Zélia Duncan lança disco, fala de maturidade e da doença que tirou seu chão
Divulgação/Mauro Restiffe
São Paulo - Aos 61 anos, Zélia Duncan é uma artista da contramão. Ela não segue o fluxo; prefere fazer a linha 'diga lá, meu coração'. Enquanto o mundo ao redor — inclusive o da música — se desumaniza com inteligência artificial, algoritmos e a ânsia por viralizar, a cantora e compositora foca no que é essencialmente humano.
Seu novo disco de inéditas, "Agudo Grave", o 21º da carreira, é fruto de talento e suor e de quem ama o fazer musical. A busca pelas palavras certas para o refrão, o desenho de um arranjo arrebatador, o improviso que nasce durante uma gravação e que nunca será repetido ao vivo.
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As pessoas estão em um momento do sem tempo. O poder do botão é um poder que se volta muito contra quem o está apertando. Porque, se você está com essa pressa e eu não conseguir te agradar na introdução, você não chega ao refrão, e pode perder muita coisa.Não do meu disco, especificamente, mas da vida."
É mais um trabalho solo que Zélia arquiteta em conjunto. Maria Beraldo, cantora e compositora de 38 anos, assina a produção musical de "Agudo Grave" e é responsável pelos arranjos "cinematográficos" do álbum. Maria também faz dueto com ela em "Voz", composta pelas duas.
Para "Pontes no Ar" ela chamou Alberto Continentino; e em, "Maravilha Disforme" conta com a participação de Lenine. Zélia atravessa temas existenciais, biográficos e dos novos tempos, com crueza mas sem perder a poética. Leia os principais trechos da entrevista:
VIVA: Você completou 45 anos de carreira. Esse tipo de data mexe com você?
Zélia Duncan: Mexe, como sempre mexeu. Já fiz 61. Acho que 60 anos foi a data mais ‘redondona’ que eu fiz. Isso sempre te faz pensar em balanços: ‘e agora, qual é o próximo passo?’. Fiz o “Pelespírito” dentro de casa, em época de isolamento, parceria com o Juliano Holanda, com o Webster Santos; nós três, cada um de sua casa. E eu estava com vontade de fazer alguma coisa com instrumentos. Mas minha cabeça estava um pouco desanimada, dizendo: "e agora?". Preciso de uma ideia que me mova. Eu já sabia da Maria Beraldo, já a admirava meio de longe. Quando a gente se conheceu e eu vi que ela me conhecia, isso foi fundamental.
Vocês juntas chegaram à ideia do disco?
Sim, mandei para ela uma mensagem, meio seduzindo a Maria para fazer o álbum. Depois, eu falei: "Você topa me produzir? Seria muito bom para mim". Ela ficou muito afim. Há cinco anos eu não fazia um disco novo. Acho que o papo do álbum ficou mais existencial do que romântico. Faço álbuns românticos, gosto de falar de amor. Quem não? Mas acho que esse álbum está falando de outro tipo de amor. Um amor pelo planeta, pelo País, pelo ser humano mesmo. Sinto que é um disco de uma pessoa madura.
E como essa maturidade chega à música hoje?
Acho que chega em tudo. Um jeito de ver o mundo. Eu me sinto muito inquieta sempre. Quero trazer essa inquietude para o meu trabalho, e também o que eu achei de paz no meio do caos.
Achei que, com 61 anos, o mundo estaria de outro jeito, e ele foi virando cada vez mais de cabeça para baixo. A gente está em um momento muito obscuro do mundo e do Brasil. Fui me metendo nesses assuntos também.
Então, é impossível que o álbum não resvale nisso de alguma maneira, tanto para eu convidar uma pessoa tão mais jovem que tem uma experiência artística musical. A Maria tem, no trabalho dela, um nível de experimentação muito profundo de sonoridades.
O disco traz a canção "E Aí, IA?". Como que é fazer esse projeto em um momento em que a IA está dominando tudo?
