edifício de escritórios e boulevard de serviços. São 108 apartamentos, de um e dois quartos. 

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