Valor de mercado dos bancos salta em 2025, ofuscando Vale e Petrobras
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Por Amélia Alves, da Broadcast
redacao@viva.com.brSão Paulo, 02/01/2026 - O ano de 2025 marcou um ponto de inflexão em termos de valor de mercado para as principais empresas brasileiras da bolsa. O valor de mercado de uma companhia listada em bolsa é calculado multiplicando a base acionária (a quantidade de ações da empresa), pelo preço individual de cada classe de ações. De acordo com levantamento da Broadcast, os três maiores bancos privados negociados na B3, a Bolsa de valores de São Paulo, recuperaram R$ 220 bilhões em valor de mercado em 2025, depois de terem perdido R$ 110,8 bilhões em 2024.
Enquanto os grandes bancos, em especial Bradesco e Itaú, ganharam eficiência, robustez operacional e atraíram mais fluxo de investidores, gigantes de commodities, como Petrobras e Vale, enfrentaram um ambiente externo adverso. A Vale conseguiu se recuperar a partir do segundo semestre, mas ainda está longe do patamar histórico de R$ 400 bilhões em capitalização de mercado, cifra que o Itaú superou pela primeira vez em sua trajetória na Bolsa.
O indicador reflete quanto a Bolsa está disposta a pagar por uma empresa e sintetiza percepções de tamanho, risco e expectativas futuras. Para o investidor, trata-se de uma métrica-chave, pois influencia a liquidez dos papéis, o peso nos índices e a capacidade de resiliência ou crescimento no longo prazo.
Se a Vale ainda caminha a passos lentos, o Itaú surfou em 2025. Para Filipe Villegas, estrategista da Genial Investimentos, o desempenho é resultado de uma execução consistente ao longo dos anos. "Esse recorde não é pontual, mas fruto de uma gestão sólida e previsível", afirma.
Segundo o estrategista, diferentemente das empresas dependentes de commodities, o Itaú combina fundamentos fortes com maior visibilidade de resultados, o que sustenta sua valorização.
Villegas também destaca o Bradesco, que encerra 2025 com o melhor desempenho entre os quatro grandes do setor. O banco acumula expressivo ganho de valor de mercado e volta a encostar na marca de R$ 180 bilhões pela primeira vez em três anos.
Na avaliação de Ricardo Peretti, estrategista de ações do Santander, embora o Itaú tenha tido um excelente ano, o Bradesco sai como o maior vencedor do período entre os pares em termos de valorização. O movimento reflete a migração do investidor para ativos domésticos, mais resilientes e com fundamentos em melhora.
Olhando mais à frente, Villegas estima que tanto Itaú quanto Bradesco podem ser boas apostas em 2026, desde que o cenário macroeconômico ajude. "Uma queda dos juros nos Estados Unidos, cortes da Selic no Brasil e maior compromisso fiscal no ambiente político abririam espaço para um novo ciclo de valorização do setor bancário, inclusive com superação de recordes", acredita.
Vale, crescimento ainda lento
No caso da Vale, o ponto de virada ocorreu em agosto, mas foi somente em novembro que a mineradora passou a reagir de forma mais consistente, voltando a superar a marca de R$ 300 bilhões pela primeira vez desde março de 2024. O movimento contou com o suporte do minério de ferro, mas também refletiu avanços internos da companhia.
"A Vale fez um bom trabalho, pelo menos no que estava ao seu alcance", avalia Igor Guedes, analista da Genial Investimentos. Segundo ele, a empresa reduziu custos, cortou capex (investimentos em capital), aumentou a eficiência operacional e retomou níveis de produção próximos aos observados antes de 2019. "Isso reforçou a credibilidade e ajudou a ação a subir mais de 40% no ano, o melhor desempenho entre os pares metálicos listados", destaca.
Ainda assim, Guedes avalia que o impulso para levar a empresa novamente ao nível de R$ 400 bilhões de 2023 não deve ocorrer no curto prazo. A principal limitação está no cenário global, marcado pela desaceleração da China - influenciada pela reversão demográfica e pela fraqueza do setor imobiliário -, que afeta diretamente a demanda por aço. Soma-se a isso a volatilidade do dólar, em meio às incertezas eleitorais. "A gestão da Vale fez a parte dela, mas 2026 será definido principalmente pelo macro", resume.
Ruy Hungria, analista da Empiricus Research, acrescenta que a alta recente da Vale na Bolsa decorreu mais de uma correção de valuation - antes bastante descontado - do que de um crescimento operacional robusto. "Não há cenário para um rali em 2026, mas a ação da Vale ainda negocia a múltiplos atrativos e a empresa paga bons dividendos. O principal risco segue sendo China e minério de ferro, já amplamente precificado", diz.
Petrobras perde espaço com petróleo mais fraco
O mesmo otimismo com os bancos não se aplica à Petrobras, pelo menos no curto prazo. A queda de quase 15% no preço do petróleo ao longo do ano foi determinante para a perda de quase R$ 100 bilhões em valor de mercado da estatal, que chegou a ser superada 14 vezes pelo Itaú em 2025. A empresa poderia ter perdido ainda mais na esteira da commodity energética, mas fechou o ano com quedas de 9,50% (ON) e 5,58% (PN), ajudada pelo fluxo de capital estrangeiro que chegou à Bolsa brasileira, elevando o Ibovespa a uma valorização de 34% no acumulado do ano.
"Petrobras pode recuperar valor em 2026, mas isso depende de um petróleo mais alto e/ou de um desfecho eleitoral pró-mercado. Os dividendos só voltam a ser um catalisador nesse contexto", afirma Ruy Hungria, da Empiricus.
Peretti, do Santander, reforça essa leitura ao explicar a preferência do investidor pelos bancos ao longo do ano. "Houve uma clara escolha por setores domésticos, com exposição a juros, em detrimento de nomes ligados a commodities. E o resultado operacional dos bancos segue muito saudável", observa. "O Itaú virou referência porque entregou exatamente o que o investidor buscou: previsibilidade, resiliência e exposição a juros - não a commodities."
Suzano sofre com rotação setorial
Em escala menor, embora proporcional, a Suzano seguiu trajetória semelhante à da Petrobras. Devolveu em 2025 cerca de R$ 15 bilhões em valor de mercado. Segundo Peretti, o desempenho fraco não se explica por questões operacionais, mas pela perda de tração da celulose, que entrou no grupo de commodities que ficaram para trás em 2025, ao lado de petróleo, grãos e frigoríficos. A depreciação do dólar no ano também penalizou o papel, que fecha o ciclo com uma desvalorização de 15%.
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