NOLT: novo rótulo corporativo gera dúvidas se ajuda a combater o idadismo
Arquivo Pessoal
04/02/2026 | 08h20
São Paulo, 04/02/2026 - Depois de terceira idade, melhor idade, perennials e outros termos para se referir aos mais velhos, agora parece ter chegado a vez do NOLT. A expressão surgiu na internet e logo começou a se espalhar, sem que se saiba exatamente de onde apareceu.
Mas o fato é que o new older living trend, ou simplesmente NOLT, ganhou repercussão, ao designar o “novo velho”, aquele que depois dos 60 anos segue ativo, trabalhando, cuidando do bem-estar, da saúde, tem um propósito, mantém a curiosidade e os relacionamentos sociais.
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Seria, portanto, um novo termo para definir o envelhecimento ativo e fugir dos estereótipos atrelados à velhice.
Termo bomba nas redes sociais
CEO da Aurora Ventures, do Movimento Next 50+ e do Observatório da Longevidade, Fabio Nogueira diz que o termo surgiu em redes sociais no Brasil, em novembro último. Para ele, o termo decorre de um erro de tradução.
“Comecei a correr atrás e tentar ver como apareceu. Aí você começa a ver as definições e os artigos em que saíam e percebe que é um erro de tradução”, afirma.
Ele se referia ao fato de que a expressão poderia ser vertida para o português como ‘nova tendência de moradia para pessoas mais velhas’, mas é usada como "nova tendência de estilo de vida dos mais velhos”.
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Fora da literatura
“Não se encontra a abreviatura NOLT em nenhuma literatura em nenhum lugar do mundo. Você pergunta a todos os grupos de longevidade, para todos os especialistas e ninguém nunca ouviu falar disso”, diz Nogueira. O gerontólogo Alexandre Kalache recentemente afirmou, em publicação no seu Instagram, que não localizou estudos ou artigos acadêmicos a respeito, apesar de sua longa experiência e conhecimento na área.
Para Edson Moraes, consultor e pesquisador em finanças do envelhecimento, o conceito surge como uma "buzzword" – uma palavra de efeito que ganha força no marketing e nos negócios – para descrever um perfil de idoso que continua ativo, estudando, trabalhando e se reinventando.
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Risco de exclusão
Segundo a consultora de Gestão e Carreiras 50+ Eliane Kreisler, a incorporação do uso da palavra NOLT pode se tornar um "estereótipo positivo, mas excludente".
Ela considera válida a visibilidade que o termo traz, pois poderia incentivar o debate sobre idadismo, mas perigosa, quando ignora a diversidade da velhice.
“O meu receio é que isso vire um rótulo de comportamento. Se você não se encaixa nessa imagem de 'super-idoso' ativo e performático, a sociedade pode fazer você sentir que está destruído ou invisível”, reforça Moraes.
Idadismo corporativo
A dúvida é se o rótulo contribui para combater o preconceito de idade, que ainda é uma barreira forte e muitas vezes velada no ambiente corporativo.
Kreisler defende, entre outros aspectos, a necessidade de uma revisão 360 graus de políticas públicas, cultura organizacional e da própria atitude do profissional sênior.
Ela prega a alteração de critérios de seleção, desenvolvimento e sucessão e desassociar a ideia de que inovação é um atributo exclusivo da juventude.
“O profissional também precisa atualizar seu mindset e agir como agente de mudança, não apenas adotando a etiqueta de ‘ativo’", pondera.
Eu não quero ser rotulada. Quero ter a liberdade de envelhecer do meu jeito único e ser respeitada no mundo profissional por isso."
Nomenclatura e debate
O consultor e palestrante TEDx sobre etarismo, Mauro Wainstock diz não importar se NOLT é uma tendência ou modismo. “A nomenclatura, para mim, é o que menos importa”, afirma ele.
O que importa é como ele vai se comportar, como é que é o mindset dessa pessoa, como é que ele está lidando em viver a vida em sua plenitude, seja do ponto de vista profissional, seja social”.
“Como é que ele está se enxergando perante o mercado? O que ele está fazendo de diferente? Como que ele quer se reinventar todos os dias? Isso para mim é o mais importante", diz. E reforça que o nome usado para representar esse tipo de comportamento não importa, desde que traga o assunto (velhice) à tona. "Para mim, isso é melhor”, afirma.
Movimento sociocultural
A headhunter e palestrante Ester Morgan vê o NOLT como um movimento sociocultural e não passageiro, pois reflete uma mudança nas características das pessoas mais velhas, que são mais ativas e produtivas. Na sua opinião, o termo surgiu da necessidade de descrever a população com mais de 60 anos, que não se identifica mais com a palavra "idoso", já que a longevidade e as características da geração mudaram significativamente.
