Fifa se defende do que mais teme: ser acusada de manipulação
Divulgação / Fifa
Nova York — A Fifa sabe que erro de arbitragem faz parte da Copa do Mundo. Sempre fez. O que a entidade não aceita, não tolera e teme como uma ameaça direta ao torneio é a palavra "manipulação". Foi por isso que Pierluigi Collina, diretor de arbitragem da Fifa, apareceu para contra-atacar depois das acusações do Egito na derrota por 3 a 2 para a Argentina, pelas oitavas de final.
Collina não deu apenas uma explicação técnica sobre VAR, gol anulado ou checagem completa dos lances de gols no Mundial. O que ele fez foi uma defesa institucional da Fifa, de Gianni Infantino e dos árbitros. A Fifa entendeu que a acusação feita por Hossam Hassan, técnico do Egito, ultrapassou o limite da reclamação normal de jogo.
Quando um treinador diz que uma partida foi “claramente manipulada”, ele não está apenas criticando o árbitro. Está colocando em dúvida a credibilidade da competição. Suas reclamações serão analisadas no devido tempo com possibilidade de punição.
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Perder a credibilidade é o ponto que assusta a Fifa. Uma coisa é discutir se o árbitro François Letexier acertou ou errou ao anular o gol de Mostafa Ziko contra a Argentina. Outra, muito mais grave, é sugerir que árbitros, VAR ou a própria entidade atuaram para favorecer Messi e manter a campeã mundial viva no torneio. Para a Fifa, essa diferença precisa ser marcada imediatamente, com receio de perder "o controle" da festa. E foi isso que Collina tentou fazer.
No geral, estamos satisfeitos. É claro que discussões construtivas sobre as decisões sempre farão parte do futebol, mas acusações infundadas não têm lugar no nosso esporte.”
O recado foi para Hossam Hassan. O técnico do Egito disse que o seu time foi vítima de uma "partida manipulada" e sugeriu interesse em manter Argentina e Messi na Copa por razões esportivas e comerciais. A acusação é grave. E temerosa. A frase virou uma bomba no colo do presidente Infantino, ameaçando a arbitragem e o próprio Mundial. Não por acaso, Collina defendeu a integridade dos árbitros e alertou para o risco de ameaças contra eles e suas famílias.
Acusar a Fifa de manipulação não é novidade. Quando a seleção brasileira perdeu para a França na decisão da Copa do Mundo de 1998, aquela em que Ronaldo sofreu uma convulsão na madrugada do dia do jogo, correu no Brasil a desconfiança de que havia um esquema para que a CBF entregasse o resultado do jogo.
No Brasil, jogo de Copa já foi parar em CPI
A derrota por 3 a 0 gerou a criação de duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) no Congresso Nacional, a chamada "CPI da Nike", instalada na Câmara dos Deputados e no Senado entre 1999 e 2000. Elas investigaram contratos da CBF e as suspeitas de interferência da fornecedora de material esportivo na escalação de Ronaldo. Só se falava disso no país pós-derrota. Nessas audiências, foi até questionado quem deveria marcar Zidane no time brasileiro.
Ninguém pode questionar a integridade dos árbitros da Copa do Mundo da Fifa. Quando isso acontece, pode provocar reações que levam a ameaças contra eles e suas famílias. Isso não está certo”, disse Collina.
Ele tem razão em um ponto: árbitros, jogadores e treinadores não podem ser ameaçados por torcedores revoltados. O futebol já passou dos limites muitas vezes nesse campo. Mas a discussão aberta pelo Egito não se encerra apenas com a proteção aos árbitros. A reclamação nasceu de lances de bola rolando, decisões de VAR e da sensação de que a Argentina foi beneficiada.
A Copa de 2026 já teve 96 partidas disputadas. Serão 104 ao todo, 50% mais jogos do que no Catar, em 2022. Pela primeira vez, o Mundial tem 48 seleções. Mais jogos significam mais lances, mais revisões, mais árbitros expostos e mais polêmicas. A Fifa sabe disso. Mas também sabe que quanto maior o torneio, maior o risco de uma crise de confiança. É com isso que ela se preocupa.
