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Fila do INSS é a menor em 21 meses, mas automação falha na transparência

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O avanço da digitalização e o uso de robôs nas análises de benefícios geraram forte desconfiança - Adobe Stock
O avanço da digitalização e o uso de robôs nas análises de benefícios geraram forte desconfiança
Por Paula Bulka Durães

07/07/2026 | 09h11 ● Atualizado | 11h34

São Paulo - O primeiro semestre de 2026 do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) se encerra com uma redução expressiva na fila e, simultaneamente, alertas sobre a concessão automática de benefícios.

Se, por um lado, o estoque de pedidos recuou em junho para 1,8 milhão – o menor patamar desde setembro de 2024 –, por outro, o avanço da digitalização e o uso de robôs nas análises de benefícios geraram forte desconfiança no Tribunal de Contas da União (TCU).

O destaque fica com abril, mês em que o número de benefícios negados superou o de concedidos. Neste período, houve 751.482 indeferimentos e 738.461 concessões.

Contudo, o INSS não esclarece quantos processos foram indeferidos de forma automática, nem quais requerimentos passaram por análise digital. Os resultados ocorreram sob a gestão de Ana Cristina Viana Silveira, servidora de carreira desde 2003 que assumiu o órgão há pouco mais de dois meses, após a exoneração de Gilberto Waller Júnior.

A vida de quem tem o benefício negado

As dificuldades práticas com os canais eletrônicos são relatadas por segurados em momentos de vulnerabilidade. Sandra Mary Guimarães, 51, trabalhadora de serviços gerais, sofre com dores crônicas causadas por artrose.

Na hora de pedir o afastamento, enviou seus atestados pelo Atestmed – sistema digital de perícia incentivado pelo governo –, mas teve a documentação rejeitada, sendo obrigada a agendar uma perícia presencial para semanas depois.

"No dia da perícia, eles me deram negado, ou seja, tive que voltar a trabalhar. Fiquei sem pagamento por 154 dias e o INSS não paga. Aí eu voltei a trabalhar mesmo com restrições, porque os médicos não queriam me dar alta, mas me deram pela minha necessidade financeira."

A análise documental de atestados via AtestMed tem sido responsável por viabilizar uma parcela significativa das concessões de auxílio por incapacidade, antigo auxílio-doença, atualmente o principal gargalo do INSS, com 928 mil pedidos em espera em maio, o que representa 42% de todo o represamento daquele mês.

Análises feitas por robôs são confiáveis?

O advogado previdenciário e diretor do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), Alexandre Triches, aponta falta de clareza nos critérios adotados pelos sistemas tecnológicos da autarquia.

O INSS está usando a automatização nos processos administrativos de uma forma ainda muito pouco transparente."

Segundo ele, estão ocorrendo muitos indeferimentos automatizados de pessoas que têm o direito e não conseguem avançar nesses processos. "Por quê? Porque a automatização não está devidamente orientada", questiona. 

Diante da rigidez das análises automáticas, o advogado relata que profissionais vêm adotando estratégias técnicas e inserindo dados extras para viabilizar uma revisão humana. Não raras vezes se faz necessário um pedido de revisão. Mas a situação compromete o acesso do cidadão comum. "As pessoas, muitas vezes, quando acessam os sistemas, não conseguem superar as barreiras criadas pela automatização, e isto é um grande desafio, defende.

Sob a vigilância do TCU

As fragilidades identificadas no modelo automatizado levaram à intervenção de órgãos de controle externo. No Acórdão 1498/2026, o TCU proibiu o INSS de arquivar sumariamente processos com concessões parciais rebaixadas motivadas por lacunas cadastrais no Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS).

Pela nova determinação, a autarquia pode antecipar o pagamento parcial, mas fica impedida de arquivar o caso sem realizar uma investigação detalhada sobre o histórico do trabalhador para tentar liberar o valor integral.

Triches contextualiza que a mudança estrutural faz parte do movimento de desmaterialização do serviço público, etapa de transição do atendimento e de documentos do formato físico, no papel, para o digital.

No caso da autarquia, a automação foi adotada para suprir o esvaziamento do quadro de funcionários, que caiu de 33,8 mil servidores ativos em 2018 para 17,8 mil no início de 2026.

"Está muito evidente que a digitalização na Previdência teve como objetivo primário não a eficiência do ponto de vista da qualidade das análises, mas sim gerir a quantidade de pessoas que saíram do serviço público previdenciário", aponta.

Os limites da tecnologia

A adoção da tecnologia na administração pública exige cautela. O especialista em cibersegurança e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Rafael Coimbra, faz um alerta contra o tecnosolucionismo - termo para a crença ideológica de que problemas sociais, políticos e humanitários podem ser resolvidos de forma efetiva por meio da inovação digital.

Coimbra argumenta que a automação sem supervisão em políticas de cunho social traz riscos graves, uma vez que falhas de processamento de dados afetam o sustento básico de famílias vulneráveis, com prejuízo de necessidades básicas e alimentação.

"A gente não pode achar que uma tecnologia por si só vai substituir humanos e vai fazer um trabalho muito melhor."

Para o professor da FGV, as ferramentas digitais deveriam ser concentradas em fluxos burocráticos e repetitivos de grande volume. Coimbra complementa que a automação ideal deve promover "um deslocamento humano para funções que exijam mais conhecimento e menos um trabalho burocrático", direcionando analistas e médicos peritos para avaliações qualitativas e especializadas.

A implementação de sistemas de validação mais rígidos, como a biometria facial, evidencia barreiras no uso cotidiano. Coimbra pontua que o mecanismo é eficiente no combate a fraudes previdenciárias, mas gera um embate técnico contínuo.

A biometria é um processo tecnológico muito mais evoluído do que uma assinatura manual. Porém, quem está lá na fronteira da fraude já está desenvolvendo tecnologias que tentam ser capazes de burlar esses sistemas. Esse jogo de gato e rato, de pessoas do lado do bem contra os fraudadores, não vai acabar tão cedo."

O outro lado

Em esclarecimento enviado ao VIVA, o INSS negou que o processo de automação e o uso de robôs gerem indeferimentos indevidos ou em massa. A autarquia ressalta que "os resultados colhidos pelo INSS demonstram que não há indeferimentos indevidos de forma automática" e que o sistema é aplicado "sempre que os requisitos legais e a consistência das informações permitem uma decisão objetiva, completa e inequívoca".

Nos cenários em que surgem dúvidas ou erros cadastrais, o órgão informou que o requerimento é direcionado para a avaliação humana de um servidor.

De acordo com a pesquisa Pnad Contínua divulgada pelo IBGE em julho de 2026, o uso da internet permanece substancialmente menor entre as pessoas idosas de 60 anos ou mais, registrando um percentual de 74,5% de usuários em 2025, apesar de o grupo apresentar uma acelerada expansão anual de 4,4 pontos percentuais.

O obstáculo mais crítico, no entanto, reside na falta de letramento digital. Entre as pessoas idosas que não utilizaram a rede, 66,5% apontaram como principal motivo o fato de não saberem operá-la. O professor da FGV esclarece que a modernização da infraestrutura não ocorre de forma homogênea para todos.

"Quantitativamente falando, a gente está cada vez melhor. Isso não significa que qualitativamente esse progresso esteja acontecendo na mesma velocidade e de forma igual", diz Coimbra. E complementa: "O governo tem que garantir condições para que as pessoas acessem essa biometria."

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