Alexandre Kalache
Colunista VIVA
02/09/2026 | 09h14
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Gerontólogo e professor, é presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brazil) e co-diretor do Age Friendly Institute. Ex-diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra
Por que o voto dos brasileiros 70+ importa - e a quem?
Paulo Pinto/Agencia Brasil
Rio de Janeiro - O voto entre pessoas 16 a 70 é obrigatório, um dever. Após os 70 anos é facultativo. Mas, acima de tudo, é um privilégio. E uma responsabilidade. Votar é o ato supremo de cidadania. Conclamar todas as pessoas idosas (60+) a votarem deveria estar na pauta de todos os partidos e candidatos, mas poucos o fazem. Convocar os que já passaram dos 70 anos é ainda mais importante – pois para eles não é uma obrigatoriedade.
Partidos e candidatos precisam claramente incluir em suas plataformas e programas as questões relacionadas ao envelhecimento populacional. Que reflitam com cuidado: o que está em jogo não são apenas os interesses imediatistas para quem já passou dos 60 anos, mas também os de seus filhos, filhas, netos e netas. Afinal, são eles as pessoas idosas do futuro."
Tal futuro está muito mais perto do que muitos supõem. O envelhecimento populacional no Brasil está se dando de forma extraordinariamente rápida; dobraremos o número absoluto e relativo de idosos nos próximos 25 anos, chegando a 68 milhões (mais de 30% da população) em 2050. Ou seja, os adultos de hoje com 35 anos serão sexagenários daqui a pouco mais de duas décadas. E o tempo voa.
Eleitorado 70+ pode decidir as eleições
Com base no levantamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) há, em 2026, cerca de 17,2 milhões de eleitores com 70 anos ou mais – equivalente a 7.5% do total de eleitores. Em eleições apertadas, eles podem decidir quais os candidatos que serão eleitos. Basta lembrar que nas últimas eleições à Presidência da República a diferença de votos entre o eleito e o segundo colocado foi de apenas 2,1 milhões de votos.
Ainda de acordo com o TSE, há dez Estados onde a porcentagem de eleitores acima de 70 está acima ou por volta de 10%. Rio Grande do Sul lidera o ranking, com 14,5% seguido do Rio de Janeiro (14,3%), Minas Gerais (12,7%), São Paulo (11,4%) e Paraná (11%). Os demais Estados com eleitores 70+ por volta de 10% são Santa Catarina, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Goiás.
Supondo que a metade dos eleitores acima de 70 anos exerçam o direito do voto nas eleições de outubro, em todos esses estados – mas não só - seus votos podem definir as eleições executivas e eleger membros do poder legislativo.
Passei de 80 e sigo votando
Permito-me personalizar. Em outubro completo 81 anos. E não prevejo nenhuma razão que me impeça votar. E o farei como em todas as muitas eleições de que participei.
Lamento apenas que em minha juventude, por longos anos, não tenha tido esse direito – quantas foram as que não apresentavam opções, em que os resultados eram pré-anunciados. “Eleições” enganosas, que chamávamos então ‘para inglês ver”.
Por terem me negado o ato supremo da cidadania quando jovem, mais ainda me animo a ir às urnas agora, velho que sou. E buscarei fazê-lo da forma a mais criteriosa, procurando escolher bem, escrutinizando cada partido e cada candidato."
O que levarei em conta? Em primeiro lugar, um compromisso com a Saúde Pública. Os candidatos que escolherei são os que mais ardentemente defendem o SUS, um marco civilizatório a ser preservado, consolidado, expandido. Sobretudo para quem já passou dos 60 anos já que mais de 80% deles dependem única e exclusivamente do SUS para ter acesso a serviços de saúde. Serão também os candidatados que entendem que saúde, como estabelece a Organização Mundial da Saúde, é criada no contexto do dia a dia.
Como e onde moramos, qual é o nosso CEP, as condições sanitárias do nosso entorno, se temos ao longo da vida um trabalho digno, como nos locomovemos, nos divertimos, amamos. A perspectiva de curso de vida se impõe, pois seremos ou não pessoas idosas saudáveis pela somatória dos eventos que vivenciamos nas décadas passadas. Candidatos que não demonstram essa percepção não me interessam.
Estilos de vida importam. Mas de pouco adianta sabermos que nossa dieta deve ser saudável se não tivermos recursos para adotá-la. As opções mais saudáveis devem ser as mais accessíveis, fáceis e baratas, e dependem de políticas públicas.
