Avião do Brasil volta vazio da Copa e Ancelotti prepara limpa na seleção
CBF
Nova York — Quando Carlos Alberto Parreira ganhou a Copa de 1994, ele se arrependeu de não ter ficado mais tempo no Brasil para saborear o tetra. Não falava apenas da festa imediata, do retorno com a taça e de Romário na janelinha da cabine do avião, cena hoje quase escondida na memória. Parreira se referia aos meses seguintes. Foi embora para trabalhar na Espanha e depois entendeu que deveria ter ficado. Felipão, no penta, ficou. Recebeu as glórias de 2002.
O Brasil de 2026 não tinha glória para receber nem aplausos no desembarque. E nem voltou inteiro para encarar a própria tristeza. Depois do fracasso diante da Noruega, nas oitavas de final desta Copa do Mundo, o avião fretado da seleção retornou praticamente vazio. Danilo, lateral do Flamengo, foi o único jogador a embarcar com parte da comissão técnica e do estafe. Todos os atletas foram liberados ainda nos Estados Unidos e se espalharam pelo mundo: Orlando, Ibiza...
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Nem Carlo Ancelotti voltou ao Brasil. O capitão da "nau" abandonou o barco como todos. Depois de passar um dia em Nova York, o técnico seguiu para Vancouver, no Canadá, onde mora sua mulher. Foi se refazer. O “mister” não dará as caras na sede da CBF, no Rio, neste primeiro momento. A cena é simbólica. O torcedor gostaria de ver a delegação junta também na derrota. Na alegria é fácil aparecer. Na tristeza, o Brasil se espalhou.
Não voltar com a delegação, porém, não significa que Ancelotti deixou de trabalhar pelo Brasil. O treinador fará um relatório detalhado sobre tudo o que deu certo e errado na Copa. Vai avaliar logística, treinos, convocação, escolhas táticas, rendimento dos jogadores e comportamento do grupo. Será uma prestação de contas dura, porque a eliminação nas oitavas para a Noruega não permite verniz. Foi fracasso.
A 'limpa' na seleção vai derrubar muita gente
Ancelotti chegou à Copa tentando apagar incêndios. Trabalhou como bombeiro depois de confirmar o Brasil nas Eliminatórias e teve pouco tempo para montar uma seleção com cara própria. Levou o time até onde conseguiu. Não foi longe, como todos sabem. Cair nas oitavas, contra um adversário de menos tradição, com atuação passiva, colocou o seu trabalho em xeque e sem.
O contrato do treinador foi renovado até 2030, mas isso não o blinda completamente. Não há margem para outro erro grande. Ancelotti também depende do ambiente político da CBF, onde o presidente Samir Saud sabe que há movimentos nos bastidores para tirá-lo do cargo. Se houver mudança no comando da entidade, o técnico pode perder força e cair. A Copa acabou, mas a pressão não.
A limpa no elenco deve ser grande. Começa pelo gol. Nenhum dos três goleiros deve permanecer para o próximo ciclo. Nem mesmo Alisson, titular nos Estados Unidos. Na defesa, Marquinhos e Danilo já se despediram. Douglas Santos também não deve seguir. Gabriel Magalhães é o único zagueiro com chance real de atravessar o processo, ainda assim sem garantias absolutas. Marcar e fracassar diante de Haaland pode lhe custar a próxima Copa.
Meio de campo do Brasil vai desaparecer
No meio-campo, a renovação também será pesada. Bruno Guimarães, mesmo depois do pênalti perdido contra a Noruega, deve seguir. Tem idade, qualidade e ainda pode ser peça de um novo Brasil. Casemiro e Lucas Paquetá, por outro lado, dificilmente voltarão a disputar um novo ciclo. O primeiro pelo desgaste natural da carreira. O segundo porque já vinha em queda de protagonismo antes mesmo da lesão.
Neymar também se despede. Apesar das manifestações de seguidores e familiares nas redes sociais, sua história pela seleção acabou no MetLife Stadium, no mesmo lugar em que começou. Ele foi o maior erro de Ancelotti. Não por falta de talento, mas por falta de condição. Neymar entrou no Mundial machucado, jogou pouco, virou promessa permanente e não conseguiu mudar o destino do Brasil. Ele nem deve continuar no Santos, apesar do contrato até dezembro. O clube lhe deve R$ 90 milhões.
O outro erro do treinador foi a montagem do grupo. Faltaram meias. Faltaram laterais ofensivos e um plano que não dependesse de improvisos, remendos ou da esperança de que Vini Jr., Matheus Cunha e mesmo Neymar resolvessem uma partida travada. O Brasil teve bons jogadores, mas não teve estrutura suficiente para sustentar uma campanha de campeão. Longe disso. O que não se pode é normalizar as derrotas e as eliminações, como os atletas andam fazendo.
Ancelotti tem contrato, mas corre risco
Ancelotti agora entendeu o que é comandar o Brasil em uma Copa do Mundo. Não basta ter currículo nem ter Champions League. Não basta administrar vestiário. A seleção carrega peso próprio, cobrança ímpar e uma relação emocional que nenhum clube europeu reproduz. O Brasil não perde apenas um jogo. O Brasil perde uma parte de si quando cai cedo em Mundial. Alguém deveria ter contado isso ao "mister".
O treinador terá duas tarefas centrais daqui para frente. A primeira é escolher um padrão de jogo. A segunda é encontrar os jogadores certos para esse padrão, não os nomes mais famosos, mais óbvios ou mais protegidos pela história recente. Será preciso mais meio-campo, mais laterais agressivos e mais coerência, além de boa dose de nostalgia. Olhar para o passado não é retroceder. É ter referências.
O avião vazio que voltou ao Brasil resume bem a Copa de 2026. Não havia taça, festa, desfile ou heróis. Havia silêncio e lugares vagos. E esse silêncio diz muito. A seleção não precisa apenas trocar jogadores. Precisa recuperar a coragem de construir um time de verdade. O Brasil confiou em Ancelotti e se deu mal.
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