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Ainda assim, faz uma ligação com a questão socioeconômica: “O rótulo NOLT foi criado por pessoas de marketing para definir uma persona para campanhas publicitárias, pois a economia prateada movimenta mais de R$ 2 trilhões somente no Brasil.”
De acordo com ela, o segmento engloba empresas que oferecem produtos ou serviços para pessoas com mais de 60 anos. Segundo o Censo Demográfico 2022, esta fatia somava naquele ano aproximadamente 32,1 milhões, o que representava cerca de 15,6% da população total do País.
Morgan, no entanto, critica a pressão para manter a aparência jovem, já que, na sua opinião, as empresas podem valorizar a falta de rugas em vez da competência. E defende a valorização, pelas organizações, da energia, a capacidade, a habilidade técnica e as soft skills dos candidatos, e não a idade ou a aparência.
Apesar de concordar que a sigla parece focar em pessoas de classe média para cima, Morgan aponta uma consequência que considera positiva: “O termo pode empoderar pessoas com mais de 60 anos que se sentem subjugadas, encorajando-as a procurar emprego e ter uma vida mais ativa.”
O "novo velho", portanto, pode funcionar como um processo de aceitação da própria velhice.
Uma coisa é notória, no momento atual, conforme as pessoas vão envelhecendo, elas não se veem como os seus pais e avós envelheceram. E as palavras que usamos continuam as mesmas”, diz Sérgio Serapião.
Ele é fundador do Movimento Lab60+ e cofundador da startup Labora, que busca promover a inclusão da diversidade geracional no mercado de trabalho. “A grande maioria das pessoas se incomoda. E isso na verdade é um preconceito que temos dentro de nós.”
Alternativa a estereótipos
De acordo com Serapião, o NOLT encontra eco naquelas pessoas que passaram dos 60 anos e não se reconhecem na palavra "velha" ou "velho". A jornalista aposentada Elenice Ferrari tem 68 anos é uma delas. Extrovertida, usa All Star, calça jeans e frequenta baladas de São Paulo. Faz pilates e musculação há décadas e não abre mão de viajar sozinha ou com amigos. Recentemente, decidiu enfrentar um antigo desafio: aprender a tocar violão.
Sua maneira de ser reflete na vida profissional. Com uma carreira de quase quatro décadas na Editora Abril, onde atuou como pesquisadora, supervisora e gerente do Departamento de Documentação (DDoc), atendia todos as publicações ela se acostumou com jornadas intensas e à adrenalina das redações e viveu a transição do jornalismo analógico para o digital.
"Quando saí da Abril, achei que queria ficar em casa, ser do lar, ver a Sessão da Tarde. Em seis meses, eu estava batendo a cabeça na parede, completamente histérica", relata. Logo aderiu ao combate ao etarismo, causa definida por ela como a mais democrática do mundo: "Qualquer pessoa que não morra antes dos 50 anos vai sofrer desse problema".
Uma vida pela frente
A busca por um novo propósito a levou ao grupo LABS 60 e ao projeto Reinventar-se, focado na realidade de uma geração que tem 20 ou 30 anos de vida ativa pela frente após a idade tradicional da aposentadoria. Ferrari percebeu que, diferentemente dos seus pais, a longevidade atual exige novas carreiras. "Vinte anos é uma vida inteira. Se você era dentista e quer ter uma floricultura, vá fazer", afirma.
Hoje, ela trabalha na Casa Museu Ema Klabin. No museu, convive com uma equipe intergeracional, trocando experiências com jovens de todas as idades e etnias e ainda se beneficia do modelo de "trabalho flex", criado pela Labora, que fornece a mão de obra para o museu: jornadas de quatro horas diárias em que o profissional escolhe os dias que quer atuar.
NOLT, na palavra dos especialistas
A aposentadoria não é um estado, é uma forma de remuneração. Você continua sendo quem é, independentemente de como recebe sua renda. Temos que aceitar o idoso como ele é. O risco é o termo 'NOLT' se tornar um instrumento de marketing que cobra uma vitalidade performática" - Edson Moraes.
Eu não quero ser rotulada. Quero ter a liberdade de envelhecer do meu jeito único e ser respeitada no mundo profissional por isso" - Eliane Kreisler
NOLT surgiu do nada? É um negócio orgânico. Alguém falou (na internet) e foram copiando. Não há gestão dessa palavra. Não há uma uma agência de publicidade ou um influenciador que a tenha criado" - Fabio Nogueira
Não há nada de errado com a palavra velho, mas ela carrega uma série de adjetivos inconscientes ou invisíveis para muita gente" - Sergio Serapião
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