Crescimento da base de eleitores 70+ supera a do eleitorado geral
Denny Cesare/Estadão Conteúdo
São Paulo - Mesmo com o voto facultativo, as pessoas idosas vêm, aos poucos, reescrevendo o mapa político do Brasil. O eleitorado com 70 anos ou mais cresceu em um ritmo quatro vezes e meio superior à média geral de 2018 a 2024.
Enquanto a taxa de crescimento do eleitorado geral entre 2018 e 2024 foi de 5,8%, o número total de eleitores aptos com 70 anos avançou 26% no mesmo período. Assim, a base de eleitores 70+ saltou de cerca de 12 milhões em 2018 para 15,2 milhões em 2024.
Entretanto, em 2024 nem a metade desses eleitores (48,9%) foi às urnas, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
As projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, até 2070, as pessoas com 70 anos ou mais representarão 24,2% da população brasileira. Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, essa transformação estrutural exige uma nova visão sobre o processo eleitoral.
O envelhecimento do eleitorado é uma coisa muito clara. A quantidade de jovens e a proporção de jovens está diminuindo, e a proporção de idosos de 50+, 60+, 70+ está crescendo."
Em pleitos polarizados, o contingente de eleitores 70+ pode fazer a diferença nas urnas. Nas últimas eleições gerais, por exemplo, a diferença entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) foi de 2,1 milhões de votos. Já a participação efetiva de eleitores com mais de 70 anos no primeiro turno atingiu a marca de 6,1 milhões de pessoas.
Para Cléa Klouri, cofundadora da consultoria Data8 – hub focado na Economia da Longevidade –, o engajamento das pessoas idosas tem um potencial definidor.
A participação do 70+ pode trazer mudanças no curso das eleições, em função até do que a gente viu na última eleição, de uma disputa muito acirrada".
Abstenção alta e imprecisa
A abstenção dos idosos com mais de 70 anos ainda é a maior, em números absolutos, do País, apesar de ter sofrido uma queda expressiva de 11,64 pontos porcentuais ao longo desses seis anos.
Nas eleições municipais de 2024, dos 15,2 milhões de eleitores acima de 70 anos aptos a votar, 7,7 milhões não compareceram ao 1º turno - uma taxa de abstenção de 51% para esse grupo. No pleito presidencial de 2022, a abstenção chegou a 58,9%. Klouri aponta a gravidade desse cenário.
Estamos diante de uma contradição importante: nunca tivemos tantas pessoas vivendo mais, com mais experiência e capacidade de contribuição e, ao mesmo tempo, uma parcela significativa desse grupo permanece fora das decisões. A maior geração da história não pode seguir à margem da democracia."
A ausência de quase 8 milhões de eleitores 70+ nas urnas não se explica por um único fator. Klouri destaca que a abstenção é fruto de uma combinação de barreiras físicas e simbólicas:
- Dificuldade de locomoção: colégios eleitorais distantes e falta de acessibilidade desmotivam o comparecimento;
- Ausência de políticas públicas: historicamente, planos de governo focam em crianças, adolescentes e adultos em idade produtiva, deixando a longevidade ativa sem propostas adequadas em saúde crônica, educação e cultura;
- Idadismo: a sensação de não pertencer mais ao debate público afasta o eleitor.
Segundo a pesquisadora, o sentimento de invisibilidade afeta a participação cívica na velhice. "A percepção de não ter importância mais da sua opinião e da sua participação faz com que esse voto seja desestimulado. A própria pessoa diz: 'eu não tenho mais a importância que eu tinha'."
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Contudo, o número de abstenções é, na prática, menor. Isso porque o TSE lista cidadãos que já faleceram, mas cujas mortes ainda não foram depuradas pelo sistema e que continuam engrossando a lista de ausentes, segundo o cientista político da FGV EAESP, Claudio Couto.
É algum tipo de ilusão estatística: muito do que aparecia antes como 'não comparecimento' às urnas, na realidade não era. O eleitor que morreu não tinha mesmo como comparecer."
O Brasil tem 37.814 pessoas com 100 anos ou mais, segundo dados do Censo 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, os dados do Tribunal mostram 184.438 eleitores aptos com 100 anos ou mais no Brasil e no exterior nas eleições do mesmo período.
O comparecimento dos 70+ às urnas diminui conforme o avanço da idade. A faixa dos 70 aos 74 anos registrou 59% de frequência no 1º turno da última eleição municipal, número que decai expressivamente entre os 75 e 79 anos, para 38,4%, e para 23,75% dos 80 aos 84 anos, e assim em diante.
De acordo com levantamento da Nexus, os eleitores com 70 anos ou mais representam 45,5% de todo o eleitorado idoso. Eles já compõem quase metade do colégio eleitoral de idosos nos Estados brasileiros, com uma estimativa de 16,5 milhões aptos a votar nas eleições de 2026.
Mulheres são maioria, mas homens votam mais
O censo demográfico do IBGE mostra que as mulheres são maioria na velhice brasileira. Isso se reflete também no TSE: elas representaram mais de 56% do eleitorado 70+ apto a votar em 2024.
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No entanto, as urnas expuseram um cenário contrário: os homens nessa faixa etária se abstêm menos. Proporcionalmente, quase 54,5% dos homens 70+ votaram em 2024, contra 44,6% das mulheres.
Para Couto, essa disparidade pode estar ligada ao perfil mais radicalizado dos homens no debate público recente.
É compreensível que homens que têm a opção de não votar, por estarem mais radicalizados, também compareçam mais do que as mulheres, principalmente em eleições polarizadas."
Norte e Nordeste lideram presença 70+ nas urnas
Quanto à distribuição geográfica, o Sul e o Sudeste – regiões com as populações mais envelhecidas do País – registraram as piores taxas de comparecimento. Em contrapartida, o Norte e o Nordeste, que possuem populações mais jovens, lideraram a frequência nas urnas.
Na faixa de 70 a 74 anos, o Nordeste liderou com mais de 71% de comparecimento nas eleições de 2024, seguido da região Norte (70,4%). O Sul obteve o segundo pior resultado (67,5%), seguido do Sudeste (61,3%).
Consolidação democrática
O engajamento dos 70+ não foi freado pela exigência de recursos tecnológicos, como a implementação da biometria, uma vez que a classe política é mobilizada, predominantemente, por instrumentos de comunicação virtuais, como o WhatsApp e as redes sociais, explica Couto.
Na medida que tanto essas redes como esses aplicativos de comunicação se tornaram espaços também de disseminação do debate político, não seria de se estranhar que eleitores mais motivados, até por talvez estarem mais atiçados ideologicamente, compareçam mais."
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Para José Eustáquio Diniz Alves, a maturidade democrática do Brasil depende da inclusão ativa dessa parcela da população. "Democracia não é só direito de votar. Organizar e ter uma participação mais efetiva, mais organizada dessa população de 70 anos e mais é saudável para a democracia brasileira."
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