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Por Circe Bonatelli, do Broadcast
[email protected]A proposta em estudo pelo governo Lula para criar uma nova faixa no Minha Casa Minha Vida (MCMV), contando com um recurso extra de R$ 15 bilhões do Fundo Social, tem potencial para ampliar programa em cerca de 6% por ano.
Considerando o valor médio de R$ 400 mil por moradia prevista neste segmento, os R$ 15 bilhões seriam suficientes para a contratação de cerca de 37 mil unidades por ano, o equivalente a 6% do total de contratações anuais do MCMV contando todas as faixas do programa.
"É pouco, mas é bom. Quando tem escassez de dinheiro, 'qualquer coisa é muito', disse um representante de associação empresarial da construção, reservadamente.
A ideia em gestação dentro do governo é contemplar famílias com renda bruta mensal entre R$ 8 mil e R$ 12 mil. Atualmente, o programa vai até R$ 8 mil. Esse público tem que recorrer a financiamentos com taxa de juro na faixa dos 12% ao ano, o que representa parcelas pesadas para o bolso dos consumidores, esfriando as vendas. Com a criação da faixa 4, esses consumidores devem contar com financiamentos a taxas menores e subsidiadas.
A iniciativa tem como pano de fundo o esforço do governo Lula em adotar medidas que estimulem a economia e criem uma agenda positiva para diversos setores produtivos. Associações de empresários consultados pela reportagem disseram, reservadamente, que esse não era um pleito encabeçado pelo setor e que nasceu dentro do governo. Neste momento, a prioridade na agenda das construtoras é ajustar as faixas de renda dos beneficiários do MCMV, que estão sem atualização há dois anos.
Por enquanto, as notícias do dia sobre a nova faixa 4 ainda geram dúvidas sobre como será a sua operação, isto é, qual será o caminho para os recursos do Fundo Social chegar até o financiamento das moradias. Se o governo sanar as dúvidas e for capaz de tirar essa medida do papel, a visão de analistas é que o crédito extra vai ajudar a movimentar mais o mercado imobiliário.
Entre as construtoras listadas na bolsa, a medida deve ajudar MRV, Cury, Direcional e Plano & Plano, por exemplo, que já têm uma porção importante de suas operações na futura faixa 4 do MCMV.
"Esta é uma notícia positiva para o setor. Se as medidas forem implementadas, as empresas poderão aumentar muito os lançamentos nessa nova faixa e/ou aumentar os preços de venda de casas no segmento, já que a acessibilidade vai melhorar muito", afirmaram os analistas Gustavo Cambauva e Elvis Credendio, em relatório do BTG Pactual. O teto de preços atual é de R$ 350 mil.
Para os analistas Daniel Gasparete, Luiz Capistrano, Mariangela Castro e Alejandro Fuchs, do Itaú BBA, a medida poderia desbloquear gatilhos importantes para o setor de construção e desencadear uma alta das ações. A expectativa é de uma nova onda de lançamentos, dado o mercado endereçável potencialmente maior, e mais lucratividade, já que algumas empresas estavam enfrentando desafios para aumentar os preços devido às restrições impostas pelo programa de habitação social
O Minha Casa Minha Vida (MCMV) é um programa do governo para moradias de até R$ 350 mil com financiamento subsidiado pelo Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) a taxas entre 4% e 8% ao ano. No ano passado, o orçamento do fundo para o programa teve um salto relevante, passando de R$ 86 bilhões para R$ 130 bilhões.
Os ajustes promovidos no MCMV lá em 2023 e o aumento na oferta de recursos para financiar o programa habitacional explicaram o crescimento das atividades no setor ao longo do ano passado.
O mercado imobiliário nacional teve, em 2024, o melhor ano da história. Os lançamentos chegaram a 383,5 mil unidades, avanço de 18,6% em relação a 2023, enquanto as vendas totalizaram 400,5 mil unidades, crescimento de 20,9%, segundo pesquisa da CBIC. O estoque de moradias novas (na planta, em obras e recém-construídas) recuou 7,8%, indo a 291,9 mil unidades. Nesse ritmo de vendas, o estoque seria totalmente consumido em 8,7 meses caso não houvesse novos projetos.
Desde 2023, o MCMV passou por uma série de ajustes, que passaram por elevação do subsídio para famílias de menor renda, corte de juros, aumento da renda média das famílias admitidas no programa, bem como do preço máximo dos imóveis aceitos.
O sócio e fundador da consultoria Brain, Marcos Kahtalian, acrescentou que o mercado imobiliário como um todo foi impulsionado pelo crescimento da economia brasileira e pelo aumento da renda total da população. "O mercado de trabalho se manteve aquecido, com a menor taxa de desemprego já registrada. Então, a população foi às compras", observou. Kahtalian citou ainda o amadurecimento da população, com um aumento na participação de pessoas com idade em torno de 40 anos na pirâmide demográfica. É nessa faixa etária se costuma tomar a decisão da compra do imóvel.
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