Dirlene Silva
Colunista VIVA
13/07/2026 | 08h00
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
De “filha da Lixeira” a referência em educação financeira. É economista, LinkedIn Top Voice e palestrante. Ajuda pessoas a reescreverem sua história com o dinheiro.
Infidelidade financeira: o que o seu parceiro não sabe sobre suas finanças?
Envato
Porto Alegre - Você já escondeu de seu parceiro ou parceira uma compra para evitar uma discussão? Omitiu uma dívida? Deixou de contar sobre um investimento, um empréstimo ou uma dificuldade financeira? Se a resposta foi sim, saiba que esse comportamento tem nome: infidelidade financeira.
Quando se ouve a palavra infidelidade logo se pensa em relacionamentos extraconjugais. Entretanto, a infidelidade financeira é uma forma de traição muito mais comum do que se imagina, mas que raramente recebe a atenção necessária.
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À primeira vista, pode parecer exagero utilizar a palavra "infidelidade" para falar sobre dinheiro. Afinal, o que uma compra escondida, uma dívida omitida ou uma conta bancária secreta teriam em comum com uma traição amorosa?
Pesquisa realizada pela Serasa em 2025 apontou que 53% dos brasileiros consideram o dinheiro o principal motivo de brigas entre casais. O levantamento também revelou que quase metade dos entrevistados já escondeu algum problema financeiro ou decisão relacionada ao dinheiro do parceiro.
Embora sejam tratados como temas distintos, tanto a infidelidade financeira quanto a amorosa, possuem uma consequência comum: a quebra da confiança.
Logicamente, nenhum relacionamento termina apenas por causa de uma fatura de cartão de crédito ou de uma compra realizada sem planejamento e da mesma forma, uma traição amorosa não destrói apenas a relação por envolver outra pessoa.
O que realmente abala um relacionamento é a sensação de que algo importante foi escondido, omitido ou compartilhado apenas parcialmente."
Por isso, quando uma pessoa esconde dívidas, realiza compras sem o conhecimento do parceiro, omite investimentos, contrai empréstimos ou toma decisões financeiras relevantes sem diálogo, não é só um problema financeiro, representa também uma ruptura na transparência que sustenta a vida a dois.
O que é infidelidade financeira?
De forma simples, a infidelidade financeira acontece quando uma pessoa toma decisões relacionadas ao dinheiro e escolhe escondê-las do parceiro ou da parceira.
Isso pode acontecer de diversas formas:
- Ocultar dívidas;
- Fazer compras escondidas;
- Contrair empréstimos sem comunicar o parceiro;
- Manter contas bancárias secretas;
- Esconder investimentos;
- Omitir rendimentos;
- Emprestar dinheiro a familiares sem alinhamento prévio.
Muitas vezes, essas atitudes não surgem por má intenção. Elas podem estar associadas ao medo de julgamentos, conflitos ou discussões.
O problema é que o segredo produz um efeito colateral perigoso e que afeta um dos ativos mais valiosos de qualquer relacionamento: a confiança. E confiança, assim como o patrimônio, leva anos para ser construída e pode ser destruída muito rapidamente."
Na maioria das vezes, infidelidade financeira nasce de pequenos segredos que parecem inofensivos, como: uma compra escondida, uma dívida omitida, um cartão de crédito secreto, uma ajuda financeira a familiares sem alinhamento prévio ou uma decisão importante tomada individualmente quando deveria ter sido compartilhada.
Inúmeras crises conjugais começam assim com pequenos segredos financeiros, não por acaso, as questões financeiras aparecem como sendo o principal motivo de conflito entre casais e representam a segunda maior causa de divórcio.
A infidelidade financeira começa no silêncio
Eu acredito que tudo aquilo sobre o qual não falamos, é silêncio e acaba se transformando em tabu. E isso também acontece com o dinheiro.
Em muitas famílias, dinheiro é um assunto proibido. Não se fala sobre ganhos, sobre dívidas, sobre dificuldades ou sobre sonhos. Nesse ambiente, o silêncio cria espaço para segredos e os segredos criam a distância."