Isso vale também para atividade física. Quem vive nas periferias, sem calçadas, sem iluminação adequada nas vias públicas, cercados por violência, inseguros (pior ainda para mulheres e para a população negra, pretos e pardos), aventurar-se nos espaços públicos para a prática de atividade física impõe grandes riscos. Academias estão fora de seu alcance e estabelecê-las a nível público deve estar na pauta política prioritária.
Os candidatos que irei escolher são os que entendem que saúde depende também de Cultura, de ter acesso a equipamentos culturais, acessíveis física e financeiramente. Estudos recentes demonstram que visitar museus, galerias, ir ao teatro ou ao cinema têm um peso na saúde equivalente a exercitar-se fisicamente.
Escolherei candidatos que demonstrem entendimento de políticas públicas baseadas em evidência. O negacionismo científico parece estar virando moda. Por exemplo, não entender a importância de vacinação (da infância à velhice), abraçar fake News, sem demonstrar um mínimo de discernimento equivale a condenar à morte precoce centenas de milhares de pessoas de todas as idades – os mais vulneráveis sendo as crianças e as pessoas idosas...vimos isso em passado recente.
E escolherei também candidatos que abordem adequadamente questões de saúde mental. Vivemos uma epidemia de ansiedade em paralelo a uma pandemia da solidão. Políticas públicas que ajudem a formação de ‘capital social” dependem de legisladores e governantes capazes de entender o contexto em que as pessoas vivem, sobretudo as que dependem de oportunidades que dependem de ofertas públicas.
Em um País como o Brasil, em que tantos vivem em pobreza onde a solidão é mais comum, ela está aumentando. Medidas como redução da pobreza, fortalecimento dos sistemas de saúde e ampliação da proteção social podem ajudar as pessoas a construir conexões sociais mais fortes.
Aprendizagem ao longo da vida
Saúde é minha preocupação prioritária, logo seguida da importância da Educação – e ambas estão entrelaçadas. Vivemos a “revolução da longevidade” em paralelo a uma revolução tecnológica. Escolherei candidatos que demonstrem entender a importância de Aprendizagem ao Longo da Vida (ALV), da infância à velhice. Aprender a aprender sempre. A validade de nosso conhecimento espira mais cedo e a quantidade novas habilidades e conhecimento aumenta inexoravelmente. A Inteligência Artificial aumentará ainda mais essa rapidez. Falta-nos uma Revolução da Educação.
Os candidatos que escolherei serão os que demonstrarem um compromisso com políticas que sustentem a ALV. É imperativo.
Brasil cresce e envelhece
O único grupo populacional que cresce no Brasil desde a virada do século é o de pessoas com mais de 60 anos. Assim será ao longo do século XXI. Precisamos fazer todo esforço para que as pessoas envelheçam continuando a ser recursos para suas famílias, comunidades e para a Sociedade.
Chegaremos ao ano 2100 com uma população muito menor do que a que teremos em 2040, cerca de 220 milhões enquanto no final do século estima-se que será de 172 milhões – muito menor e substancialmente mais envelhecida.
Não escolherei candidatos incapazes de demonstrar entendimento dos fatores demográficos que moldarão as próximas décadas. Que sejam visionários e audaciosos em sua compreensão do momento que vivemos."
Envelhecimento populacional não significa apenas aumento da expectativa de vida. O que reduz ou acelera o ritmo do envelhecimento está na base da pirâmide.
Quando o número médio de filhos de uma mulher no final de sua vida reprodutiva (Taxa Total de Fecundidade, TTF) cai abaixo da taxa de reposição obviamente a população para de crescer. No Brasil as TTF estão abaixo de 2,1 desde a virada do século, na última década, em torno de 1.5 ano após ano. Embora esse seja um fenômeno global, em nosso país a queda de TTF foi mais brusca (em 1970, quando me graduei como médico, estava em torno de 5,8!).
Meus candidatos serão os que percebem que incentivos financeiros isolados visando aumentar a TTF, não funcionam. A decisão de ter mais filhos não depende apenas de decisões ou preferências individuais, do casal.
Criar filhos, sobretudo no contexto (como o nosso) de um país urbanizado, mesmo que de modo caótico, custa caro. O custo da criação de filhos precisa deixar de ser estritamente privado. para se tornar uma responsabilidade social compartilhada entre Estado, mercado de trabalho e comunidade como sugere o respeitado demógrafo social José Eustáquio Diniz.
