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Previdência nunca vai quebrar, mas envelhecimento pressiona, diz Giambiagi

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Previdência nunca vai 'quebrar', mas envelhecimento populacional pressionará ainda mais o orçamento - Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Previdência nunca vai 'quebrar', mas envelhecimento populacional pressionará ainda mais o orçamento
Por Pedro Marques

25/08/2026 | 11h00

São Paulo - O economista Fábio Giambiagi é uma das vozes mais respeitadas no debate macroeconômico quando o assunto é o "tripé" que ele próprio define como suas grandes especialidades: as finanças públicas, a Previdência Social e a economia argentina. Carioca, filho de cientistas argentinos cassados pela ditadura de Jorge Rafael Videla em 1976, Giambiagi viveu a infância e a adolescência em Buenos Aires até os 14 anos, momento em que a família retornou ao Brasil. Justamente por isso, ele costuma brincar que é o único economista capaz de torcer pelo Racing e pelo Flamengo ao mesmo tempo.

Essa trajetória única é o alicerce de sua mais nova obra, Argentina para Brasileiros: Un País de Película. O projeto nasceu de uma aula inaugural para um MBA ministrada de forma remota durante os meses mais severos da pandemia de Covid-19. O que deveria ser uma exposição de 40 minutos transformou-se em uma aula panorâmica de duas horas sobre o desenvolvimento econômico da América Latina.

Estimulado pelos alunos e pelo coordenador do curso a estruturar aquela visão em livro, Giambiagi dedicou-se a reconstruir a trajetória argentina – desde as guerras civis do século XIX até o conturbado governo de Javier Milei.

"Argentina para Brasileiros: Un País de Película", de Fábio Giambiagi; R$ 67,50, na Amazon
"Argentina para Brasileiros: Un País de Película", de Fábio Giambiagi; R$ 67,50, na Amazon

O livro, que traz prefácio do historiador e colunista argentino Carlos Pagni, orelha do ex-ministro Pedro Malan e contracapa do correspondente internacional Ariel Palacios, busca explicar o "enigma decadente" de um país que esteve entre os dez mais ricos do mundo no início do século XX e hoje enfrenta graves crises estruturais. Mais do que uma análise do vizinho, a obra funciona como um espelho de alerta para o Brasil, abordando a urgência da responsabilidade fiscal e o perigo do esgarçamento do tecido social.

Nesta entrevista exclusiva ao portal VIVA, Giambiagi analisa a atual situação fiscal brasileira, os perigos de uma polarização política que impede o debate racional e o que o Brasil pode aprender (ou evitar) ao observar o experimento econômico de Javier Milei. Confira a seguir a entrevista:

O senhor é conhecido como "o argentino mais brasileiro" do setor financeiro. Como nasceu a ideia do novo livro?

Fábio Giambiagi: A história desse livro está associada a outro, "A Vingança de Tocqueville", que publiquei em 2025. Durante a pandemia, um amigo me convidou para dar uma aula inaugural de um MBA. Em vez de fazer uma palestra convencional sobre taxa de juros ou PIB, pedi liberdade para dar uma visão panorâmica da economia brasileira. O que era para ser uma aula de 40 minutos virou uma conversa de duas horas e acabou sendo tão bem recebida que o coordenador sugeriu que eu transformasse aquilo em um livro. A partir daí, decidi organizar minhas ideias sobre a Argentina. Embora eu seja 100% brasileiro, vivi na Argentina dos 10 meses aos 14 anos de idade. Costumo dizer que saí da Argentina, mas ela não saiu de mim. 

Brasil e Argentina são mais parecidos do que imaginam? O que a história nos ensina?

São países de renda média, com estruturas federativas semelhantes — o Brasil tem 27 estados e a Argentina, 24. Ambos enfrentaram ditaduras militares em períodos próximos e sofreram com diversos planos de estabilização fracassados até encontrarem caminhos de controle da inflação. Nos meus primeiros anos de profissão, nos anos 80, o Brasil e a Argentina eram muito parecidos, inclusive com o drama da dívida externa.

A grande diferença é que o Brasil conseguiu deixar para trás o problema da dívida externa e o cenário de hiperinflação crônica, enquanto a Argentina continua enfrentando esses temas diariamente."

Hoje, o Brasil possui cerca de US$ 350 bilhões em reservas internacionais, o que nos dá uma tranquilidade que não existia décadas atrás. Na Argentina, o debate sobre dívida e inflação ainda é o prato principal do noticiário. Reduzir uma inflação de 5% para 3% é um desafio; reduzir de 3.000% para um nível civilizado, como fizemos, é algo completamente diferente.

