Mórris Litvak
Colunista VIVA
11/05/2026 | 10h34
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Fundador e CEO da Maturi, plataforma para profissionais 50+. É empreendedor social com pós-graduação em Gestão da Inovação Social pelo Amani Institute.
Você não está desatualizado; o mercado de trabalho é que ainda não chegou lá
Envato
São Paulo - Em um País que envelhece rapidamente, milhões de profissionais seguem sendo tratados como se estivessem "fora do timing". O problema não está neles, está em um mercado que ainda não aprendeu a reconhecer o valor da experiência.
O etarismo no trabalho ainda exclui talentos, desperdiça experiência e revela o atraso das empresas diante da nova realidade demográfica do Brasil.
Você mandou o currículo. Tinha tudo que a vaga pedia, e provavelmente mais. Esperou alguns dias. Nada. Ou então veio aquele retorno educado, genérico, que na prática não diz nada: "seu perfil não se encaixa no momento". Você ficou olhando para a tela pensando se deveria atualizar alguma coisa, fazer mais um curso, mudar a foto, tirar o ano de formatura.
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Eu preciso te dizer uma coisa: o problema não é você.
Não estou dizendo isso para te animar. Estou dizendo porque os dados mostram isso com clareza, e porque trabalho há mais de dez anos conectando profissionais com mais de 50 anos a empresas, e vejo esse ciclo se repetir o tempo todo.
O Brasil está envelhecendo rápido. Mais de um quarto da população já tem mais de 50 anos, e até 2050 um em cada três brasileiros terá mais de 60. Só que o mercado de trabalho ainda não acompanhou essa transformação. As estruturas, os processos seletivos e, principalmente, os modelos mentais sobre carreira ainda refletem um país mais jovem e mudaram pouco desde então.
Uma pesquisa que a Maturi realizou em parceria com a EY ouviu 191 empresas brasileiras de 13 setores. O resultado é desconfortável: 80% delas não tinha nenhuma política específica para contratar profissionais maduros. E, quando o assunto é diversidade, equidade e inclusão, o recorte etário aparece em último lugar nas prioridades, atrás de raça, gênero, pessoas com deficiência e orientação sexual.
O mercado não está preparado para você. Mas a culpa disso não é sua.
Por que isso acontece? São algumas camadas que se somam.
- Existe um modelo antigo de carreira ainda muito presente, aquele que supõe que, depois de certa idade, você já deveria estar estabilizado em um cargo ou fora do jogo.
- Existe a pressão por redução de custo, que frequentemente se traduz em preferência por profissionais mais jovens e com salários menores.
- E existe uma cultura organizacional que tende a se reproduzir, contratando sempre perfis parecidos com os que já estão dentro.
O resultado é uma narrativa conveniente que circula por aí, às vezes dita em voz alta, às vezes apenas implícita nas decisões: a de que o profissional maduro "ficou para trás". Que ele tem dificuldade com tecnologia, resistência à mudança e custo alto demais.
Essa narrativa é, em grande parte, falsa. E o custo de acreditar nela é alto tanto para quem a reproduz quanto para quem a internaliza.
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O que a experiência constrói em você não aparece em nenhum curso e não tem certificado.
É a capacidade de ler uma sala antes de falar, de perceber que aquele problema "novo" já aconteceu antes com outro nome, de manter a cabeça fria quando tudo está caindo.
Um profissional com 25 anos de trajetória sabe, quase por instinto, o que fazer quando o plano dá errado e carrega uma rede, um contexto e uma resiliência que levam décadas para serem construídos. Esse é o tipo de julgamento que nenhuma inteligência artificial replica."
Agora, tem algo que preciso dizer com cuidado, porque não quero soar como mais um artigo de "reinvente-se aos 50". Não é isso. Não estou sugerindo que você mude quem você é para caber em um mercado que ainda não evoluiu. Estou sugerindo que você saiba com clareza o que tem e pare de pedir desculpas por isso.
Saber o que você vale muda tudo. Muda como você escreve um e-mail, como você entra em uma entrevista, como você responde quando alguém faz uma pergunta condescendente sobre adaptabilidade. Muda também o tipo de empresa que você escolhe buscar. Porque existem organizações que já entenderam que diversidade etária é vantagem competitiva, não concessão.
Encontrá-las fica mais fácil quando você pára de tentar convencer quem não quer ser convencido e passa a usar sua rede de forma mais intencional, valorizando os vínculos que construiu ao longo da carreira.
O mercado vai levar um tempo para se atualizar. Seria desonesto da minha parte fingir que não é assim. Mas existe uma diferença enorme entre esperar que ele te reconheça e agir a partir do que você já sabe que tem.
Você não está atrasado. Você chegou antes.
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