Canetas emagrecedoras podem reduzir efeitos do envelhecimento, diz estudo
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São Paulo - A semaglutida, agonista do GLP-1 presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, usados para comnater a obesidade e o diabetes, pode ter mais um uso off-label. Em um estudo publicado na revista Nature no início deste mês, pesquisadores observaram que a semaglutida, princípio ativo de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, aumentou a longevidade e retardou algumas alterações associadas ao envelhecimento em camundongas idosas.
O resultado chama atenção: os animais tratados com semaglutida tiveram mediana de vida de 834 dias, contra 742 dias entre os que receberam apenas solução salina. A diferença foi de 92 dias, cerca de 12% em relação à mediana do grupo controle.
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Por enquanto, não há nada confirmado. Ou seja, os resultados do novo estudo não devem ser interpretados como motivo para alguém começar a usar semaglutida com o objetivo de viver mais.
Por enquanto, a descoberta é menos uma promessa de longevidade e mais uma pista de que o metabolismo pode ser uma das portas de entrada para entender — e talvez um dia modificar — a biologia do envelhecimento.
O experimento ainda não tem equivalente em humanos, por isso não é possível dizer que idosos tratados com semaglutida viverão mais. Por outro lado, os resultados ajudam a levantar uma questão que interessa cada vez mais aos pesquisadores: seria possível usar medicamentos já conhecidos para interferir não apenas em doenças relacionadas à idade, mas no próprio processo de envelhecimento?
Como foi feito o estudo
A equipe da Universidade da Califórnia em Berkeley trabalhou com camundongas da linhagem C57BL/6 com 20 meses de idade – uma fase considerada avançada da vida desses animais.
As fêmeas receberam diariamente uma injeção subcutânea de semaglutida ou de solução salina. No experimento destinado a medir a longevidade, foram acompanhadas até o fim da vida: 40 animais receberam o medicamento e 39 ficaram no grupo controle.
Outros grupos de camundongas foram usados para avaliar o que acontecia com o organismo depois de três meses de tratamento. Os pesquisadores analisaram, entre outras coisas, movimento, coordenação, resistência física, metabolismo da glicose e memória espacial.
Em vários desses testes, os animais tratados tiveram desempenho melhor que os controles. Eles se movimentaram e exploraram mais, apresentaram melhor desempenho motor e muscular, processaram a glicose de maneira mais eficiente e tiveram resultados melhores em um teste de memória espacial.
Menos sinais associados ao envelhecimento
A pesquisa foi além dos testes comportamentais. Os cientistas também procuraram alterações em processos biológicos considerados característicos do envelhecimento.
Entre os efeitos observados estavam redução de marcadores de inflamação e senescência celular — estado em que células deixam de se dividir e podem contribuir para alterações relacionadas à idade — além de mudanças relacionadas à função das mitocôndrias, à manutenção das proteínas e à estabilidade do material genético.
Também foram observadas alterações em moléculas e vias envolvidas na regulação do envelhecimento, como NAD+, sirtuínas e IGF-1. Esses resultados ajudam a explicar por que os autores consideram que o efeito da semaglutida pode ir além da simples perda de peso.
Uma das descobertas que chamaram atenção envolveu as células-tronco. Nos animais idosos, o tratamento alterou características das células-tronco hematopoéticas, relacionadas à produção das células do sangue, e houve evidências de melhora de aspectos de sua função. Os pesquisadores também observaram efeitos sobre células-tronco neurais e a neurogênese no cérebro.
Isso não significa, porém, que o medicamento “rejuvenesceu” os animais no sentido popular da palavra. O que o estudo mostra é que determinados marcadores e funções que normalmente se deterioram com a idade foram alterados pelo tratamento.
Restrição calórica
Existe outro elemento importante para entender a pesquisa: a restrição calórica. Há décadas, estudos em diferentes organismos indicam que reduzir a ingestão de calorias sem causar desnutrição pode alterar processos relacionados ao envelhecimento e, em alguns modelos, aumentar a longevidade. O problema é que manter uma restrição calórica rigorosa por longos períodos é difícil para seres humanos.
Como os medicamentos que ativam o receptor de GLP-1 reduzem o apetite e a ingestão de alimentos, os pesquisadores quiseram saber se parte de seus efeitos poderia ser explicada simplesmente pelo fato de os animais comerem menos.
A semaglutida reduziu a ingestão de alimentos das camundongas em aproximadamente 24%. Em um experimento separado, os cientistas compararam o medicamento com uma restrição calórica de 24%. Os dois grupos apresentaram perda semelhante de peso e gordura e compartilharam diversos benefícios funcionais.
Mas houve diferenças. As camundongas que receberam semaglutida tiveram resultados mais favoráveis em alguns testes de exploração, memória espacial e controle da glicose. Isso levou os autores do estudo a sugerir que o efeito do medicamento pode envolver mecanismos que vão além da simples redução das calorias ingeridas. O estudo pode ser lido na íntegra em https://www.nature.com/articles/s41586-026-10940-7.
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