E é assim, no silêncio de tudo o que não é falado que a infidelidade financeira pode acontecer, tornando o dinheiro uma fonte de conflitos, ressentimentos e afastamento.
Em contrapartida, quando existe diálogo, o dinheiro se transforma em uma ferramenta para construir um projeto de vida juntos.
Dinheiro não é apenas número
Ao longo da minha trajetória de vida compreendi e pude ratificar com meu trabalho voltado para a educação financeira, que na maioria das vezes, o problema não é o dinheiro e sim, a falta de diálogo.
Uma das missões do meu trabalho é justamente desmistificar a economia e mostrar que economia e dinheiro não são temas distantes, técnico ou restrito aos especialistas. Economia é, sobretudo, pessoas.
E dinheiro é muito mais do que números, fala sobre sonhos, prioridades, segurança, liberdade, medos, expectativas e relacionamentos.
Cada pessoa constrói sua relação com o dinheiro ao longo da vida. As experiências da infância, os exemplos familiares, as conquistas e as dificuldades moldam a forma como lidamos com o dinheiro.
Quando duas pessoas iniciam uma vida juntas, não estão apenas compartilhando despesas, elas estão compartilhando histórias. Por isso, conflitos financeiros não são apenas sobre dinheiro e sim, conflitos sobre histórias e valores.
O desafio dos relacionamentos maduros
O tabu de não falar sobre finanças nos relacionamentos não ocorre apenas entre casais jovens, no início da vida juntos. A realidade mostra que os desafios financeiros podem acompanhar todas as fases da vida de um casal.
Nos relacionamentos mais maduros, surgem questões como:
- Cuidado e despesas com filhos;
- Apoio financeiro aos filhos e/ou netos;
- Filhos de relacionamentos anteriores;
- Planejamento da aposentadoria;
- Administração do patrimônio construído ao longo dos anos;
- Sucessão patrimonial;
- Cuidados com a saúde e longevidade.
É justamente nessa fase da vida que a transparência financeira se torna ainda mais importante. Afinal, quanto maior o patrimônio construído, maior costuma ser o impacto das decisões tomadas sem alinhamento.
Como evitar a infidelidade financeira
Prevenir é melhor que remediar! E no caso da infidelidade financeira, a prevenção não exige fórmulas complexas: começa com conversas simples. Acredito que o início do fim de um tabu é quando começamos a falar sobre o assunto tabu. Para isso, minhas dicas são:
1. Criem momentos para falar sobre dinheiro
Assim como cuidamos da saúde física, precisamos cuidar da saúde financeira do relacionamento. Uma conversa mensal já pode fazer grande diferença.
2. Compartilhem sonhos antes de compartilhar as despesas
Falar apenas dos boletos a pagar pode tornar a conversa pesada. Já, falar de objetivos é agradável, leve e aproxima as pessoas. Questionem-se: "O que queremos construir juntos?"
3. Sejam transparentes sobre a realidade financeira
Dívidas, investimentos, dificuldades e conquistas devem fazer parte do diálogo. A verdade pode gerar desconforto momentâneo, mas a mentira ou o segredo pode gerar problemas duradouros.
4. Respeitem as diferenças
Nem todas as pessoas possuem a mesma relação com o dinheiro. Compreender essas diferenças é parte importante da construção de acordos saudáveis.
5. Construam um projeto de vida compartilhado
Muitos casais compartilham despesas, mas poucos compartilham um projeto de vida. No primeiro caso, o dinheiro gera conflitos e distanciamento e no segundo, gera conexão.
O dinheiro deve ser uma ponte, não um muro
Uma lição simples que a vida me ensinou é que dinheiro serve para nos servir. Quando ele se transforma em motivo permanente de sofrimento, controle ou afastamento, há algo errado.
“O dinheiro deve ser visto como uma ponte para nossa satisfação e felicidade, jamais como algo doloroso”.
Até a próxima coluna!
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