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Atendimento por ansiedade em idosos no SUS cresce 2.500% em dez anos

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Entre 2022 e 2024, o volume de atendimentos para ansiedade de pessoas idosas no SUS mais que dobrou - Freepik
Entre 2022 e 2024, o volume de atendimentos para ansiedade de pessoas idosas no SUS mais que dobrou
Por Emanuele Almeida

20/01/2026 | 08h59 ● Atualizado | 09h00

São Paulo, 20/01/2026 - José Roberto (78 anos) e Ariovaldo (80 anos) são irmãos que moram juntos desde o falecimento da mãe, em 1999, em Santo André/SP. Nos últimos anos, José Roberto tem sofrido com crises de ansiedade devido a conflitos com o irmão e consequências do avanço da idade. Quem conta é a sobrinha dos dois, Silvia Monice, de 60 anos. 

“As conversas repetitivas [entre os irmãos] e as tensões têm causado grande estresse entre os dois. Por conta disso, José Roberto tem apresentado crises de ansiedade recorrentes”, diz ela. Silvia narra a história dos irmãos porque José Roberto ainda sente dificuldades em lidar com o diagnóstico e os sintomas da ansiedade e falar sobre isso. 

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O caso dele não é individual. Dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde ao VIVA revelam um cenário alarmante sobre a saúde mental dos brasileiros na faixa etária de 50 a 80 anos: entre 2014 e 2024, a busca por atendimento ambulatorial decorrente de transtornos de ansiedade (CID10: F41) apresentou um crescimento vertiginoso de aproximadamente 2.592%,  27 vezes maior em dez anos, no Sistema Único de Saúde (SUS). Os números de 2025 ainda não foram fechados. 

Em 2014, o sistema registrava 7.375 atendimentos ambulatoriais para ansiedade nesse grupo específico. Dez anos depois, em 2024, esse número saltou para 198.538 registros. O salto mais drástico ocorreu nos últimos anos: entre 2022 e 2024, o volume de atendimentos mais que dobrou, passando de 89.472 para os atuais 198.538. O Ministério da Saúde também reforça que os dados se referem ao número de procedimentos realizados, e não ao total de pessoas atendidas, já que uma mesma paciente pode ter mais de um registro.

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Foi no atendimento ambulatorial que José Roberto foi submetido, ainda em outubro de 2025. Silvia, que o levou ao hospital, conta que ao apresentar sintomas como dor no peito, sudorese intensa, tremores nas mãos e no corpo ele foi levado imediatamente ao pronto socorro público e foi medicado. Porém, sem melhoras nos sintomas, ele foi encaminhado para exames mais específicos — estes sem alterações significativas —, o que levou ao diagnóstico de crise de ansiedade. 

Angústia e finitude

Para compreender as razões da ansiedade na terceira idade, o psicólogo especialista em psicologia social, Francisco Carlos destaca a própria natureza da ansiedade como um estado de antecipação.

Segundo ele, diferente dos jovens que veem o futuro como algo distante, o idoso tem consciência de que está chegando à "última fatia da pizza", o que gera angústia sobre a finitude e o medo da morte. 

“Ele se questiona como vai ficar a família e até mesmo que legado ele vai deixar ou não”, observa. 

O psiquiatra do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Gabriel Okuda complementa essa visão existencial, apontando que o envelhecimento traz questionamentos similares a uma crise de meia-idade, agravados pela frequência maior de lutos e perdas de familiares e amigos.

Além das questões existenciais, os fatores práticos e sociais são determinantes. Okuda ressalta o impacto das transições profissionais e financeiras: muitos idosos se vêem em uma "rua sem saída", presos à necessidade de serem o pilar financeiro da casa ou angustiados pela queda no padrão de vida após a aposentadoria. 

“Quando chegam nesse momento, eles [idosos] já estão com um custo de vida mais elevado e tendo estilos de vida que são mais complexos. E quando se vê preso naquilo, preso ao salário, preso ao funcionamento financeiro e não vê saída para isso, também gera mais angústia”, explica. 

É o que acontece entre os irmãos de Santo André. Silvia explica que as crises de José Roberto ocorrem com maior frequência próximo a data do recebimento do benefício previdenciário de Ariovaldo, que por sua vez, fica mais tenso, com conversas repetitivas sobre detalhes de sua conta bancária e a dependência de alguém da família para acompanhá-lo até o banco para ajudá-lo a receber.

Saúde mental

O psiquiatra Okuda analisa que o crescente atendimento ambulatorial dos casos de ansiedade se deve tanto pelo aumento da procura quanto pelo maior adoecimento mental da população 50+. 

