'Reputação é o ativo que o algoritmo não cria', afirma professora da FDC
Reprodução/Instagram
São Paulo - Reputação profissional tem menos a ver com visibilidade e mais com consistência percebida ao longo do tempo. Na visão da advogada, doutora em administração de empresas, professora e pesquisadora da Fundação Dom Cabral Alice Oleto, a reputação se constrói como um ativo social, sustentado por confiança, competência e integridade, validados nas interações reais de trabalho.
Com pesquisas concentradas em Gestão de Pessoas, Comportamento Organizacional, Estudos Organizacionais e Relações de Trabalho, especialmente em Violência e Conflitos no Trabalho, Oleto argumenta que, embora redes como o LinkedIn ampliem a exposição e funcionem como vitrines da trajetória, elas não criam reputação por si só - apenas tornam mais visíveis comportamentos, escolhas e resultados já existentes.
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O desafio, segundo ela, não é apenas aparecer, mas garantir coerência entre discurso e prática, evitando o chamado “gap reputacional”, quando a narrativa pública não se sustenta na experiência concreta dos outros.
Leia a seguir a entrevista ao VIVA:
VIVA: O que significa hoje ter boa reputação? Visibilidade nas redes sociais, principalmente no Linkedin, também conta?
Alice Oleto: Hoje, ter boa reputação profissional significa, essencialmente, ser percebido como alguém confiável, competente e íntegro ao longo do tempo. A reputação não é uma autodeclaração, ela é um ativo social construído nas interações e reconhecido pelos outros.
Na literatura de comportamento organizacional, Fombrun (1996) destaca que reputação é uma avaliação coletiva baseada em histórico de comportamento, consistência ética e entrega de resultados.
No ambiente de trabalho contemporâneo, marcado pela digitalização e pela intensificação das redes profissionais, especialmente o LinkedIn, passaram a funcionar como extensões da identidade profissional. Elas ampliam a visibilidade do profissional, e permitem sinalizar competências e posicionamentos.
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E qual é o papel do profissional?
Pesquisas sobre personal branding mostram que o profissional contemporâneo atua também como gestor da própria marca. No entanto, isso não significa que a reputação se construa apenas pela exposição. A visibilidade digital não cria reputação por si só, ela apenas amplifica percepções que já existem ou que se tornam verificáveis. Assim, o LinkedIn funciona como uma vitrine.
Mas a reputação continua sendo construída no cotidiano das relações de trabalho, desde como a pessoa toma decisões, como trata colegas, como reage a conflitos até como entrega resultados."
Qual é o comportamento mais comum nas redes sociais que, em vez de construir autoridade, acaba erodindo a reputação do profissional?
O comportamento que mais frequentemente desgasta reputação nas redes é a incoerência entre discurso e prática. A literatura de liderança, especialmente em Bill George (2010), chama isso de falta de autenticidade percebida. Quando o profissional constrói uma narrativa de competência, ética ou liderança nas redes, mas na prática ele não corresponde a essa narrativa, a reputação tende a se deteriorar rapidamente.
Outro comportamento comum é o que poderíamos chamar de hiperperformatividade digital, que é uma tentativa constante de autopromoção, muitas vezes descolada de reflexão ou conteúdo consistente. Nesse caso, o profissional tende a exceder-se na autopromoção, criar narrativas de sucesso sem reconhecimento de complexidade ou fracassos, se apropriar superficialmente de temas sensíveis como, por exemplo, diversidade, ética, saúde mental, apenas para engajamento e publicar constantemente frases motivacionais sem experiência prática associada.
A autoridade profissional se constrói muito mais por consistência intelectual, na troca de conhecimento e posicionamento responsável, do que por volume de postagens.
É possível ter reputação sólida em 2026 sem redes sociais?
Sim, é possível. A reputação profissional continua sendo construída, sobretudo, nas redes reais de trabalho e nas experiências concretas de colaboração. No entanto, o contexto atual introduziu uma mudança importante que o fato de a ausência total de presença digital gerar invisibilidade profissional.
Em muitos setores, especialmente em atividades baseadas em conhecimento, as redes profissionais passaram a funcionar como um mecanismo de sinalização de trajetória, expertise e rede de contatos.
Assim, não estar nas redes não destrói a reputação, mas pode limitar sua difusão e reconhecimento fora do círculo imediato de atuação."
Com tanta automação atualmente, o "boca a boca" e a indicação de confiança ainda têm relevância?
Mais do que nunca. Diversas pesquisas mostram que, mesmo em contextos altamente digitalizados, as decisões profissionais continuam fortemente baseadas em confiança relacional. Na prática organizacional, isso significa que referências e indicações continuam sendo mecanismos importantíssimos de reputação. Muitas organizações ainda tomam decisões de contratação, promoção ou parceria considerando recomendações informais de pessoas confiáveis. A tecnologia mudou a forma de acessar informações, mas, nem de longe, substituiu a confiança interpessoal.
Qual é o peso da referência de mercado em relação às competências técnicas no currículo?
As duas dimensões são fundamentais, mas operam de maneiras diferentes. As competências técnicas são o que legitimam a capacidade de execução do profissional. Elas demonstram que a pessoa sabe fazer. Já a referência de mercado indica se as pessoas confiam em trabalhar com esse profissional.
Autores destacam que reputação combina três dimensões principais: competência, integridade e confiabilidade relacional. Assim, um profissional tecnicamente brilhante, mas percebido como alguém difícil, antiético ou pouco colaborativo, tende a ter sua reputação fragilizada. Por isso, muitas organizações avaliam tanto o que o profissional faz quanto como ele faz.
O que pode manchar a reputação de um profissional?
A reputação costuma ser construída lentamente e deteriorada rapidamente.
Entre os fatores que mais comprometem reputações profissionais estão a falta de integridade ou envolvimento em práticas antiéticas, os assédios moral e sexual ou comportamentos abusivos, a apropriação indevida de crédito por resultados de equipes, a quebra de confidencialidade, a incoerência entre discurso e prática e a falta de responsabilidade por erros.
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Qual é o sinal mais positivo que um profissional pode emitir para o mercado sem parecer que está "forçando a barra"?
O sinal mais forte é consistência entre trajetória, discurso e contribuição real para os outros. Normalmente, profissionais com reputação sólida costumam demonstrar três características: compartilham conhecimento de forma generosa, reconhecem o trabalho das equipes e refletem sobre aprendizados, inclusive sobre erros Isso cria uma percepção de maturidade profissional. A literatura sobre liderança autêntica, especialmente em Bill George (2010), destaca que credibilidade surge quando o profissional demonstra propósito, humildade e consistência.
Qual a diferença real entre ter uma boa reputação e fazer marketing pessoal?
Marketing pessoal é uma estratégia de comunicação. Já a reputação é uma avaliação social construída ao longo do tempo."
Podemos dizer que o marketing pessoal é narrativa e a reputação é histórico de comportamento validado pelos outros. Assim, quando o marketing pessoal não corresponde à experiência real das pessoas que trabalharam com aquele profissional, ocorre o chamado gap reputacional. E esse gap costuma ser rapidamente percebido.
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