NOLTs ou não, eles se recusam a ver a idade como impeditivo para novos começos
Arquivo Pessoal
06/02/2026 | 08h30
São Paulo, 06/02/2026 - A palavra NOLT, sigla para a expressão new olders living trend, vem sendo usada para se referir ao ‘novo velho’, aquela pessoa que depois dos 60 anos se mantém ativa, trabalhando, cuidando do bem-estar, da saúde e engajada em uma rede relacionamentos sociais.
Identificando-se ou não com a nova moda corporativa, profissionais 60+ se mantêm em atividade e não pensam em parar. Some-se um propósito a tudo isso para essa equação do envelhecimento saudável se tornar completa.
É o caso de Mara Gomes, de 74 anos. No ano passado ela deu virada na vida e se tornou empreendedora na área de educação. Consolidou sua carreira no magistério – “fui professora a vida toda” –, tem mestrado e doutorado e foi coordenadora do curso de Pedagogia na Universidade Metodista por cinco anos.
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Aposentada, continuou na ativa até que veio a Covid. O período foi traumático: perdeu o marido, ficou 45 dias internada e sofreu uma traqueostomia. Depois de se recuperar, tentou ocupar o tempo com música e estudos, mas sentiu que isso não a preenchia. Em 2024, deu um basta e decidiu voltar a trabalhar.
É aquele negócio do ikigai, de ter algum propósito que o conduza a algo mais significativo, mais importante na vida”.
No ano passado, se tornou franqueada de uma rede de ensino que oferece cursos profissionalizantes, a Via Certa. “E estou aqui trabalhando o dia inteiro. E nem penso em fazer outra coisa”, acrescenta.
A escolha por uma escola técnica profissionalizante veio também atrelada ao propósito da educadora. "Eu acho que é algo absolutamente necessário no Brasil. Vivemos num País imenso, com necessidade de profissionalização. Temos uma dificuldade muito grande com mão de obra sem qualificação. E, exatamente por isso, acho que esses cursos são importantes”, reforça.
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Aprendizado contínuo
Mara Gomes reconhece o desafio de mudar de uma carreira calcada na estabilidade do serviço público estatutário para o risco do negócio próprio. Segue aprendendo com o suporte da franquia e com apoio de um filho.
Apesar de ser ativa na internet, ela diz que não conhecia o termo NOLT. E rejeita a ideia de que a idade seja um impedimento para novos começos.
Já o o engenheiro e matemático Geinaldo Estrela diz que se identifica como NOLT. Ele vai completar 61 anos em junho, e diz que tem um perfil muito agitado.
Estrela conta que sempre gostou de estudar e se considera curioso. Considera a web um universo de possibilidades. “Eu vivo fazendo cursos na internet, agora estou me aprofundando na questão da IA, que acho fantástica.”
Em sua opinião, o fator principal de exclusão de um 60+ no mercado de trabalho é a acomodação. “O camarada está em uma zona de conforto e não se movimenta para reciclar conhecimentos, para se atualizar. É justamente o contrário dos NOLTs, que normalmente trabalham, estudam, correm atrás de aperfeiçoamento”, declara.
Embora otimista com o novo conceito de NOLT, ele conta que sofreu preconceito etário aos 51 anos, quando foi dispensado do trabalho e substituído por três jovens iniciantes.
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Com 45 anos de carteira assinada, dos quais 37 anos no mercado financeiro, inclusive no pregão da Bolsa de Valores, "no meio daquela gritaria”, Estrela hoje é responsável pelo departamento fiscal de uma empresa do ramo do papel e celulose.
Ele também é maestro de um coral gospel – uma paixão, segundo conta. E que só se tornou realidade após fazer cursos de regência, “na esteira de buscar novos horizontes”.
Sem identificação
A neuropsicóloga Marcia Cavalheiro, de 60 anos, entende o termo NOLT como uma negação do envelhecimento. Diz que não se vê nesse grupo. “Porque eu me vejo envelhecendo fisicamente, cognitivamente, e isso faz parte do processo”, declara.
“O que eu percebo que mudou, olhando as gerações anteriores, as gerações atuais e projetando as futuras, é o estilo de vida e as situações socioeconômicas”, diz. “Nesse sentido, sim, eu vejo que eu não sou a pessoa de 60 anos que foi a minha mãe”, complementa.
Ela formou-se em psicologia, mas seguiu um rumo diferente no início, incluindo morar em uma comunidade religiosa. Posteriormente, trabalhou por 28 anos no Senac São Paulo, onde começou na secretaria e depois progrediu para cargos executivos, como gerente de unidade e diretora do Centro Universitário.
Nesse período, cursou especialização em educação e o mestrado também em educação. Aos 57 anos, após se aposentar do Senac, ela decidiu retomar a área de psicologia e se especializou em neuropsicologia.
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Hoje, trabalha com avaliação neuropsicológica e reabilitação, focando em adultos e idosos lidando com doenças neurodegenerativas e transtornos do neurodesenvolvimento não diagnosticados. Em sua rotina, trabalha presencialmente três dias na clínica e dois dias em casa, corrigindo avaliações e elaborando laudos. Além disso, atua como gestão de projetos na ONG Afago SP, que desenvolve projetos socioeducativos para crianças e jovens em vulnerabilidade.
Assim como os outros dois entrevistados, Márcia Cavalheiro inclui na rotina atividade física e programas culturais. Como se vê, a tendência - chamada NOLT ou não - é continuar trabalhando e muito!
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