Meus candidatos serão compromissados com o ensino público, com investimento em pesquisa e ciência, que abracem sistemas que privilegiem e facilitem a entrada ao ensino superior dos menos privilegiados – pois temos dívidas históricas a reparar.
Deverão ser também candidatos que percebam que estamos treinando profissionais para o século XX – por exemplo, médicos que aprendem muito sobre saúde infantil e mulheres gestantes, mas pouco se preparam para atender a uma população cada mais envelhecida. Reformas de currículo (não só do setor saúde) serão essenciais e dependem tanto do Executivo como do Legislativo.
Saúde e Aprendizagem ao longo da vida para assegurar o terceiro componente que estará em meu radar para escolha de meus candidatos: Direito à Participação plena na Sociedade. E aqui me refiro a candidatos sem distinção de cor, raça, etnicidade, gênero, orientação sexual. E de idade.
O tabu do idadismo
Idadismo é o último grande tabu. Muito tem sido discutido sobre as outras formas de discriminação e preconceito – tardiamente, admito. Nosso País está, infelizmente, alicerçado neles. Mas por cima de ‘ismos” estruturais, como o sexismo e o racismo, vemos agora a sinistra emergência do idadismo. Todos têm em comum uma ideologia supremacista. Um grupo que se acha valendo mais que outro. “Eu sou homem, você, mulher. Eu sou cis-hétero, você gay, lésbica ou trans; eu não tenho deficiências físicas, você as tem. Eu sou jovem, você um velho”. É o primeiro ‘i’.
O segundo, já que esse grupo supremacista em geral tem poder, é a institucionalização, colocando pedras e cascas de banana para sua vítima tropeçar, escorregar: “não vou te promover, porque você é mulher; não lhe darei um emprego porque já julguei que, com sua deficiência, você não poderá ser produtivo; pessoas negras, pretas ou pardas, não merecem confiança. Você é um velho, ponha-se em seu lugar, desapareça, o mundo é para os jovens”.
O terceiro ‘i’ expressa o âmbito interpessoal: “você não tem o que contribuir, não quero ouvir sua voz, sua opinião não importa”. E tudo culmina no último “i’, o da internalização: você acaba por acreditar que realmente vale menos que os outros. “Sou um velho, não é justo tirar o lugar dos mais jovens, gastar recursos com tratamentos, ter direito a um seguro, a educação, ao trabalho...colocar-se no seu canto quietinho, sem incomodar”.
Os partidos e candidatos que escolherei serão os que demonstrarem um entendimento inequívoco que todas as formas de discriminação e preconceito são empecilhos à plena cidadania."
E que demonstrem também a entendimento sobre a interseccionalidade, um preconceito potencializando o outro, torna a vida dos cidadãos em um martírio: a pessoa idosa que além do mais é negra, pobre, que vive na periferia, que tem um baixo nível de escolaridade, mulher, de orientação sexual não binária...
Meu candidato e seu partido serão capazes de perceber a importância do Brasil ser signatário da Convenção Interamericana de Direitos das Pessoas Idosas, a espera de ratificação pelo Brasil por descaso da Câmara de Deputados desde 2015. Lamentável, de protagonistas no processo passamos a ser vistos como um país descompromissado.
Parafraseando a ativista norte americana Angela Davis no que toca a racismo, espero de um candidato não apenas não ser idadista: é preciso ser antidadista.
Saúde, Aprendizagem ao Longo da Vida, Participação. Falta ainda cobrar de meu candidato um compromisso sólido de lutar pela inclusão, pela Proteção, pela segurança de poder bem envelhecer. De um teto seguro sobre a cabeça, comida na prateleira, renda mínima assegurada, proteção de ir e voltar a sua casa sem se tornar vítima da violência tantas vezes cometida por aqueles que deveriam nos estar protegendo.
A cada dia 18 mortes são cometidas pela polícia no Brasil, mais de 6.600 por ano. A cada 6 minutos uma mulher é estuprada – a imensa maioria jovens, antes de completar 15 anos, por algum membro da família ou por um homem que dela ‘merece’ confiança.
Que possibilidade tem os sobreviventes de bem envelhecer. E o impacto é muito maior: mães e pais, avós, familiares, amigos próximos, todos são afetados para o resto da vida. Meus candidatos demonstraram ter essa sensibilidade social.
Nós, os 70+, majoritariamente, temos um passado de ativismo coletivo, consciência política requintada passamos por poucas e boas. E vamos votar em massa, assim decidindo os resultados das próximas eleições."
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