Atriz Silvia Pfeifer debate etarismo em peça: 'acho bonito o envelhecer'
Divulgação/Nil Caniné
São Paulo - Mais de 35 anos separam o primeiro papel de Silvia Pfeifer em uma novela – como a protagonista Isadora Venturini em “Meu Bem, Meu Mal” –, de seu atual trabalho nos palcos. Ela é uma das estrelas da peça “Uma Vida de Amizade”, em cartaz até 30 de agosto, no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro, após temporada de sucesso em Portugal.
De lá para cá, a beleza e a sofisticação da atriz permaneceram as mesmas; o talento se consolidou; mas a maturidade de hoje transformou a pressa da juventude em calmaria. Aos 68 anos, a atriz gaúcha incorporou no seu dia a dia uma antiga sabedoria da avó: “Vida boa é vida sem urgência.”
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Quando se é jovem, e antes também, é muita ânsia, muita juventude, muito querer viver. A gente não pensa, não para. Então, quando chega um pouquinho mais lá na frente, onde a gente tem que estar mais madura, aí a gente começa a ver para onde que tem que olhar e em que velocidade tem que andar."
Esse tema, de certa forma, passa pelo texto de "Uma Vida de Amizade", assinado por Gustavo Pinheiro. Na história, três mulheres 50+, interpretadas por Silvia, Adriana Garambone e Helena Fernandes, são amigas desde a juventude, nos anos 1990, quando trabalhavam como modelos em Paris, e dividiam sonhos, dificuldades, e um quarto e sala. São três personagens ativas, desejadas, complexas, e muito diferentes entre si.
Elas fizeram um pacto: se encontrarem sempre uma vez por ano. Nessas ocasiões, elas inevitavelmente fazem uma revisão bem-humorada de suas próprias vidas, em meio a conversas sobre realizações, família, afeto, etarismo e envelhecimento.
Ao VIVA, Silvia Pfeifer, que fez sucesso em novelas como "O Rei do Gado" e "Perigosas Peruas", fala como sua personagem no novo espetáculo reflete suas próprias questões, como a autoimagem e o envelhecimento.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
VIVA: Em "Uma Vida de Amizade", três amigas se encontram todo ano e repassam suas vidas. Quais são as principais questões que tratam?
Silvia Pfeifer: A gente levanta questões que nós, as atrizes, Silvia, Helena, Garamboni, achamos importante. As mulheres se empoderaram de um tempo para cá, mas é preciso ainda falar e dividir questões. Maternidade, profissão, amores, afetos, etarismo, dificuldade do próprio envelhecimento, de se aceitar mais velha. E a gente acha importante falar sobre isso, e de uma maneira muito feliz, bem-humorada, bem inteligente, rápida.
Como sua personagem, Gilda, lida com essas questões?
A Gilda reconhece o etarismo na sociedade, mas ela lida bem com o envelhecimento. Então, não é uma coisa que atrapalha, até porque ela tem uma outra realização: é dona de um buffet. É uma pessoa bastante calma, conciliadora, realmente amiga. Está muito bem resolvida até que, em um determinado momento da peça, você descobre que ela não é tão resolvida em uma questão muito importante da vida dela. Acho que isso vem para mostrar que nós não somos uma coisa só na vida.
E como a Silvia Pfeifer lida?
Lido dentro do meu universo. Vim do universo das modelos e me tornei atriz. Então, venho de um mundo e estou em um mundo que se cobra muito: o visual, o frescor, a beleza, a juventude. Posso te dizer que é uma questão diária, mas eu, Silvia, lido de uma maneira bem equilibrada.
Não me cobro tanto, não me preocupo tanto. Acho bonito o envelhecer.
Venho de uma família que demorou muito para aparentar a idade. A minha mãe tem 93 anos. Você não dá 93 anos para ela. É uma pessoa ativa mentalmente, se mexe muito bem, tem uma autonomia ótima ainda. E, pelo fato de eu ter traçado uma vida saudável – fui bailarina quando era garota, depois, na adolescência, fui jogadora – estou, de alguma forma, colhendo os frutos agora.
