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Ex-Titãs, Paulo Miklos prepara novidade musical: "ainda há muito a explorar"

Lucas Seixas

O Brasil sempre esteve presente na minha obra, às vezes de forma mais explícita, às vezes mais subjetiva, afirma Miklos - Lucas Seixas
O Brasil sempre esteve presente na minha obra, às vezes de forma mais explícita, às vezes mais subjetiva, afirma Miklos
Por Alessandra Taraborelli

29/01/2026 | 13h17

São Paulo, 29/01/2026 - Com 67 anos recém completados (21/01) e mais de quatro décadas de carreira, o multiartista Paulo Miklos, que passou boa parte da sua carreira no Titãs (de 1982 a 2016), quando saiu para se dedicar a projetos pessoais e à carreira de ator, afirma que está em um momento de síntese, onde consegue olhar para tudo o que fez com mais generosidade e menos ansiedade. Hoje, ele se interessa cada vez mais por projetos que dialoguem com o tempo em que está vivendo e que tragam algum tipo de reflexão, sem perder a emoção.

“Há menos urgência e mais escuta, mais disponibilidade para absorver o que me alimenta artisticamente. A maturidade traz isso: a liberdade de criar sem precisar provar nada, mas ainda com muita curiosidade. A arte, para mim, continua sendo uma forma de entender o mundo — e de me entender dentro dele”

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Paulo Miklos de roupa preta
Um dos principais aprendizados do período em que esteve no Titãs foi o espírito coletivo - Foto: Paulo Grottto

Sua primeira experiência como ator ocorreu em 2001, quando já estava consolidado com o Titãs e recebeu o convite para atuar no filme “O Invasor”, onde interpretou um vilão. Foi um caminho sem volta. Ele afirma que atuar o colocou em outro lugar de aprendizado e autoconhecimento. “Foi um mergulho muito honesto. O teatro e o audiovisual exigem uma entrega diferente da música, embora possam ser complementares. Aprendi de forma muito intuitiva a encarar esse momento como um exercício de expansão, nunca como um desvio de rota”, afirma.

Miklos revela que entre os aprendizados do período em que esteve no Titãs estão o espírito coletivo, a disciplina e a coragem de experimentar. Ela conta que aprendeu que a arte precisa de risco para continuar viva.

“Os Titãs são parte de mim até hoje, uma parte que ainda crê na arte como uma força transformadora com muita potência social, e que vai além de questões teóricas, ela modifica pessoas e cenários na prática, no dia a dia de uma sociedade.”

Veja abaixo trechos da entrevista:

Viva: Os Titãs se consolidaram como um verdadeiro 'dream team'. Como lidar com esta diversidade e conquistar seu espaço único?

Paulo Miklos: Os Titãs nasceram da diversidade. Cada um tinha uma voz muito própria, referências distintas, desejos diferentes. Claro que, como em qualquer coletivo criativo, existia uma coisa que eu gosto de brincar de fricção criativa. A concorrência nunca foi um motor principal. O que nos movia era a soma, a possibilidade de um provocar o outro artisticamente. Aprendi muito cedo que meu espaço se construía justamente por aquilo que eu trazia de singular, não pela comparação.

Há algum projeto recente ou em andamento que represente uma nova fase ou um reencontro com algo essencial da sua carreira?

Sim. Sempre que volto à música autoral sinto que reencontro um núcleo muito essencial de quem eu sou. Ao mesmo tempo, busco formatos novos, colaborações, outras formas de apresentar essas canções. É um reencontro, mas nunca uma repetição.

Como você avalia sua relação atual com a música autoral e os palcos?

É uma relação muito mais consciente e prazerosa. Subir ao palco hoje é um ato de presença total. Não é mais sobre quantidade, é sobre qualidade. Cada show é um encontro real com o público.

O que ainda te instiga a criar depois de tantas décadas de estrada?

A vida. Enquanto eu estiver curioso, enquanto algo me atravessar — uma conversa, um momento, uma sensação — a criação vai acontecer. Criar é minha forma de estar no mundo.

A experiência como ator mudou sua forma de compor ou de se apresentar como músico?

Sem dúvida. A atuação ampliou meu olhar narrativo e trouxe um novo significado para as histórias que estou contando, no corpo, no silêncio, no subtexto. Isso tudo atravessa a música.

Como você escolhe os projetos: mais pela afinidade artística ou pelo desafio?

Os dois caminham juntos. Preciso sentir afinidade, mas também algum tipo de desafio para me instigar. Se não houver um friozinho na barriga, eu desconfio.

Existe algum personagem, disco ou show que você considera um ponto de virada na sua trajetória?

Os Titãs como um todo foram um grande ponto de virada, mas minha saída da banda também foi. Foi um gesto de coragem e de entender o que se passava dentro de mim. Na atuação, alguns personagens me levaram para lugares que eu não conhecia em mim.

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Como você enxerga o espaço para artistas com carreira longa no cenário cultural brasileiro atual?

Vejo que é um espaço não só muito importante, mas extremamente necessário. Vivemos num tempo muito acelerado, e artistas com trajetória longa carregam uma perspectiva do tempo que é rara. A experiência não é um peso, é um repertório.

Paulo MIklos, ex-Titãs
Ainda há muito a explorar. Talvez dirigir, talvez escrever mais - Foto: Lucas Seixas

O público pode esperar novos lançamentos musicais ou turnês nos próximos meses?

Sim, há novidades em gestação. Prefiro deixar que as coisas amadureçam, mas a música continua sendo um território ativo para mim.

Há parcerias que você ainda sonha em realizar?

Sempre. A parceria é uma forma de diálogo, de troca. Gosto muito de cruzar gerações, de ouvir o novo sem perder minha identidade. Assim como o resgate de memórias e as homenagens a artistas e obras que ajudaram a contar a nossa história cultural.

De que forma o Brasil de hoje atravessa suas criações?

O Brasil sempre esteve presente na minha obra, às vezes de forma mais explícita, às vezes mais subjetiva. É um país intenso, contraditório, bonito e duro, impossível não ser impactado e profundamente modificado por isso.

O que você ainda não fez artisticamente e gostaria de fazer?

Ainda há muito a explorar. Talvez dirigir, talvez escrever mais. Não coloco limites muito rígidos, gosto de deixar o desejo, a intuição e as oportunidades apontarem o caminho.

Que tipo de legado você acredita estar construindo com o seu trabalho?

Espero que seja um legado de liberdade, e mais do que isso: de ser livre através do viés da arte. De alguém que não teve medo de mudar, de tentar, de se reinventar. Se isso inspirar outras pessoas, já fico muito feliz.

Como é a sua relação com a cidade de SP?

São Paulo é parte da minha formação emocional e artística. É uma cidade viva, pulsante e profundamente criativa. São Paulo respira de um jeito único, intenso, por isso é tão inspiradora. Minha relação com ela é de amor crítico, como toda relação verdadeira.

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