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Falabella critica 'tribunal da internet' e diz que a TV tem medo de ousar

Nadja Kouchi/Acervo TV Cultura

O ator e escritor Miguel Falabella, durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura - Nadja Kouchi/Acervo TV Cultura
O ator e escritor Miguel Falabella, durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura
Por Alexandre Barreto

16/06/2026 | 09h24

São Paulo - Após mais de duas décadas fora das novelas, o ator e escritor Miguel Falabella, 69, comentou sobre mudanças na televisão brasileira nesse período. Durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, exibida nesta segunda-feira, 15, o dramaturgo afirmou que a TV atual está cada vez mais condicionada às reações das redes sociais, o que, segundo ele, impacta diretamente a produção de humor.

Falabella disse que a televisão passou a conviver com o que chamou de "tribunal da internet", onde personagens e situações ficcionais frequentemente são julgados fora de contexto.

A televisão de hoje fica muito refém da internet, dessa cultura opinativa e do tribunal das redes sociais. Tudo vira um problema. Imagina o Caco Antibes falando que tem 'horror a pobre' nos dias de hoje. Seria uma grande confusão. Mas as pessoas entendiam que aquilo era uma crítica, que ele era um personagem alucinado. E o Brasil continua cheio de Cacos Antibes".

Ao comentar sobre o cenário atual das novelas, o dramaturgo afirmou que o receio de gerar polêmicas pode limitar a criatividade e afastar parte do público. "Não sei se há mais espaço. A televisão tem muito medo de desagradar. E esse medo acaba afastando as pessoas. Hoje ouvimos muito que não há mais humor na TV e realmente quase não temos programas de humor como antes", disse.

O dramaturgo citou exemplos de situações que, na avaliação dele, seriam recebidas de forma diferente atualmente. Entre elas, o famoso bordão "Cala a boca, Magda", popularizado no programa humorístico Sai de Baixo. Segundo o artista, a personagem interpretada por Marisa Orth conquistou o público pela forma como era construída em cena, o que ajudava a criar uma dinâmica cômica aceita pelos espectadores da época.

Para ele, na época o público compreendia que o personagem representava uma crítica social. "Ele era um homem desprezível, misógino e cheio de defeitos. Mas existia um carisma na maneira como era interpretado. Era aquele tipo de vilão que o público gostava de odiar", afirmou.

Despedida gradual da atuação

Miguel Falabella revelou que pretende voltar a investir em projetos de comédia para a televisão, especialmente no horário das sete, faixa em que construiu parte de sua trajetória como autor. Ele afirmou que deseja priorizar a escrita nos próximos anos e indicou que sua carreira como ator está entrando em uma fase de desaceleração.

Quero voltar a escrever comédia e criar personagens. Atuar está ficando mais custoso para mim. Continuo fazendo com prazer, mas hoje quero priorizar a escrita.

A última participação de Falabella em novelas foi em “Três Graças”, novela das nove, marcando seu retorno às tramas após 22 anos longe das telas. Durante a entrevista, ele também confirmou projetos no teatro e no cinema, incluindo um filme produzido em Portugal ao lado de Marisa Orth.

Fake news sobre HIV e posição política

Em outro momento da entrevista, o artista relembrou uma das situações mais delicadas de sua carreira. Falabella contou que foi vítima de fake news envolvendo sua saúde durante os anos 1990, quando circularam notícias afirmando que ele teria HIV.

Foi uma época muito difícil. Chegaram a publicar que eu tinha morrido. Entrei em uma loja e vi as pessoas se afastando. Havia muito preconceito e muita desinformação.

O ator afirmou que a experiência mostrou como a crueldade pode estar presente na sociedade, mas destacou que aprendeu a seguir em frente sem se deixar definir pelos ataques.

Questionado sobre política, Falabella também comentou a frase de Paulo Freire que mantém em seu perfil nas redes sociais: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". Ele afirmou que sempre teve posicionamento alinhado à esquerda e que nunca escondeu suas convicções. "Sempre serei um homem de esquerda. Sou filho de uma professora e acredito profundamente nessa frase do Paulo Freire. Ela continua atual e verdadeira."

Apesar da polarização política nas redes, Falabella disse que não se preocupa com críticas ou perda de seguidores e afirmou permanecer focado em novos projetos.

Eu não sou uma pessoa que tem tantos haters. Lovers, tem muitos. Não dou muita confiança para os haters. Não tenho tempo para isso. Aliás, eu nunca tive muito tempo para isso. Eu sempre fui uma pessoa muito focada no trabalho e continuo assim. Acho que vou assim até o fim", destacou.

Confira a entrevista completa:

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