Na era do Pix, avós podem ajudar a ensinar o valor real do dinheiro
Envato
São Paulo - Ter os avós por perto na criação dos filhos, além de representar uma importante rede de apoio, pode render para as crianças mais do que lindas memórias, incluindo alguns ensinamentos básicos de educação financeira.
Em homenagem ao Dia dos Avós, comemorado neste domingo (26), o VIVA conversou com especialistas em finanças pessoais sobre a importância de se falar sobre dinheiro com as crianças. Afinal, como destaca a especialista em educação financeira e cofundadora da Bem Educação, Ana Leoni, hoje temos até quatro gerações convivendo na mesma família.
Com a popularização do Pix, a experiência de manter um cofrinho para estimular a poupar, por exemplo, foi perdendo espaço, o que exige maior criatividade na abordagem.
Uma dica é construir um cofrinho em família, transparente, como um vidro com tampa, em que seja colocado não só moedas ou notas mas também recibos quando forem feitos depósitos na poupança da criança, para o ensinamento importante.
Principalmente para as crianças menores, entender o valor do dinheiro está muito ligado a volume, quantidade, aí entra a importância da experiência do cofrinho. Os pequenos tendem muito mais a aceitar 10 notas de R$ 10 do que uma nota de R$ 100, ensina Ana Leoni.
Enquanto muitos netos ajudam os avós a navegar pelas novas tecnologias, os avós compartilham ensinamentos sobre planejamento, disciplina financeira e visão de longo prazo, diz o gerente de Análise e Planejamento Financeiro do Banco Mercantil, Sérgio Batista.
Ele ressalta que na era do Pix, os avós passaram a participar de conversas sobre pagamentos digitais, segurança nas transações e consumo consciente. "Essa troca fortalece os laços familiares e cria uma oportunidade valiosa de educação financeira dentro de casa, contribuindo para que crianças e jovens desenvolvam uma relação mais saudável e responsável com o dinheiro desde cedo", afirma.
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O exemplo dos mais velhos
É preciso lembrar também que as crianças aprendem muito por observação, pontua a economista Olívia Resende, fundadora da Germinar Educação.
Nesse contexto, a convivência com os avós pode ajudar bastante a formular esse olhar mais crítico e conectado com a realidade que hoje, na era do Pix, as crianças não conseguem ter".
Em primeiro lugar, os avós aprenderam que cada conquista era resultado de um processo, as vezes longo. A vida corria em um outro ritmo, as coisas não eram tão fáceis. "Não havia acesso ilimitado dentro de uma tela de celular a produtos, compras online, a inteligência artificial. Tudo exigia um certo tempo para acontecer", conta Resende.
Ela própria lembra de ir ao supermercado com a avó e aprender sobre economia. "Eu lembro até hoje, ela fazia a gente comer antes de ir, para sair com a barriguinha cheia e não ficar com vontade de comer muitas balinhas quando chegar lá", recorda.
Foto: Divulgação
Do ponto de vista comportamental, acrescenta ela, é possível dizer que os avós podem ter um pouco mais de sucesso do que os pais ao lidar com questões do orçamento diário, como mesada, na hora de conversar com os netos. Isso por conta da leveza desse laço familiar.
"Em conversas simples do cotidiano é possível explicar porque é preciso trabalhar para ter o dinheiro, estabelecer objetivos futuros para economizar e ensinar, de forma leve, como isso é importante para o futuro".
Quanto ao cofrinho, ela sugere envolver a criança nesse processo, não simplesmente comprar um. Pode ser até de garrafa PET.
Planejamento e esforço
Junto com os pais, os avós também podem ter um papel importante ao ajudar no estabelecimento de objetivos para essa reserva financeira, acrescenta Ana Leoni. "Eles podem definir juntos um destino para aquele dinheiro que está sendo guardado".
Aqui é o momento em que se ensina a criança qual será o esforço necessário para realizar aquele objetivo. Trabalhar o conceito de espera mexe com o controle da impulsividade, afirmam as educadoras, além de valorizar o planejamento, dois pilares essenciais da educação financeira.
Na visão da educadora da Germinar, os pais hoje falham ao não conseguir passar para os filhos que essa conquista de 'ter as coisas que se deseja' é resultado de um esforço maior de paciência, planejamento, autocontrole. "Isso tem se perdido, mas é um ensinamento importante que pode ser resgatado pelos avós", diz Resende.
Esses avós viveram diversos planos econômicos, mudanças de moeda, inflação galopante, o confisco da poupança, acrescenta Ana Leoni. Esse é o ensinamento mais importante que pode ser passado pelos avós para os netos, segundo ela. Entender que gastar é fácil, mas conquistar leva tempo.
"Eles viram o regime político mudar, vários planos econômicos distintos e realidades empresariais de empreender muito diferente e acumularam muita experiência", afirma.
Outro fato também importante é que diante das conquistas da longevidade, com maior expectativa de vida da população brasileira, essa convivência entre netos e avós tem se ampliado. "Essa é uma geração muito privilegiada, porque tem a oportunidade de conviver com os avós por mais tempo e nem todas as gerações tiveram essa sorte", conclui Leoni.
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