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Memória afetiva: como a Copa do Mundo une diferentes gerações no Brasil

CBF

Copa do Mundo também funciona como um grande produtor de memórias afetivas - CBF
Copa do Mundo também funciona como um grande produtor de memórias afetivas
Por Bárbara Ferreira

19/07/2026 | 09h05

São Paulo - Mais uma Copa do Mundo que fica para memória. A cada quatro anos, o mundial transforma a rotina dos brasileiros. Não importa quanto tempo passe, as crianças continuam colando figurinhas um pouco tortas no álbum e a família segue esprimida de frente à televisão usando as camisas da seleção.

O torneio também funciona como um grande produtor de memórias afetivas, que continuam vivas muito depois do apito final, atravessando gerações. Mesmo com a seleção brasileira vivendo um jejum de títulos desde 2002, especialistas e apaixonados avaliam que o vínculo emocional com a Copa continua forte.

O sentimento pode até mudar de intensidade conforme os resultados em campo, mas continua sendo alimentado por tradições familiares, histórias compartilhadas e objetos que se tornam testemunhas de diferentes épocas. Criador do Guia dos Curiosos, Marcelo Duarte, acredita que o maior patrimônio da Copa está nessa capacidade de conectar gerações.

A gente tem que o tempo todo estar preservando a memória. A gente precisa saber tudo o que nos trouxe até aqui para entender o que vem por aí", afirmou.
Marcelo Duarte é jornalista e criador da página e livro "Guia dos Curiosos"
Marcelo Duarte é jornalista e criador da página e livro "Guia dos Curiosos" - Reprodução / Instagram @mdcurioso

Copa do Mundo como memória coletiva

Para a psicóloga e professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Dina Frutuoso, autora do livro "Memórias Afetivas", momentos coletivos como a Copa do Mundo deixam marcas que ultrapassam o resultado dentro de campo.

Segundo ela, experiências compartilhadas fortalecem o repertório emocional das pessoas e funcionam como uma reserva positiva que é reacessada ao longo da vida. Dina defende a importância de cultivar boas lembranças: "memórias afetivas ajudam como um escudo, um anteparo",

A especialista explica que essas lembranças não surgem apenas de grandes acontecimentos, mas também dos pequenos rituais que acompanham a Copa: assistir aos jogos em família, trocar figurinhas, decorar a rua e vestir a camisa da seleção. Esses momentos ajudam a construir vínculos entre diferentes gerações e criam referências afetivas que permanecem por décadas.

Memória e torcida atravessam gerações

A história da Copa para o brasileiro pode ser contada por diferentes perspectivas. O pai de Marcelo, hoje com 90 anos, assistiu aos cinco títulos mundiais do Brasil. Ele próprio acompanhou três conquistas, o filho mais velho viu duas enquanto e os mais novos ainda não assistiram o Brasil ser campeão. Com essa queda, como preservar uma boa memória do futebol brasileiro?

Essa diferença de experiências ajuda a explicar por que cada geração constrói uma relação própria com a Copa do Mundo. Ainda assim, segundo Marcelo, o clima da Copa continua mobilizando os brasileiros. "É fabuloso: desde as trocas de figurinha até as pessoas se reunindo na casa de amigos ou nos bares", afirma.

Dina lembra que a forma de viver a Copa mudou ao longo dos anos. Mesmo com as transformações, a professora acredita que as memórias continuam sendo transmitidas entre gerações. Histórias contadas pelos mais velhos, fotografias, objetos guardados e tradições familiares ajudam crianças e jovens a conhecer um Brasil que não viveram.

Eles [as novas gerações] perguntam muito como era. Nós temos seis gerações e com valores diferentes. Então, na Copa também isso vai aparecer", comentou a professora.
Brasil não ganha uma Copa do Mundo desde 2002
Brasil não ganha uma Copa do Mundo desde 2002 - CBF

Lembranças contam histórias 

Para além das partidas, a memória da Copa costuma ser construída por pequenos rituais familiares. Guardar um ingresso, uma camisa, um chaveiro da mascote ou um álbum completo pode parecer rotineiro, mas esses objetos acabam funcionando como registros da própria história de vida.

Marcelo atribui esse hábito que hoje faz parte de sua profissão ao pai, que colecionava jornais, livros e lembranças de viagens. Foi dele também o incentivo para montar o primeiro álbum de figurinhas de Copa, o que abriu as portas para as coleções de revistas, discos com a narração dos gols, e muito mais. "A gente tinha a história dentro de um armário."

Anos depois, a tradição ganhou novos protagonistas. Hoje, os três filhos participam da construção desse acervo familiar. Cada um assumiu uma missão: um ficou responsável pelos álbuns, outro pelas camisetas temáticas e a filha passou a procurar lembranças relacionadas ao torneio. "Virou uma coleção de família", resume.

Colecionar é preservar memória

Para Marcelo, preservar objetos ligados à Copa não se resume ao esporte, mas cada peça carrega lembranças de pessoas, encontros e momentos compartilhados. "Quando a gente guarda uma foto, uma lembrança ou um objeto, está guardando uma história nossa que queremos que alguém conheça no futuro. A Copa do Mundo faz parte dessa memória, ainda mais para quem é brasileiro."

Exposição "Colecionadores de Copas", no Sesc Pompeia, em São Paulo
Exposição "Colecionadores de Copas", no Sesc Pompeia, em São Paulo - Arquivo pessoal / Marcelo Duarte

Grande parte da coleção reunida por Marcelo ao longo da vida, formada tanto por itens herdados do pai quanto por peças reunidas por ele próprio, integra atualmente a exposição "Colecionadores de Copas", no Sesc Pompeia, em São Paulo. Segundo ele, é a reação do público que mostra como o valor desses objetos está justamente na memória que despertam.

"Uma das coisas que mais dá orgulho para o colecionador é mostrar a sua coleção. Muita gente olha um álbum ou uma lembrança e diz: 'Nossa, eu colecionei isso com meu pai', ou 'Meu avô tinha um igual'. A coleção vai passando memória afetiva de geração para geração", pontuou Marcelo.

Para a psicóloga, cultivar essas lembranças também faz diferença no envelhecimento. Ela afirma que recordar experiências positivas fortalece os vínculos familiares e contribui para uma velhice mais ativa e emocionalmente saudável. "Essas memórias não deixam de impactar. Elas acompanham a gente durante toda a vida".

A coleção vai passando memória afetiva de geração para geração", conclui Marcelo.
Palavras-chave Copa do Mundo futebol memória

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