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Vida após a morte? Pesquisador busca respostas científicas para o mistério

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Moreira-Almeida diz que há evidências "muito sugestivas" de sobrevivência da consciência ou da chamada vida após a morte - Divulgação
Moreira-Almeida diz que há evidências "muito sugestivas" de sobrevivência da consciência ou da chamada vida após a morte
Por Claudio Marques

12/04/2026 | 12h03 ● Atualizado | 12h03

São Paulo - A existência ou não de vida após a morte é uma dúvida que, muito provavelmente, já atravessou a mente de todo o ser humano que habita este planeta. Se sim, onde, então, está a mente, a consciência do ser humano? O pensamento ortodoxo diz que ela é fruto do cérebro, mas se esse órgão primordial deixa de funcionar, como então existem relatos de pessoas que vivenciaram experiências enquanto estavam clinicamente mortas?

A busca de respostas científicas para essas questões é o que molda a carreira do psiquiatra e professor titular de psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Alexander Moreira-Almeida. Ainda na residência na USP, em 1999, ele participou da fundação do Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos (Neper), do Instituto de Psiquiatria da USP.

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O tema da espiritualidade continuou presente no seu doutorado na USP e no pós-doutorado na Duke University (nos EUA). Em 2006, já na UFJF, fundou o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), dedicado, também, à divulgação científica do assunto.

Notoriedade internacional 

Ao longo de todo esse período, superou críticas a seu trabalho e ganhou notoriedade internacional. Em 2025, recebeu o prêmio Oskar Pfister da Associação Americana de Psiquiatria.

Anteriormente. foi coordenador das Seções de Espiritualidade e Psiquiatria das associações Mundial e Brasileira de Psiquiatria. Em 2023, publicou o livro Ciência da vida após a morte. Em maio, participará do 6° Summit Global de Espiritualidade, Religião e Saúde Mental, na UNiversidade de Harvard.

Experiências de quase morte 

“Pesquisamos tanto o impacto das crenças, das práticas religiosas e espirituais sobre a saúde, por exemplo, aumentando ou diminuindo depressão, ansiedade, problemas com drogas, assim como também as experiências espirituais, como experiências de quase morte (EQM), de final de vida, experiências de aparição etc.”, conta. 

Ele participou como orientador da investigação científica de casos de EQM da tese de doutorado da pesquisadora e professora Monalisa Claudia Maria da Silva, em 2023. O estudo teve como base 200 relatos de pessoas de todo o Brasil que diziam ter passado por uma EQM, que ocorre quando a pessoa está clinicamente morta e seu cérebro não registra nenhuma atividade. 

Moreira-Almeida comenta os relatos dos entrevistados:

Eles relataram coisas que aconteciam em volta delas enquanto estavam nesse estado. Nós chamamos isso de percepção verídica de EQM (ou seja, as descrições foram confirmadas)." 

Parada cardiáca

O pesquisador cita um exemplo “muito clássico” de EQM publicado na revista científica The Lancet sobre um paciente, na Holanda, que chegou ao pronto-socorro com parada cardíaca e passou pelos procedimentos de reanimação. “Custaram para conseguir reanimá-lo”, diz Moreira-Almeida.

Homem vítima de parada cardíaca em uma maca prestes a receber aplicação de desfibrilador
Pacientes reanimados após parada cardíaca relatam experiências de quase morte - Envato

Após ser estabilizado, ele permaneceu em coma, sendo encaminhado à Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Com a evolução do quadro, o paciente recuperou a consciência e foi transferido para a enfermaria. Foi, então, que ocorreu o episódio considerado incomum.

Durante uma conversa com um enfermeiro que havia participado do atendimento inicial, o paciente perguntou sobre sua dentadura. Em seguida, afirmou que, enquanto estava em parada cardíaca, teria observado a equipe médica durante os procedimentos de emergência.

De acordo com o relato, o paciente descreveu o enfermeiro e o médico presentes no atendimento, além de mencionar o momento em que seria entubado. Ele afirmou ainda que o enfermeiro retirou e guardou sua dentadura na gaveta de um carrinho de emergência — informação que, segundo o profissional, correspondia aos fatos.

O paciente também relatou partes das conversas entre os médicos durante o atendimento. “Esse é um exemplo de que a pessoa refere e percebe uma coisa claramente, e se verifica como verdadeira”, diz Moreira-Almeida.

Na EQM, o cérebro para, deixa de funcionar. Ele fica em anoxia, sem oxigênio, e a atividade elétrica dele desaparece. 

