EUA terão dificuldades para reconstruir indústria de petróleo da Venezuela
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Por Aline Bronzati e Isabella Pugliese Vellani, da Broadcast
redacao@viva.com.brNova York e São Paulo, 05/01/2026 - O plano do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para reconstruir a indústria petroleira da Venezuela após a captura do ditador Nicolás Maduro enfrenta obstáculos que começam dentro de casa e se estendem ao país latino, detentor das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. O futuro do petróleo venezuelano está à mercê de estabilidade política, clareza regulatória e capital de risco disposto a esperar anos pelo retorno e, por ora, os desdobramentos em Caracas serão medidos mais pelo calor geopolítico que gerou do que por barris adicionais no mercado.
A Venezuela é dona das maiores reservas de petróleo do planeta, com cerca de 300 bilhões de barris ainda não explorados, superando até a Arábia Saudita, número 1 do mundo, conforme o Energy Institute. Apesar disso, ocupa apenas a posição de 18º maior produtor do mundo, gerando em torno de 1 mil barris por dia (mbpd, na sigla em inglês), ou apenas 1% do total global. Na década de 1970, a Venezuela produzia cerca de 3,5 milhões de barris de petróleo por dia, ou 8% da oferta global.
Histórico de instabilidade na Venezuela é entrave para investimentos
Dentre os desafios para tornar o petróleo venezuelano mais pujante, estão as incertezas no país após a queda de Maduro. "É improvável que algumas empresas americanas retornem ao país enquanto não houver um regime jurídico e fiscal confiável e uma situação de segurança estável", diz o presidente do Grupo Consultivo de Energia do Centro Global de Energia do think tank Atlantic Council, David Goldwyn.
Segundo ele, as petroleiras americanas com operações na Venezuela são muito mais propensas a revivê-las e expandi-las se o ambiente for "seguro". As companhias dos EUA deixaram o país com a nacionalização da indústria petrolífera local em 1976. Atualmente, somente a americana Chevron mantém operações em Caracas.
"Em teoria, a Venezuela poderia novamente se tornar um grande produtor. Mas teoria e realidade divergem acentuadamente", reforça o economista-chefe da Capital Economics, Neil Shearing.
Excesso de oferta deve empurrar preços do petróleo para baixo
Trump afirmou no sábado, 03, que enviará as grandes empresas americanas para reconstruir a indústria petroleira da Venezuela. "Vamos ter as grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores do mundo. Vão em frente, gastem bilhões", disse durante coletiva de imprensa para comentar o ataque à Venezuela.
Mais de 24 horas após a ofensiva de Washington em território venezuelano, as principais petrolíferas americanas não se pronunciaram sobre a situação em Caracas. Segundo o britânico The Guardian, a ExxonMobil recusou pedidos de comentários, enquanto a ConocoPhillips mencionou que "é prematuro especular sobre quaisquer atividades comerciais ou investimentos futuros". A Chevron, única empresa americana que segue operando na Venezuela, mencionou que "continua focada na segurança e no bem-estar de seus funcionários, bem como na integridade de seus ativos".
A Capital Economics calcula que, mesmo se a produção de petróleo na Venezuela for restaurada com sucesso aos níveis vistos há uma década - cerca de 3 mil barris por dia -, isso adicionaria apenas cerca de 2% à oferta global da commodity. Para a consultoria britânica, o crescimento da oferta mundial em 2026 deve empurrar os preços da commodity para baixo, a US$ 50 por barril.
Na última sexta-feira, 02, antes do ataque dos EUA à Venezuela, o petróleo fechou em baixa, com investidores avaliando um possível excesso na oferta da commodity às vésperas da reunião mensal dos integrantes da Organização de Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+), neste domingo. O WTI para fevereiro, negociado nos EUA, fechou em queda de 0,17% (US$ 0,10), a US$ 57,32 o barril.
A Opep+ informou que os oito países participantes reafirmaram a decisão feita em novembro de 2025 de pausar os incrementos de produção do petróleo em janeiro, fevereiro e março de 2026 devido à sazonalidade. A situação na Venezuela não foi mencionada pela organização. Os eventos do fim de semana não teriam alterado a posição da Opep+, conforme relatos na imprensa americana.
Gestão da receita com a venda do petróleo ainda é incógnita
É "altamente incerto" como a administração dos EUA abordará as exportações de petróleo e a gestão dessas receitas, observa Goldwyn. Um caminho, diz, é permitir que a Venezuela exporte, expanda o licenciamento e venda petróleo a preços de mercado. O especialista sugere ainda que essas receitas sejam enviadas para uma conta bloqueada em benefício de um novo governo venezuelano.
Ontem, Trump disse que a riqueza extraída vai para o povo da Venezuela, os que moram dentro e fora do país, mas também vai para os Estados Unidos na forma de reembolso pelos danos de bilhões de dólares causados. Segundo ele, o país de Maduro "unilateralmente apreendeu e vendeu petróleo, ativos e plataformas americanas".
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou, neste domingo, 04, que o petróleo segue sendo crucial para o futuro da Venezuela, mas a indústria petrolífera venezuelana está falida, na avaliação dele. Segundo o secretário, o país sul-americano não tem capacidade para reerguer essa indústria e, por isso, precisa de investimento de empresas privadas, que só investirão sob certas garantias e condições. "Esse investimento precisa beneficiar o povo venezuelano. No momento, toda essa riqueza é roubada", defendeu Rubio.
Para o analista sênior de mercado do Price Futures Group, Phil Flynn, caso os EUA consigam colocar em prática seu plano para a Venezuela, pode haver "muito otimismo" de que as petroleiras americanas entrem e revitalizem a indústria doméstica rapidamente. "Se a Venezuela conseguir se tornar uma potência na produção de petróleo, isso pode consolidar preços mais baixos a longo prazo e pressionar ainda mais a Rússia", disse ele, à Associated Press. Trump disse, ontem, que os EUA têm interesse em vender petróleo à Rússia quando as coisas se estabilizarem, e também para outros países.
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