É, e vai piorar. Para a arte é muito perigoso. A gente já vê artistas incríveis usando, aí acho bacana. Mas esse negócio do atalho, do pseudo artista e do que influencia no nosso fazer também, aí faz tudo com a inteligência artificial, não usa o músico, não usa o arranjador. Acho horrível. A música “E Aí, IA?” é justamente uma implicância com isso. Tem uma frase que a gente usou que é quase um conceito embutido no álbum: "Eu quero humanidade radical".
Pensando na questão do envelhecimento, se preocupa com os cuidados com a sua voz?
Sempre cuidei muito dela, sempre foi um assunto para mim. Fui uma pré-adolescente que tinha muita vergonha da minha voz. Já de cara, os timbres fazendo parte da minha vida. Raríssimamente fiquei rouca. Mas me aconteceu, aos 50 anos, uma coisa muito grave, porque tive um câncer de tireoide. Na semana em que eu descobri, eu tinha corrido 15 km - já havia feito cinco maratonas. Eu era a saudável do grupo, nunca fumei, não bebo porque não gosto.
Para mim, esse negócio de estar envelhecendo teve um corte. Porque eu tive uma doença. Então, não sei te dizer como é envelhecer sem ter passado por isso."
Fora todas as preocupações de hormônios e outras coisas, ainda tive esse dado com relação à minha voz para me preocupar. Como vai ser depois?Não tem coisa pior que morrer na vida. Isso, para mim, seria uma morte. Imagina, Deus me livre.
Como foi?
Eu descobri quando estava em Portugal, na véspera da minha estreia com Simone lá. Minha médica me ligou – médico não te liga. Eu sabia que tinha um nódulo. Fiz uma punção antes de viajar e, na volta, eu ia ver o resultado. Simone diz que teve um momento no show em que ela olhou para mim e eu estava com uma cara que ela nunca tinha visto. Não sei que cara é essa, mas eu estava com medo.
Aí começou a minha saga com esse assunto. Na volta é que escolhi como eu ia fazer. Não quis cancelar meus compromissos, justamente porque não sabia como eu ia sair dessa cirurgia. Tinha um show com Jaques Morelenbaum de voz e cello marcado, o médico concordou. O período mais louco da minha vida foi esse, de agosto a dezembro de 2017.
Todo dia eu cantava como se fosse a última vez. O sentimento era esse.
Meu último show com o Jaques foi no dia 5 de dezembro, no Rio. Lembro que estava muito cheio, alguns amigos da plateia sabiam, outros, não, que eu ia operar dali a 2 dias. Operei dia 7. Foi o show mais emotivo que eu já fiz, mas segurei onda, cantei. Três meses depois, fiz um show com o Jaques de novo.
Quando você se fortaleceu?
Tenho certeza que me curei no palco. O medo faz a gente duvidar. Não faço nada sem medo. Não sou uma supermulher. 'Ah, vou fazer um disco que eu não sei como vai ser, ah, ninguém vai ouvir'. Pode ser.
Agora com 61, eu quero ficar feliz com o que estou fazendo. Felicidades são momentos. A gente vai tentando juntá-los, mas a vida não é feliz propriamente. Quero esses momentos mais do que nunca.
Não é fácil envelhecer em público. E quando você tem ainda um problema que já foi resolvido, mas um problema no seu instrumento, é mais difícil ainda.
Sua mãe está com 90 anos. Você olha para ela e pensa na passagem do tempo, na finitude?
Olho para minha mãe e fico feliz. Eu lembro de uma coisa que o Drauzio (Varella) sempre fala e já falei muito para ela e para todo mundo. Ele diz que a medida de estar vivo tem a ver com a quantidade de prazer que você ainda tem na vida. E eu vejo a minha mãe fazer muitas coisas. A vida dela é alegre.
Ela falou uma coisa para mim deliciosa: 'Olha, se eu viver para perder totalmente a minha cabeça, eu vou ser uma velhinha que canta o dia inteiro e fala poesia'. E ela sempre amou cantar, meu pai também tinha uma bela voz. Ela passa isso para gente de um jeito que eu tenho que reconhecer: a vida é realmente um grande bem. A vida tem um valor imenso.
Ouça o disco 'Agudo Grave':
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