Se o cérebro estivesse gerando a mente, a consciência, não poderia então haver mente. O grande desafio das EQMs é justamente isso, o cérebro não está funcionando e, apesar disso, a pessoa está lúcida, percebendo as coisas. Então, isso sugere que a consciência pode ser algo além do cérebro.”

Sensação de sair do corpo

O estudo concluiu que, mesmo com pessoas, situações e culturas diferentes, os relatos eram parecidos. Os participantes citam, principalmente, sensações como sair do corpo. As experiências são psicologicamente reais e transformadoras para os pacientes, podendo afetar comportamento, crenças e saúde mental. 

O texto cita algumas hipóteses que poderiam contribuir para a situação: falta de oxigênio no cérebro, alterações neuroquímicas, mecanismos de defesa do cérebro em situações extremas, aspectos psicológicos e culturais.

Espirualidade e mediunidade

O Nupes também investiga a espiritualidade. E em vez de relatos, como no caso das EQMs, procurou-se reproduzir experiências de mediunidade em ambientes controlados de pesquisa.

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Em um dos estudos, indivíduos em transe mediúnico foram analisados por meio de ressonância magnética funcional, permitindo observar como o cérebro se comporta durante essas vivências. Esse tipo de investigação busca compreender se há padrões neurológicos específicos associados a estados considerados espirituais.

Foram identificadas tanto informações genéricas quanto detalhes difíceis de serem explicados por meios convencionais, como nomes, expressões familiares e referências a hábitos particulares.

A história de Vito e Frozen

Um dos casos investigados e publicados recentemente pelos pesquisadores envolve a história de um casal que perdeu um filho de 12 anos em decorrência de leucemia. A pesquisa foi conduzida em ambiente controlado, com toda a interação inicial entre os familiares e o médium sendo filmada e monitorada.

Após esse primeiro contato, o médium psicógrafo escreveu texto atribuído ao filho falecido. Ele inicia dizendo: "Pai e mãe, para destravar, Vito, mas desta vez não precisamos mais de senha para nos falar."

Segundo o professor, os pais contaram que “Vito” era a senha utilizada pela família para acesso a sistemas de internet e computadores, informação que não era pública.

Contorno branco luminoso de figuras humanas posicionadas em círculos
Mediunidade e comunicação com espíritos também são estudadas - Envato

Em seguida, o médium escreveu: “Sempre que eu posso, eu faço brincadeiras. Frozen, batam palminhas.” De acordo com o psiquiatra essa frase, à primeira vista, não parecia ter sentido.

No entanto, os pais reconheceram uma referência muito específica: o filho costumava usar a palavra “Frozen” como uma brincadeira com colegas, acompanhada de palmas, em situações de descontração. Esse comportamento era considerado um traço peculiar da personalidade da criança.

“Esse é um exemplo de informações muito peculiares da pessoa e que não tinha como o médium ter acesso por meios convencionais. Até porque esse médium morava a mais de 2.000 km daqui e nunca havia tido, aqui na cidade, nenhum contato prévio com os familiares que participaram dessa pesquisa.”

Ele descreve o processo como rigidamente controlado, com registro em vídeo de todas as etapas e monitoramento contínuo do médium, de modo a garantir que não houvesse comunicação prévia ou acesso às informações apresentadas. 

Desafio a explicações

Esses resultados, segundo o pesquisador, não são apresentados como prova definitiva de fenômenos sobrenaturais, mas como dados que desafiam explicações simples e estimulam novas perguntas. A proposta central é investigar essas ocorrências com o mesmo rigor aplicado a outros fenômenos psicológicos e biológicos.

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Outro ponto fundamental abordado é a distinção entre espiritualidade saudável e transtornos mentais. Experiências como “ouvir vozes”, por exemplo, podem estar presentes tanto em quadros psiquiátricos quanto em contextos religiosos amplamente aceitos. 

“Temos trabalhado, neste quarto de década, com investigações científicas para tentar entender quando essas experiências podem ser saudáveis ou quando elas são patológicas, para ajudar o psiquiatra a fazer a distinção, quando há necessidade de tratamento ou quando se trata de uma experiência que pode ter sido benéfica para a pessoa”, diz o professor.

Impactos na saúde

De acordo com ele, o estudo da espiritualidade, nesse contexto, busca compreender como essas experiências ocorrem, quais seus impactos na vida das pessoas e como podem ser integradas ao cuidado em saúde. 

Mas, afinal, após tantos estudos é possível dizer que a consciência sobrevive ao corpo? Ou, em outras palavras, há vida após a morte? 

Nos parece para nós, autores, mas para vários outros pesquisadores também, que as evidências são realmente muito sugestivas de sobrevivência da consciência ou da chamada vida após a morte.”

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