Jogos terão árbitros de plantão do VAR
De modo que a entidade resolveu escalar dois árbitros de "plantão" no estádio em Boston, local do confronto. Eles estarão atentos e prontos para operar caso a turma do VAR do jogo, que monitora do Centro de Comando de Dallas, esteja impedida ou com problemas. A decisão é inédita nesta Copa.
A confusão maior começou na partida entre Argentina e Egito. A seleção africana vencia por 1 a 0 quando Ziko marcou o que seria o segundo gol. O lance, porém, foi anulado com auxílio do VAR por uma falta de Marwan Attia em Lisandro Martínez na origem da jogada. O banco egípcio explodiu de raiva. Para o Egito, o gol que poderia mudar a história do duelo foi arrancado por uma decisão discutível.
Collina explicou que, após cada gol, o VAR revisa toda a fase de posse de bola do ataque. Se uma falta for identificada na construção e tiver influência no gol, o árbitro pode ser chamado para rever o lance. Segundo a Fifa, Attia pisou no pé de Lisandro Martínez. Para Collina, não importa se a infração aconteceu longe do gol ou segundos antes da finalização. Se faz parte da jogada ofensiva, pode anular tudo.
Acreditamos que falta é falta. Independentemente de a falta parecer óbvia ou não. Se o árbitro não a viu em campo, o VAR pode intervir”, disse Collina.
A Fifa também defendeu a decisão de não marcar falta de Julián Alvarez em Mohamed Salah no fim do jogo. Para a arbitragem, o argentino tocou primeiro na bola. O Egito discorda. E seguirá discordando. A explicação técnica de Collina pode até organizar o debate, mas dificilmente vai apagar a revolta. Collina também blindou Infantino. Disse que ninguém pode afirmar que a arbitragem da Fifa seja influenciada por qualquer pessoa, nem mesmo pelo presidente da entidade.
Fifa se arrepia ao ouvir a palavra 'manipulação'
Segundo ele, Infantino sempre demonstrou apoio à independência da arbitragem. O recado é importante porque Hassan não atacou apenas Letexier. Ele colocou a Fifa no centro da suspeita. Mas a entidade tenta separar dois mundos. O primeiro é o da discussão legítima sobre arbitragem. Esse sempre existirá. O segundo é o da acusação de manipulação de resultados. Esse é intolerável para a Fifa porque atinge a base do seu negócio. Ninguém compra ingresso, liga a televisão, patrocina o jogo ou cobre uma competição se acredita que o jogo está marcado antes de começar.
De modo que Collina não entrou em cena apenas para explicar um lance de jogo. Ele apareceu para defender a Copa. Para dizer que os árbitros erram, mas não manipulam. Para proteger Letexier, o VAR, Infantino e a imagem de um torneio que entrou na reta final cercado por desconfiança.
Mas a Fifa também se complica quando reage de forma diferente a crises parecidas. Collina e a entidade não tiveram o mesmo tom quando Donald Trump acusou o árbitro brasileiro Raphael Claus de ter um “histórico suspeito” no caso do cartão vermelho aplicado a Balogun, dos Estados Unidos. A Fifa acabou atendendo ao pedido de revisão do presidente dos EUA, e o jogador pôde atuar na partida seguinte. Claus ficou exposto. Recebeu apoio dos brasileiros, mas foi deixado numa posição frágil pela própria entidade que o chamou para a Copa.
Esse contraste aumenta a pressão. Se a Fifa quer defender a independência da arbitragem, precisa defendê-la sempre. Contra técnicos revoltados, presidentes influentes, seleções poderosas e anfitriões. Não pode escolher quando proteger seus árbitros e quando permitir que a política entre pela lateral do campo.
A vitória da Argentina sobre o Egito seguirá na história como mais uma noite dramática de Messi na Copa. Para os argentinos, foi épica. Aos egípcios, injusta. Para a Fifa, um alerta. A palavra manipulação, uma vez lançada, não desaparece tão facilmente. Infantino sabe disso. Ele não se descabela, nem pode, mas não deve estar dormindo direito. Collina tentou jogar luz racional no que foi e não foi marcado.
Mas sabe que, em Copa do Mundo, uma decisão polêmica nunca fica apenas no vídeo. Ela vira memória, revolta e narrativa. Ainda mais quando envolve Messi, Argentina, um gol anulado e a palavra que a Fifa mais teme nos estádios: manipulação.
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