No caso da mulher, a cobrança é maior do que o homem. E você tem ainda uma carreira pública. Sente essa cobrança dupla?
Acho que a vida digital, as mídias sociais aceleraram isso de uma forma incrível. A grande questão nossa – digo de todo mundo – é não se fixar em estereótipos, em modelos de vida ou físico, que não são os nossos.”
Não posso querer ter um físico que não é o meu, ou pela idade ou pela estrutura. Cada um tem a sua estrutura. Claro que a gente sempre pode melhorar, pode chegar a uma forma física. Mas sem exagero, acho que essa é a grande questão, porque, como a gente é inundado com imagens, a gente perde esse equilíbrio.
Às vezes, me olho no espelho, não me vejo com a idade que eu tenho, mas tem horas que eu vejo e penso: 'estou mais velha, estou mais assim do que há um ano, do que há seis meses'. E procuro trabalhar isso. Tem muita gente que nega, eu nunca neguei. Sempre fiz intervenções muito pequenas, de Botox ou de preenchimentos. Acho que é esse meio termo, é a gente estar bem.
Você comentou no seu Instagram sobre uma frase que a sua avó dizia: 'vida boa é vida sem urgência'. É uma sabedoria que só a idade traz?
A urgência vem de um estado jovem – jovem no sentido de juventude, não estou falando de estética. De muita ânsia, de muitas descobertas, a gente vive muitas coisas. Por exemplo, na fase dos 20 aos 40 anos, para a maioria das pessoas acontecem coisas incríveis na vida. A gente entra numa faculdade, se forma, começa uma profissão. Na maioria das vezes, é quando as pessoas se casam – hoje em dia, não tanto, estão se dando a oportunidade de se casar mais à frente, ter filhos mais à frente.
Então, quando chega um pouquinho mais lá na frente, onde a gente tem que parar, tem que estar mais madura. Acho que aí a gente começa a ver para onde que tem que olhar e em que velocidade tem que andar.
Quais outros ensinamentos da sua avó fazem sentido para você hoje?
A minha avó foi uma pessoa que soube viver muito dentro da realidade dela. Ela foi uma mulher muito forte, ela perdeu uma filha quando tinha 8 anos de idade. O meu avô era médico e não conseguiu salvar a filha. Foi um momento de muita dor. Acho que ela e o meu avô souberam realmente unir forças e levar a vida familiar de uma maneira muito unida, muito forte. Foi um momento que realmente poderiam ter se desestruturado.
E a minha mãe soube trazer muito bem os ensinamentos dos pais dela, dos meus avós, para nós: toda essa força do que é a família, do que é afeto, do que que é carinho, o que é ética na vida.
Na TV, quais personagens que as pessoas se lembram até hoje?
Hoje fui para fazer ginástica e um rapaz olhou para mim e disse: 'te conheço de algum lugar'. Aí falei: 'Acho que sim, sou atriz, você deve me conhecer'. Aí ele perguntou: do 'Rei do Gado'? Que curioso como realmente as pessoas lembram dessa novela. Mas também de 'Meu Bem, Meu Mal', que foi a primeira novela que eu fiz, alguns de 'Tropicaliente', alguns de 'Torre de Babel'.
Quando me perguntam qual personagem eu mais gostei, é muito difícil e cruel para o ator, porque a gente gosta de todas. É raro não gostar. Mas a felicidade maior é o reconhecimento. Acho isso que é a coisa mais importante.
O que mais importa é a repercussão de um determinado personagem, porque é para o público que a gente faz. Isso é a vida do ator.
Serviço:
- “Uma Vida de Amizade”
- Local: Teatro Fashion Mall - Shopping Fashion Mall
- Endereço: Estrada da Gávea, 899, lj. 216, São Conrado, Rio
- Temporada: Até 30 de agosto; em julho: sextas, às 21h; sábados, às 17h; domingos, às 19h30; em agosto: sextas e sábados, às 20h30; e domingos, às 19h30
- Ingressos: R$ 120 e R$ 60 (meia)
- Bilheteria: de 3ª a dom., das 14h às 20h
- Vendas on-line: Sympla
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