“Acho que estamos em um momento em que se pensa mais sobre saúde mental. Principalmente levando em conta que o ‘boom’ de casos de ansiedade que a Organização Mundial da Saúde esperava a partir de 2030, foi de alguma forma adiantado pela questão da pandemia”, analisa Okuda. 

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A psicóloga Letícia Oliveira concorda que a pandemia trouxe um apelo maior à saúde mental, com a maior exposição dos idosos ao vírus e, como consequência, um maior medo da morte. 

Além disso, a especialista também observa que o maior envelhecimento da população, junto a um maior acesso à informação, podem ter influenciado o volume expressivo de atendimentos voltados para sintomas da ansiedade nos últimos anos. 

Os idosos estão conseguindo ter cada vez mais acesso à informação. Contudo, eles sofrem também ao consumirem fake news. Muitos ainda não possuem filtro para distinguir a veracidade de mensagens sobre doenças ou política recebidas em redes sociais, o que gera um sofrimento emocional diário e intenso”, alerta a psicóloga. 

O psicólogo Francisco Carlos reforça esse ponto, citando o medo da dependência financeira e o receio de se tornar um "peso" para os familiares, o que pode desencadear transtornos de separação ligados à mudança de casa ou ida para instituições de repouso e até mesmo relações familiares após a mudança para viver em conjunto. 

Contudo, os especialistas apontam que os motivos para sintomas de ansiedade em idosos são multifatoriais, abrangendo desde a situação social, como gênero, finanças e moradia, assim como estado da qualidade de vida e saúde, levando principalmente em conta independência motora e mental para conseguir realizar decisões sobre si mesmos.

Desafios do diagnóstico 

O principal obstáculo para o diagnóstico, segundo o psiquiatra Gabriel Okuda, é a predominância de sintomas físicos. Ele explica que o idoso ansioso geralmente sente falta de ar, aperto no peito e taquicardia, o que o leva a procurar cardiologistas e pneumologistas, e não profissionais de saúde mental. 

O psicólogo Francisco Carlos adiciona sinais físicos que devem ser observados, como sudorese, extremidades frias, tensão muscular e alterações no sono, que muitas vezes mascaram o problema psicológico. 

José Roberto apresentou sintomas similares durante sua segunda crise de ansiedade, em dezembro passado. Nesse atendimento, lhe foi prescrito tratamento com analgésico e ansiolíticos e foi dispensado. Também disseram que seria necessário o encaminhamento a um psiquiatra, o que até o momento não aconteceu.

Gabriel Okuda destaca a complexidade farmacológica durante o tratamento. Como muitos idosos já utilizam diversos medicamentos para doenças crônicas (diabetes, hipertensão), a introdução de psicofármacos exige cuidado redobrado com interações medicamentosas e efeitos colaterais, como ganho de peso ou risco de quedas.

“Há pacientes em que é preciso que tentar ajustar um remédio para ansiedade mais específico. Porém, quando se vê, o paciente já está tomando quatro, cinco, seis remédios. Então, existe uma interação medicamentosa e precisamos tomar muito cuidado com relação a isso”, alerta o psiquiatra.

Maus tratos a idosos
Especialistas elencam desafios multifatoriais para o diagnóstico e tratamento de ansiedade em idosos - Adobe Stock

Além disso, Okuda menciona a dificuldade de engajamento, pois muitos pacientes desistem ao perceber que a terapia exige mudanças no estilo de vida e não apenas uma pílula mágica. 

Do ponto de vista psicoterapêutico, Letícia de Oliveira aponta o desafio da "alfabetização emocional". Isso porque, diferentemente dos jovens que já chegam ao consultório descrevendo o que sentem, os idosos muitas vezes têm dificuldade de relatar emoções e detalhes do cotidiano.

O trabalho do terapeuta, segundo ela, envolve ensinar o paciente a observar e validar seus próprios sentimentos, um processo que exige paciência e reeducação

Tendo em vista os desafios presentes no diagnóstico e tratamento de ansiedade em idosos, o psiquiatra Gabriel Okuda indica que, se a procura por especialista em cardiologia, neurologia, clínica geral não resultou em melhora, que o idoso e a família busquem um profissional da saúde mental.  

Um dos estigmas dentro da saúde mental é começar a tomar vários remédios e não é isso. Muitas vezes a gente precisa investigar o que está acontecendo, e uma simples mudança de estilo de vida e iniciar a terapia muitas vezes já resolve".

Ele acrescenta também que não é preciso estar com sintomas mais graves e físicos para procurar ajuda profissional. “Ele pode buscar ajuda e uma conversa para que vejamos o que está acontecendo e, a partir disso, a gente consegue orientar aquele indivíduo a ter uma melhor organização de sua vida para ter melhores resultados com a ansiedade”, conclui. 

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