Quedas entre idosos já matam mais que homicídios em algumas regiões do País
Valter Campanato/Agência Brasil
São Paulo - Com o aumento da expectativa de vida no Brasil – que atingiu o contingente de 36 milhões de idosos em 2026, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, um incidente tem se tornado uma das principais causas externas de mortalidade entre pessoas com mais de 60 anos: as quedas.
Segundo dados divulgados recentemente pelo Atlas da Violência 2026, enquanto a taxa de homicídios dessa população diminuiu 39,2% na última década, as mortes por esse tipo de acidente dispararam.
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Ao analisar o período de 2014 a 2024, as informações coletadas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostram que as mortes por quedas – calculadas a partir da taxa de óbitos a cada 100 mil idosos – cresceram na seguinte proporção:
- Homens negros: aumento de 36,5%;
- Homens não negros: aumento de 23,4%;
- Mulheres negras: aumento de 30%;
- Mulheres não negras: aumento de 25,4%.
O levantamento também evidencia que, para cada assassinato de uma mulher não negra no País, outras 41 morrem vítimas de quedas.
Desde o ano 2000, os falecimentos decorrentes de tropeços e escorregões aumentaram 345% entre os homens e 630% entre as mulheres, enquanto os assassinatos diminuíram 6,6% e 2,8%, respectivamente.
Segundo projeções do Ipea, dentro dos próximos 15 anos, os óbitos por quedas vão superar o número total de homicídios no Brasil.
Os pesquisadores destacam ainda que, enquanto a maior parte dos crimes letais afeta a juventude e a vida adulta, a vasta proporção das mortes por quedas ocorre, de fato, na velhice.
No Sul e Sudeste, regiões com a maior concentração de idosos, os acidentes desse tipo já superam os homicídios como causa de morte. Contudo, no Norte e no Nordeste, onde a transição demográfica tem sido mais lenta, observam-se as maiores taxas de assassinato e os menores índices de óbito por queda.
O cenário urbano hostil
Nos grandes centros urbanos, o simples ato de caminhar pode ser um risco à vida. A líder do grupo de estudos Prevquedas Brasil e fisioterapeuta, referência em gerontologia no País, Mônica Rodrigues Perracini aponta que o ambiente urbano atual virou 'terra de ninguém'.
As nossas calçadas, principalmente as vias públicas de deslocamento das pessoas a pé, estão em muito mau estado de forma geral, em todos os municípios brasileiros."
A especialista em gerontologia e ex-gestora pública Sandra Regina Gomes, fundadora e diretora da Longevida Consultoria, corrobora o diagnóstico de que as cidades são hostis aos mais velhos. "A urbanização está muito complicada. O transporte coletivo também não é seguro do ponto de vista desse público ao descer e subir, e os semáforos não têm tempo suficiente para a travessia", explica.
Ela relata que muitos indivíduos com quadros neurológicos, como a doença de Parkinson, chegam a paralisar no meio da rua por conta da curta duração dos sinais de trânsito.
Para a ex-gestora do Disque 100 da pessoa idosa, a falha em garantir o direito de ir e vir sem risco de acidentes vai além da má administração pública.
A ausência de infraestrutura preventiva deve ser encarada com a máxima gravidade. As pessoas não consideram esse despreparo como uma violência. É uma violência."
A insegurança urbana gera uma consequência psicológica devastadora: o medo de cair. "Se a pessoa não se sente segura para sair de casa, obviamente vai restringindo cada vez mais as suas atividades e se tornando refém do próprio lar", alerta Mônica Perracini.
A pesquisadora adverte que o isolamento leva à depressão e à fragilização muscular, o que, paradoxalmente, aumenta ainda mais o risco de novos tombos no futuro.
O perigo dentro de casa
A despeito dos desafios nas ruas e na roça, é no ambiente doméstico que mora o maior perigo: 70% das quedas ocorrem nas residências, o que vitima não apenas os mais frágeis, mas também os ativos, de acordo com o Atlas.
Sandra Gomes destaca que banheiros e cozinhas são os locais de maior risco, porém há uma forte resistência cultural em adaptar os lares. "Eu pergunto: 'Quem tem barra de apoio no banheiro?' De 50 pessoas, duas têm. O próprio idoso vai falar: 'Ah, isso daqui não vou colocar, está parecendo hospital'", narra a especialista.
Além da falta de barras, a presença de tapetes soltos, fios espalhados e até animais de estimação que surgem de repente são grandes causadores de acidentes domésticos.
Cidades Amigas da Pessoa Idosa
O enfrentamento desse cenário exige que as gestões públicas adotem o conceito da Organização Mundial da Saúde (OMS) de Cidades e Comunidades Amigas da Pessoa Idosa.
Isso significa planejar o espaço urbano não apenas para os carros, mas para os pedestres, garantindo calçadas niveladas e antiderrapantes, transporte coletivo acessível, iluminação adequada e semáforos com tempo de travessia estendido.
Mais do que obras, é preciso letramento gerontológico e vontade política. Como aponta Mônica Perracini, a mudança tem que envolver todos os setores da sociedade.
Envelhecer não é um problema individual, o envelhecimento é um problema coletivo. Se não assumirmos isso como uma responsabilidade de todos nós também, significa que, quando ficarmos mais velhos, não vamos envelhecer bem".
Se nos centros urbanos o sedentarismo e o medo isolam os mais velhos, na região Norte o cenário ganha outros contornos. O fisioterapeuta Adriano Carvalho, pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), estuda a velhice em comunidades rurais e ribeirinhas do Estado. Segundo dados preliminares de seu levantamento, 29,2% dos idosos relatam sofrer quedas, uma taxa abaixo da média nacional. Em Coari (AM), esse número cai para 21,7%. Apesar da baixa incidência, 65,8% relatam medo constante de cair.
Embora o perfil do idoso rural no Norte do País seja distinto das áreas urbanas do Sul e Sudeste – e cerca de 75% deles relatem viver com dores crônicas, principalmente nos joelhos e coluna, fruto de uma vida inteira de trabalho pesado na roça –, eles mantêm alta autonomia. "É surpreendente ver pessoas com mais de 100 anos que ainda continuam fazendo suas atividades: descem barranco, vão buscar água, lavar louça, cuidar do peixe", conta.
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