Nadadora de 70 anos que fez 70 km em 7 dias diz que desafio foi nadar devagar
Divulgação / Pollen Studios
São Paulo, 21/02/2026 - Fabienne Guttin, de 70 anos, diz que seu preparo físico para enfrentar o desafio de percorrer 70 km em mar aberto em 7 dias tem muito a ver com a prática de pesca submarina, que ela exerceu até os 28 anos. "Esse esporte foi o que realmente fez de mim o que eu sou hoje, e me deu todas as bases que eu tenho", diz ela.
O desafio foi a maneira que encontrou para protestar contra o idadismo. A ideia atraiu o publicitário e diretor de Fotografia Lucas Pupo, que embarcou nessa empreitada e resultou no documentário 'Véia Nada', lançado hoje na TV Unesp, no YouTube.
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Veja a seguir trechos da entrevista que o VIVA fez com os dois.
VIVA: Quais foram maiores desafios enfrentados durante todo o processo?
Fabienne Guttin: O grande desafio foi aprender a nadar devagar. Eu sou velocista, eu ganhei e bati muitos recordes no master nos 50 metros livre, 100 livre, 400 livre...bati recorde brasileiro e sul-americano. Para o desafio, eu tive que aprender a nadar devagar e manter o ritmo.
Você teve algum treinamento especial para o desafio?
Eu venho de uma família esportiva. Meu pai foi um dos precursores da pesca submarina aqui no Brasil, e eu pratiquei a pesca submarina até mais ou menos os meus 27, 28 anos. Eu posso dizer, com certeza absoluta, que esse esporte foi o que realmente fez de mim o que eu sou hoje, e me deu todas as bases que eu tenho, valores, princípios, aprendizado sobre mim mesma, sobre a minha capacidade, os meus limites, os meus medos.
Depois da pesca submarina, eu passei a praticar esqui aquático, velejar, remar...isso tudo foi a minha vida. Eu não me vejo de outra forma que não seja atuando no esporte todos os dias. Até porque eu tenho um conceito: se você escova os dentes todos os dias para manter a sua higiene bucal, você tem que fazer um esporte diariamente para manter a sua saúde, porque você é responsável pela sua saúde, você que tem que cuidar dela. Eu parto desse princípio.
Como foi a preparação, foi feita em mar aberto?
Não, foi feita em piscina. Havia dias que meu treinador me dava o treino de 100 x 100 metros, ou seja, eu nadava 100 voltas em 100 metros para atingir 10 km, durante três horas por dia. Também fazia musculação três vezes por semana.
Você teve algum preparo emocional?
Não, eu posso dizer que, justamente por causa da pesca submarina, vivi a bordo de barcos em mar aberto a 40 km do litoral, eu sempre tive esse preparo físico, mental, emocional, psicológico...e você tem sempre que estar atenta. Com o passar dos anos, você aprende a refinar os seus sentidos. Então, você começa a escutar o vento de uma outra forma, a enxergar uma certa luminosidade, porque ela está te passando uma informação. Você sabe ficar sozinho no meio do mar, você entra num estado alfa muito mais facilmente, porque a imersão, a introspecção é enorme.
Quando começou e onde aconteceu o desafio?
Começou no dia 21 de maio de 2025, no dia do meu aniversário. E foi um Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Eu escolhi Ubatuba porque tem muitas baias que protegem melhor de eventuais mudanças no mar, de ressaca, de vento.
Em que momento você percebeu que a sua idade poderia ser uma potência e não limitador?
Eu acho que percebi que a idade é uma potência, a partir do momento em que eu descobri que tudo isso é o meu propósito. Eu fiz isso com um propósito, que é o de chamar a atenção para os atletas masters, porque até então ninguém conhecia o que era um atleta master. Eu fiz para ajudar a ciência, eu fiz para quebrar paradigma em relação à capacidade de uma pessoa, de uma mulher de 70 anos. Eu fiz para estabelecer algo extremamente importante: que o esporte e o ápice da intergeracionalidade na natação ou em qualquer outro esporte. Acredito que essa convivência dos jovens com os mais velhos é extremamente importante, porque eles aprendem com a nossa experiência e nós aprendemos com eles as inovações. E nós mantemos essa jovialidade através da juventude deles.
Existe preconceito no esporte?
Nós, mulheres, sofremos muito preconceito dentro do esporte. Não venham querer falar para mim que não, porque não é verdade. Eu canso de falar com mulheres de todas as modalidades esportivas e todas elas relatam problemas. Um exemplo, quando a gente está em uma prova de natação em águas abertas, os homens saem três minutos na nossa frente. Mesmo saindo depois, eu ultrapasso a metade dos homens, só que no meio do caminho eu levei soco, eu levei puxada de perna, passaram por cima de mim, e eu não sou a única.
Pupo, você disse que o filme, neste primeiro momento, será divulgado apenas na TV Unesp, por que?
Lucas Pupo: Infelizmente, não conseguimos patrocinadores e também não conseguimos participar de editais para financiamento público. No caso dos patrocinadores, acho que é um problema do nosso modelo capitalista, que buscam retorno mais rápido. Também acho que é um desconhecimento sobre o tema, sobre o aumento de pessoas com mais de 50 anos.
No caso de financiamento público, o filme está indo para edital, estamos tentando levantar verba para fazer algumas complementações, melhorias e acabamentos técnicos, para depois inscrever o filme em alguns festivais. Também estamos vendo a possibilidade de conversar com canais streaming, que costumam ter verba para produções independente.
Foi fácil atrair parceiros para colaborarem com o projeto?
Eu conversei com vários amigos que toparam participar. Após o processo de captação das imagens, eu entrei em contato com o Rodrigo Rebouças, um grande amigo produtor e diretor, que se interessou pelo assunto e entrou com a empresa dele, para auxiliar na finalização do projeto. Ele também acionou alguns parceiros, que ainda não estavam dentro do projeto, como roteirista profissional e editor.
Por que o nome Véia Nada?
Fabienne: Porque eu cansei de ouvir: essa véia nada?
Que conselho você dá para as mulheres 50 mais que têm sonhos guardados, mas que acham que estão velhas de mais para realizar?
Eu diria o seguinte: pense que você é uma pessoa absolutamente livre para tomar as decisões que você quiser, quando você quiser, como você quiser e com quem você quiser.
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