Cineasta dos casos 'Eloá' e 'Nardoni' indica produções para ver neste mês
Arquivo pessoal
São Paulo - A cineasta e psicanalista Cris Ghattas selecionou cinco filmes para o público do Portal VIVA assistir em março, considerado o mês da mulher. A curadoria reúne histórias que abordam julgamento social, violência, trauma, envelhecimento e maternidade a partir de diferentes perspectivas femininas.
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Com mais de 25 anos de experiência em cinema, televisão e streaming, Ghattas atuou em projetos para plataformas como Netflix e Globoplay.
Entre seus trabalhos recentes estão Isabella: O Caso Nardoni, como diretora associada, e Caso Eloá: Refém ao Vivo, como diretora geral.
A profissional também atua no desenvolvimento criativo de projetos narrativos. Sua formação inclui Comunicação Social na PUC-SP com pós-graduação em Jornalismo Literário, além de formação em psicanálise e graduação em psicologia em andamento.
Segundo a cineasta, a combinação desses campos aprofunda sua abordagem na construção de personagens e na análise de complexidades humanas. Recentemente, participou do Netflix Directing Workshop Brazil, voltado à direção de ficção.
Veja os filmes indicados por Cris Ghattas:
Anatomia de uma Queda (2023)
O suspense dramático francês, dirigido por Justine Triet, acompanha a história de Sandra, uma escritora alemã que passa a ser a principal suspeita na morte do marido, Samuel. Ele é encontrado sem vida na neve, o que levanta dúvidas sobre se o caso se trata de suicídio ou assassinato. O único possível testemunho vem de seu filho com deficiência visual.
“O que me interessa aqui é a forma como o filme tensiona o olhar social dirigido a mulheres bem-sucedidas. A protagonista não enfrenta apenas a perda e o luto, mas também a projeção de uma culpa que parece anteceder qualquer evidência. Há algo instigante na maneira como a narrativa sugere que o sucesso feminino pode desestabilizar dinâmicas íntimas, despertando ressentimentos e rivalidades, dentro da própria relação amorosa”, comenta a cineasta.
System Crasher (2019)
No longa é retratado a história de Benni, personagem vivida por Helena Zengel. Aos nove anos, ela apresenta um comportamento agressivo e difícil de controlar, reflexo de traumas vividos na infância. A direção é de Nora Fingscheidt.
“O que este filme traz de mais potente é a maneira como expõe um tema ainda pouco elaborado socialmente: a dificuldade de lidar com a agressividade em meninas. Essa agressividade não surge como um traço isolado, mas como expressão de um sofrimento psíquico profundo, atravessado por experiências de abandono, negligência e falhas nos vínculos primários", observa Cris.
"O filme também evidencia os limites das instituições diante de subjetividades que escapam à norma, revelando como a resposta recorrente é a exclusão”, complementa.
Nyad (2023)
Dirigido por Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin, o longa Nyad, disponível na Netflix, acompanha a história real de Diana Nyad, interpretada por Annette Bening, que aos 63 anos tenta atravessar cerca de 160 km entre Cuba e Flórida sem proteção contra tubarões, com o apoio de sua treinadora Bonnie, vivida por Jodie Foster, em uma narrativa que aborda envelhecimento e superação.
“Em Nyad, o que se destaca é uma narrativa atravessada, de maneira sutil, por questões ligadas ao etarismo. O filme também constrói um retrato sensível sobre a resiliência e a força dos vínculos femininos. Nyad se recusa a se submeter aos limites socialmente atribuídos às mulheres mais velhas, transformando o desafio esportivo numa forma de elaborar traumas e afirmar a própria potência”, comenta Ghattas.
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A Melhor Mãe do Mundo (2025)
O filme A Melhor Mãe do Mundo, dirigido por Anna Muylaert, acompanha Gal, uma catadora de recicláveis que decide fugir de um relacionamento abusivo e da violência doméstica, atravessando a cidade de São Paulo com os filhos em busca de proteção, recomeço e uma vida mais segura.
“O que mais me impressiona neste filme da Anna é a forma poética como se tratou de um tema tão triste e alarmante como a violência doméstica contra as mulheres no Brasil. Essa mãe transforma uma fuga perigosa numa espécie de aventura, para proteger emocionalmente os filhos. Há, neste gesto, algo profundamente complexo, que revela a coragem e a delicadeza de uma mãe no enfrentamento da violência: não se trata de negar a realidade, mas de mediá-la, criando um espaço psíquico onde ainda seja possível sustentar o afeto e a infância”, observa a cineasta.
Caso Eloá: Refém ao Vivo (2025)
Dirigido por Cris Ghattas, o documentário Caso Eloá: Refém ao Vivo, lançado pela Netflix, revisita o sequestro de Eloá que chocou o Brasil em 2008, reconstituindo mais de 100 horas de cárcere privado e discutindo como relações marcadas por controle e violência podem culminar em feminicídio.
“Para mim, essa história toca num ponto muito importante: o momento em que uma jovem tenta colocar limites diante de uma relação marcada pela posse e pela violência. Eloá pode representar, neste contexto, não apenas a vulnerabilidade, mas também a coragem e o direito de dizer não, enfrentando a complexidade deste movimento de ruptura. O filme também nos convoca a olhar com mais atenção para o papel da sociedade, da mídia e das instituições na proteção da infância e da juventude”, diz Cris.
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