Do fundo do poço para o mundo: Coroa Mochileira vence depressão na estrada
Arquivo pessoal
São Paulo - Aos 51 anos, após décadas de trabalho na indústria, Márcia Reis se aposentou. Pouco tempo depois, quando ela tinha 55, a filha mais nova também saiu de casa para cursar a faculdade em outra cidade. A rotina, até então marcada por horários rígidos, cuidados com a casa e atenção constante à família deu lugar a um silêncio inesperado.
O alívio inicial de não ter obrigações diárias transformou-se, gradualmente, em uma perda de identidade. Em pouco tempo, as crises de ansiedade tornaram-se frequentes, resultando em idas ao hospital com sintomas que simulavam infartos.
No começo eu fiquei feliz porque não tinha mais aquele compromisso de cuidar de outra pessoa, não tinha mais nada. No primeiro ano foi muito bem, mas no segundo ano eu comecei a entrar em depressão.”
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Foi então que deu uma virada, por sugestão da pastora da igreja que a grande amiga frequentava e quem a arrastou para lá, na tentativa de ajudá-la. Durante o diálogo com a pastora, que já havia perguntado várias coisas sobre a sua vida, Márcia foi questionada sobre o que realmente gostaria de fazer.
A primeira resposta foi que queria sumir, mas, após a insistência da religiosa, a resposta definitiva surgiu sem hesitação: viajar sem data para voltar. Ao constatar que Márcia não tinha dependentes, animais de estimação ou compromissos que a prendessem, a pastora a confrontou com a pergunta determinante: "por que não ir?".
Desde o início de sua jornada, no final de 2018, Márcia, hoje com 63 anos, já percorreu 21 Estados brasileiros e esteve em 34 países, cobrindo destinos na América do Sul, Europa e Ásia. Suas viagens são realizadas de forma econômica, autônoma e solo.
Eu só compro passagem de ida e reservo duas ou três noites no hostel e, daí para frente, vou decidindo."
As experiências acumuladas ao longo dos anos de estrada foram reunidas no e-book Sua Jornada Solo, no qual Márcia detalha a logística de planejamento, montagem de bagagem e escolha de hospedagens para quem deseja viajar de forma independente. Além do livro, Márcia criou o perfil no Instagram @coroamochileira, onde compartilha suas aventuras pelo mundo.
A trajetória que começou como um enfrentamento ao isolamento resultou na construção de um estilo de vida focado na autonomia.
A descoberta do 'mochilão'
Aquela pergunta da pastora ficou martelando em sua mente, e ela depois entrou em uma agência grande de viagens. Ao solicitar um orçamento para passar um mês no litoral, Márcia recebeu como proposta um pacote de apenas dez dias, cujo valor ultrapassava de longe o seu orçamento. “Eu saí mais deprimida da agência e falei: ‘Meu Deus, agora, além de depressão, ainda descobri que sou pobre. Voltei para casa arrasada, mas pensei: caramba, deve ter um jeito’”, conta.
A frustração com os custos do turismo convencional a fez buscar na internet formas de viajar com recursos reduzidos. Márcia começou a fazer pesquisas no Google, de como viajar barato ou com pouco dinheiro. “Sempre vinham mochileiros, mas tudo garotada. Comecei a entrar em grupos de Facebook de viagens e de mochilas, entrava em tudo sobre o assunto. Um dia eu vi uma mochileira mais velha do que eu. Ela vendeu tudo e foi viajar."
Com o contato da mochileira em mãos, ela enviou uma mensagem e uma solicitação de amizade. Enquanto aguardava o retorno, outra amiga do Facebook a convidou para fazer um 'detox' em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. "Eu não perguntei o que era, não estava nem aí, só falei: ‘Eu vou’."
Além de se hospedar em um hostel, arrumou uma carona no aplicativo BlaBlaCar. Ela conta que sua filha mais velha ficou brava ao saber que a mãe usaria o aplicativo de carona, por medo de que ela fosse sequestrada, assassinada ou até tivesse seus órgãos roubados. Deu tudo certo, e ela chegou ao local, onde conheceu uma viajante argentina, que carregava uma mochila cargueira.
Ela botou a mochila nas minhas costas, ajustou as alças e eu pensei: ‘Cara, isso é bom demais, eu quero esse negócio. Isso me deixa com as mãos livres’. Ali comecei a procura pela minha mochila.”
Como viajar gastando pouco
A recomendação de Márcia é iniciar o processo respeitando os próprios limites, adaptando o roteiro aos recursos disponíveis e evitando que o receio inicial impeça a tomada de decisão. A metodologia adotada para viabilizar viagens longas baseia-se no controle de custos e no uso de infraestrutura compartilhada:
Atitude financeira diária: Transforme economias cotidianas em moeda forte (euro/dólar), preferindo hábitos simples, como tomar café em casa, para direcionar o dinheiro poupado à próxima viagem.
Autoconhecimento: Defina seu próprio estilo de viagem (praia, montanha, cidade grande ou pequena) para evitar frustrações com escolhas inadequadas.
Adequação de orçamento: Adapte o roteiro e o destino ao dinheiro disponível, em vez de planejar viagens inviáveis para a sua realidade financeira.
Hospedagem em hostels: Priorize estabelecimentos bem localizados, com avaliações positivas de limpeza e segurança. Quarto compartilhado e uso de armários com cadeado próprio são práticas padrão. Cheque no mapa a proximidade de transporte público, mercados e atrações para fazer tudo a pé ou de metrô/ônibus.
Bagagem reduzida: A bagagem é limitada a uma mochila principal de 40 litros e uma pequena mochila de apoio. As roupas são selecionadas pelo peso e pela facilidade de lavagem e secagem rápida.
Refeições simples: A alimentação é resolvida com compras em supermercados locais ou refeições simples. Evite restaurantes caros. Compre marmitas e lanches em supermercados para comer durante os passeios.
Aplicativos de tradução: Para quem acha que o idioma é uma barreira, Márcia desmistifica, indicando aplicativos de tradução e até mímica.
Deslocamento a pé: Os deslocamentos urbanos são feitos preferencialmente a pé ou por meio de transporte coletivo. Priorize caminhar em trajetos curtos e médios (até 5 km) para economizar no transporte e conhecer a cidade fora da rota turística tradicional.
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