Quando a preocupação com a saúde se torna um problema? Especialista explica
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São Paulo, 28/02/2026 - Em Zurique, na Suíça, empresários e executivos de alto desempenho estão desembolsando o equivalente a R$ 48 mil por semana em tratamentos na Paracelsus Recovery, de acordo com o jornal The Guardian. O local é uma clínica exclusiva que atende apenas um paciente por vez. O motivo da internação, no entanto, não é uma doença tradicional, mas uma algo chamado de “síndrome da fixação pela longevidade” pela clínica.
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O termo não foi cientificamente documentado, mas foi dado pelo CEO e fundador da clínica suíça de reabilitação em saúde mental, Jan Gerber, que disse observar um aumento de pacientes com hábitos abusivos de preocupação com a saúde, como jejuns frequentes e acompanhamento contínuo de exames metabólicos.
As ações notadas na clínica refletem as consequências de uma mentalidade de se chegar aos 80 anos com a disposição dos 40 que pode se tornar uma obsessão. Muitas vezes com recursos financeiros em expansão, os pacientes da Paracelsus transformaram o que deveria ser um hábito saudável em uma possível compulsão.
Quando devemos nos preocupar?
Na prática, o cenário descrito pelo CEO da clínica tem traços semelhantes aos de um transtorno alimentar: eles deixam de ir a jantares com amigos ou faltam a eventos familiares para não quebrar rígidos protocolos de sono e jejum que pode levar ao isolamento, depressão e insônia. Em casos extremos, a obsessão gera danos físicos graves, como disfunções metabólicas por jejuns prolongados e problemas renais devido ao excesso de suplementos.
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Segundo o médico psiquiatra e coordenador do departamento de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Abeso, Adriano Segal, a linha divisória entre o cuidado e a patologia é tênue. O sinal de alerta acende quando ela demanda tempo exagerado ou quando são necessários cada vez mais etapas ou métodos, tempo e gastos no ritual diário de cuidado com a saúde.
Quando a pessoa começa a ficar angustiada por sentir que nunca seus cuidados são suficientes."
O psiquiatra explica que essa fixação pode caminhar para o que hoje é classificado como Transtorno de Ansiedade por Doenças, um quadro em que "a pessoa fica em constante dúvida se está ou não doente e raramente consegue se convencer de que não está, a despeito de evidências concretas".
O psiquiatra aponta que a regra geral para identificar o limite patológico é observar se há um impacto negativo na vida do indivíduo, como gastar muito dinheiro, abandonar atividades que antes davam prazer, perda de sono, incomodar ou atrapalhar as relações com pessoas próximas com a sua rotina. A partir disso, é preciso procurar auxílio profissional.
Tecnologia pode impactar
A tecnologia moderna — como anéis inteligentes, smartwatches e monitores de glicose usados por pessoas sem risco de diabetes e outras doenças — pode atuar como um amplificador dessa ansiedade. O psiquiatra destaca que o monitoramento constante faz com que pequenos desvios, como uma noite mal dormida ou a perda de um treino, gerem picos de estresse e culpa.
Sobre o uso excessivo dessas ferramentas de monitoramento, Segal alerta que elas se tornam prejudiciais "quando a pessoa passa a acreditar que elas não são mais suficientes para garantir os objetivos, ou quando os objetivos se tornam mais difíceis, ou quando não acalmam mais a ansiedade que antes conseguiam acalmar".
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Nesses casos, ele aponta que o tratamento psiquiátrico exige um "desmame" cuidadoso tanto dos dispositivos quanto da rotina, abrindo mais espaço para a flexibilidade que deve ser inserida em uma abordagem terapêutica global com um especialista.
"Só tirar essas ferramentas de uma vez pode não ser eficaz ou pode ser muito doloroso, fazendo com que a pessoa desista de se tratar", alerta o psiquiatra.
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