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Sobre a coluna

Fundador e CEO da Maturi, plataforma para profissionais 50+.  É  empreendedor social com pós-graduação em Gestão da Inovação Social pelo Amani Institute.


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Você não está desatualizado; o mercado de trabalho é que ainda não chegou lá

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O etarismo revela o atraso das empresas em entender a nova realidade demográfica do Brasil, diz Litvak - Envato
O etarismo revela o atraso das empresas em entender a nova realidade demográfica do Brasil, diz Litvak

São Paulo - Em um País que envelhece rapidamente, milhões de profissionais seguem sendo tratados como se estivessem "fora do timing". O problema não está neles, está em um mercado que ainda não aprendeu a reconhecer o valor da experiência.

O etarismo no trabalho ainda exclui talentos, desperdiça experiência e revela o atraso das empresas diante da nova realidade demográfica do Brasil.

Você mandou o currículo. Tinha tudo que a vaga pedia, e provavelmente mais. Esperou alguns dias. Nada. Ou então veio aquele retorno educado, genérico, que na prática não diz nada: "seu perfil não se encaixa no momento". Você ficou olhando para a tela pensando se deveria atualizar alguma coisa, fazer mais um curso, mudar a foto, tirar o ano de formatura.

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Eu preciso te dizer uma coisa: o problema não é você.

Não estou dizendo isso para te animar. Estou dizendo porque os dados mostram isso com clareza, e porque trabalho há mais de dez anos conectando profissionais com mais de 50 anos a empresas, e vejo esse ciclo se repetir o tempo todo.

O Brasil está envelhecendo rápido. Mais de um quarto da população já tem mais de 50 anos, e até 2050 um em cada três brasileiros terá mais de 60. Só que o mercado de trabalho ainda não acompanhou essa transformação. As estruturas, os processos seletivos e, principalmente, os modelos mentais sobre carreira ainda refletem um país mais jovem e mudaram pouco desde então.

Uma pesquisa que a Maturi realizou em parceria com a EY ouviu 191 empresas brasileiras de 13 setores. O resultado é desconfortável: 80% delas não tinha nenhuma política específica para contratar profissionais maduros. E, quando o assunto é diversidade, equidade e inclusão, o recorte etário aparece em último lugar nas prioridades, atrás de raça, gênero, pessoas com deficiência e orientação sexual.

O mercado não está preparado para você. Mas a culpa disso não é sua.

Por que isso acontece? São algumas camadas que se somam.

  1. Existe um modelo antigo de carreira ainda muito presente, aquele que supõe que, depois de certa idade, você já deveria estar estabilizado em um cargo ou fora do jogo.
  2. Existe a pressão por redução de custo, que frequentemente se traduz em preferência por profissionais mais jovens e com salários menores.
  3. E existe uma cultura organizacional que tende a se reproduzir, contratando sempre perfis parecidos com os que já estão dentro.

O resultado é uma narrativa conveniente que circula por aí, às vezes dita em voz alta, às vezes apenas implícita nas decisões: a de que o profissional maduro "ficou para trás". Que ele tem dificuldade com tecnologia, resistência à mudança e custo alto demais.

Essa narrativa é, em grande parte, falsa. E o custo de acreditar nela é alto tanto para quem a reproduz quanto para quem a internaliza.

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O que a experiência constrói em você não aparece em nenhum curso e não tem certificado.

É a capacidade de ler uma sala antes de falar, de perceber que aquele problema "novo" já aconteceu antes com outro nome, de manter a cabeça fria quando tudo está caindo.

Um profissional com 25 anos de trajetória sabe, quase por instinto, o que fazer quando o plano dá errado e carrega uma rede, um contexto e uma resiliência que levam décadas para serem construídos. Esse é o tipo de julgamento que nenhuma inteligência artificial replica."

Agora, tem algo que preciso dizer com cuidado, porque não quero soar como mais um artigo de "reinvente-se aos 50". Não é isso. Não estou sugerindo que você mude quem você é para caber em um mercado que ainda não evoluiu. Estou sugerindo que você saiba com clareza o que tem e pare de pedir desculpas por isso.

Saber o que você vale muda tudo. Muda como você escreve um e-mail, como você entra em uma entrevista, como você responde quando alguém faz uma pergunta condescendente sobre adaptabilidade. Muda também o tipo de empresa que você escolhe buscar. Porque existem organizações que já entenderam que diversidade etária é vantagem competitiva, não concessão.

Encontrá-las fica mais fácil quando você pára de tentar convencer quem não quer ser convencido e passa a usar sua rede de forma mais intencional, valorizando os vínculos que construiu ao longo da carreira.

O mercado vai levar um tempo para se atualizar. Seria desonesto da minha parte fingir que não é assim. Mas existe uma diferença enorme entre esperar que ele te reconheça e agir a partir do que você já sabe que tem.

Você não está atrasado. Você chegou antes.

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