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'Algumas rotas podem não fazer mais sentido', diz CEO da Azul

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Com a disparada do combustível, a Azul reduziu cerca de 5% da capacidade planejada - Adobe Stock
Com a disparada do combustível, a Azul reduziu cerca de 5% da capacidade planejada
Por Broadcast

06/06/2026 | 16h15

Rio de Janeiro - A Azul já esperava enfrentar desafios após sair do processo de recuperação judicial nos Estados Unidos (Chapter 11), mas foi surpreendida pela velocidade com que eles surgiram, segundo o CEO da companhia, John Rodgerson. "Sabíamos que ia ter lombadas, mas não tão rápido", afirmou o executivo.

Apenas oito dias após a companhia finalizar a recuperação judicial nos Estados Unidos, o conflito no Oriente Médio passou a pressionar os preços do querosene de aviação (QAV), principal custo das companhias aéreas.

Nunca vi o combustível dobrar tão rápido de preço e permanecer nesse patamar", disse Rodgerson em entrevista à Broadcast durante a reunião anual da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), realizada no Rio de Janeiro.

Segundo o executivo, a Azul já projetava que 2026 fosse um ano de transição, sem crescimento relevante da oferta de voos. Com a disparada do combustível, porém, a companhia reduziu cerca de 5% da capacidade planejada. As tarifas também subiram cerca de 20%, movimento que já afeta a demanda.

Para Rodgerson, o choque do petróleo deve custar bilhões às companhias aéreas e reduzir a rentabilidade do setor globalmente. Apesar disso, o CEO da Azul avalia que o governo brasileiro tem adotado uma postura mais proativa do que em crises anteriores e diz que a companhia está em uma posição tranquila para atravessar o momento. Ainda assim, afirmou que novos ajustes de oferta permanecem sobre a mesa caso o conflito se prolongue.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Broadcast - O atual cenário geopolítico está impactando a retomada da empresa após a saída do Chapter 11?

Rodgerson - Quando o principal custo da empresa dobra, é necessário fazer ajustes. Mas estamos muito satisfeitos com a forma como saímos do Chapter 11, com muito menos dívida e uma nova capacidade de atuar no mercado. Este já seria um ano de transição para nós. Sabíamos que haveria lombadas no caminho. Operamos uma companhia aérea no Brasil, então sempre existem variáveis como câmbio, combustível e eventos externos. O que eu não imaginava era que isso aconteceria tão rápido. Entre a nossa saída do Chapter 11 e a guerra passaram apenas oito dias. Ainda assim, estamos em uma posição tranquila olhando para a alavancagem e para a capacidade de atravessar esse momento.

Broadcast - Quanto de capacidade foi cortada até o momento? Há previsão de novos ajustes?

Rodgerson - Reduzimos cerca de 5% da capacidade. O plano para este ano já era de estabilidade, então agora devemos ficar um pouco abaixo disso. Cortamos algumas frequências e algumas rotas, o que é natural quando o combustível sobe dessa forma. Até agora preservamos os destinos, mas tudo está na mesa. Se essa guerra continuar por mais tempo, talvez tenhamos de concluir que determinada cidade não faz mais sentido para nós.

Broadcast - O aumento de preços já tem impactado a demanda?

Rodgerson - Sim. Quando você aumenta a tarifa em cerca de 20%, algumas pessoas ficam fora. É por isso que também reduzimos capacidade. O que considero triste é justamente isso: nem todo mundo consegue pagar mais. Isso acaba deixando a aviação mais dependente da demanda corporativa e menos acessível para a pessoa física. O Brasil precisa de mais equilíbrio entre os dois mercados.

Broadcast - Esse é o momento mais desafiador para a aviação desde a pandemia?

Rodgerson - Tivemos vários choques nos últimos anos, mas nunca vi o combustível dobrar tão rápido de preço e permanecer nesse patamar. Isso exige ajustes rápidos e mais planejamento do setor. Vai custar bilhões para as companhias aéreas. As empresas tentam repassar parte desse impacto para as tarifas, mas é difícil acreditar que a demanda conseguirá absorver tudo. Toda empresa aérea do mundo vai ter menos rentabilidade por causa disso. O Brasil produz combustível e tem refinarias, mas uma guerra do outro lado do mundo continua afetando o preço das passagens, as frequências e a capacidade das companhias.

Broadcast - Como o senhor avalia a resposta do governo para minimizar os impactos da alta do querosene de aviação (QAV)?

Rodgerson - Estou vendo um governo que está pensando diferente desta vez. Está sendo mais proativo do que na época da pandemia, olhando linhas de crédito e alternativas que não existiam antes para o setor. A aviação é estratégica. Quando você reduz voos, impacta turismo, hotéis, restaurantes, transporte e comércio. Outros países enxergam isso há muito tempo.

Broadcast - A aviação regional sente mais o impacto da disparada do preço dos combustíveis?

Rodgerson - Sim. Às vezes, o preço do combustível em São Paulo pode ser um terço do que ele custa em uma rota mais regional. Então, essas operações acabam sendo mais impactadas. Estou à frente da Azul há dez anos e, quando assumi a companhia, o dólar estava próximo de R$ 3. Hoje está perto de R$ 5. Isso impacta os custos. Quando decidimos abrir muitas dessas cidades, o Brasil tinha uma realidade econômica diferente. Sempre precisamos adaptar a operação ao cenário atual e continuar focando onde podemos ganhar dinheiro.

Broadcast - Qual é a principal agenda da Azul neste novo momento?

Rodgerson - Focar em rentabilidade e resgatar os clientes. Depois de tudo o que passamos desde 2020, o relacionamento com o cliente fica estressado. Queremos recuperar essa relação e voltar a oferecer a experiência que sempre caracterizou a Azul.

Broadcast - Mas não fica mais difícil recuperar esse cliente em um momento em que as tarifas estão mais altas?

Rodgerson - Eu não sou responsável pelo fato de o combustível ter dobrado de preço. O que o cliente quer de uma empresa aérea é que ela seja saudável, rentável e capaz de continuar crescendo. Durante o Chapter 11 tivemos de cortar cerca de 15 cidades, e isso impactou muito os passageiros. O que é melhor: aumentar tarifas ou cortar cidades? Acho que os clientes preferem continuar tendo suas cidades atendidas. Estamos muito focados em pontualidade, produto de bordo, flexibilidade e na forma como interagimos com os passageiros. Criamos novas categorias no programa de fidelidade e estamos fazendo várias iniciativas para melhorar a experiência.

Broadcast - A reforma tributária pode ser mais um desafio para a aviação?

Rodgerson - O setor está bastante alinhado nessa discussão. A aviação é estratégica e diversos outros setores dependem dela. Se você aumenta demais a tributação sobre a aviação, menos pessoas viajam. Isso significa menos turismo, menos empregos e menos atividade econômica. Quando você pensa em Mercado Livre e Amazon, elas também dependem da nossa malha aérea para distribuir produtos. É preciso ter muito cuidado com qualquer aumento de carga tributária sobre o setor.

*A repórter viajou a convite da Iata

Por Elisa Calmon

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