Qual é o paralelo entre o quadro fiscal brasileiro atual e o histórico da economia argentina?

O paralelo está no risco da leniência com o endividamento ao longo do tempo. Na Argentina, 70 ou 80 anos de descaso fiscal e desequilíbrios contínuos levaram à situação dramática de final de 2023, que culminou na eleição de Javier Milei e na necessidade de decisões extremas. No Brasil, esse cenário de crise aguda não está colocado no curto prazo — dizer que teremos uma crise catastrófica daqui a três meses é um flagrante exagero. Mas não há como negar o agravamento do quadro fiscal.

A dívida bruta era de cerca de 51% a 52% do PIB em 2013 e hoje já supera os 80%, com risco real de ultrapassar 90% até o fim do próximo governo. Se continuarmos sem dar a devida atenção a essa escalada, poderá chegar o dia em que o Brasil também será forçado a tomar medidas extremas.

Uma dívida desse tamanho consome um espaço enorme do orçamento com juros, o que se torna uma verdadeira herança maldita e limita a capacidade do Estado de financiar serviços essenciais e a própria Previdência."

Por falar em Previdência, muito se diz que o sistema brasileiro "vai quebrar". Esse é o risco real?

A Previdência nunca vai "quebrar", como se fosse uma empresa que fecha as portas e encerra atividades. O risco real não é a falência, mas a quebra do contrato social intergeracional."

O sistema funciona pelo princípio de que quem trabalha sustenta a geração anterior. Se o governo deixa de honrar esse compromisso, temos uma quebra de contrato, como aconteceu na Grécia em 2008, durante a crise do euro, ou na Argentina em 2024, onde os aposentados sofreram cortes reais significativos por conta da aceleração inflacionária.

No Brasil, isso seria impensável, pois afetaria mais de 30 milhões de pessoas e levaria a uma instabilidade política insustentável. No entanto, não descarto que em cenários de crises extremas, as discussões sobre ajustes recaiam sobre benefícios, o que ninguém deseja. O ponto é que o envelhecimento populacional — especialmente do público 50+ — pressionará ainda mais o orçamento. Precisamos tratar isso com seriedade técnica.

Estamos em ano eleitoral no Brasil. Como isso afeta as perspectivas de um ajuste fiscal?

Em geral, os períodos e campanhas eleitorais são, como dizia o ex-ministro Mário Henrique Simonsen, verdadeiras "incursões no terreno da fantasia". Discute-se uma coisa na campanha e enfrenta-se outra na realidade pós-eleitoral. Olhando realisticamente para o futuro, sou relativamente pessimista em relação a um ajuste mais severo a partir de 2027. Não vejo hoje nenhum dos dois grandes grupos políticos em disputa no Brasil estudando seriamente a possibilidade de uma guinada mais substancial na política fiscal. O cenário mais realista indica a continuidade de um ajuste bastante moderado, o que continuará a elevar a dívida pública ao longo dos quatro anos do próximo governo.

O problema de não aproveitar o momento político para fazer um ajuste firme é que continuamos empurrando o problema com a barriga, acumulando uma dívida que pode superar os 90% do PIB e drenar recursos cruciais do orçamento para o pagamento de juros.

Como o senhor avalia os resultados do governo Milei e o que o Brasil deveria observar?

O governo Milei adotou um programa radical de ajuste fiscal, reduzindo o gasto primário em cerca de 27% em termos reais no ano de 2024. É uma magnitude enorme. Quando alguém na oposição aqui no Brasil diz que precisamos de um "governo Milei", eu respondo: devagar com o andor. A situação argentina era muito mais dramática do que a nossa, com inflação de 200%. Não precisamos de um ajuste dessa magnitude ou tão súbito.

O lado cheio do copo é o controle do déficit e a queda da inflação. O lado vazio é o custo no setor real da economia: pouco crescimento, queda no investimento e sofrimento do poder de compra."

Além disso, a personalidade do presidente Milei me parece negativa para o diálogo, que é a essência da política. A política é o espaço para arbitrar conflitos em uma sociedade onde as aspirações sempre superam a capacidade de satisfazê-las. No Brasil, precisamos resgatar a capacidade de diálogo que existiu em momentos difíceis de nossa história, como na redemocratização, e abandonar essa polarização de barbárie que vivemos nos últimos anos.

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