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Sobre a coluna

Analista comportamental e gerontóloga pela Faculdade Israelita Albert Einstein, é professora da FGV, autora de “Empatia” e coautora de “Diversa-IDADE”, com passagem por Ford, Natura e Mondelez.


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A revolução da longevidade é feminina - isso não é tendência, é demografia

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Mulheres vivem mais que homens no Brasil, mas como elas estão vivendo? Só números não bastam - Envato
Mulheres vivem mais que homens no Brasil, mas como elas estão vivendo? Só números não bastam

São Paulo - Há uma frase que circula atribuída a Simone de Beauvoir: "Viver é envelhecer, nada mais"; Parece simples. Mas talvez seja uma das provocações mais profundas para o nosso tempo. Porque envelhecer não é um desvio da vida. É a própria vida acontecendo.

Ainda assim, quando falamos sobre a revolução da longevidade, muitas vezes começamos pelos números: mais pessoas vivendo mais, mais consumidores maduros, mais trabalhadores experientes, mais pressão sobre sistemas de saúde, previdência, cuidado, famílias, empresas e marcas. Os dados são fundamentais. Mas eles não contam tudo.


Para entender a longevidade de forma mais profunda, precisamos olhar para as trajetórias. E poucas trajetórias revelam tanto sobre essa transformação quanto as trajetórias das mulheres.

Segundo as Projeções da População do IBGE, em 2026 o Brasil tem cerca de 62,2 milhões de pessoas com 50 anos ou mais. Desse total, aproximadamente 33,9 milhões são mulheres e 28,3 milhões são homens. Ou seja: quando falamos de Brasil 50+, estamos falando de um Brasil majoritariamente feminino. 

O Brasil 50+ é majoritariamente feminino. Ignorar isso não é apenas uma falha de comunicação, é uma falha de leitura da realidade".


Esse dado muda a conversa. Porque a revolução da longevidade não é neutra. Ela tem gênero. Tem história. Tem trabalho. Tem cuidado. Tem silêncios acumulados. Tem reinvenções que nem sempre aparecem nas estatísticas.

Viver mais não é viver melhor

As mulheres vivem mais. Em 2024, a expectativa de vida feminina no Brasil chegou a 79,9 anos, enquanto a masculina foi de 73,3 anos, segundo o IBGE. Mas a pergunta que importa não é apenas quanto tempo as mulheres vivem. A pergunta é: em que condições elas estão envelhecendo? Essa é a camada que o mercado, as empresas e até parte das conversas sobre longevidade ainda insistem em ignorar. Porque viver mais não significa, necessariamente, viver melhor.

Muitas mulheres chegam aos 50, 60, 70 anos depois de uma vida inteira sustentando redes de cuidado. Cuidaram dos filhos, dos pais, dos parceiros, das casas, das relações, das emoções, das agendas, das urgências e, muitas vezes, das dores que ninguém nomeou. Em 2022, as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Os homens, 11,7 horas.

A longevidade feminina não pode ser celebrada sem que a gente tenha coragem de olhar para tudo o que as mulheres carregaram para chegar até aqui".


Esse dado não fala apenas sobre tarefas domésticas. Fala sobre tempo. Fala sobre oportunidades. Fala sobre saúde mental. Fala sobre carreira. Fala sobre autonomia financeira. Fala sobre o custo invisível de cuidar.

E aqui existe uma contradição central: a sociedade celebra a longevidade feminina, mas ainda naturaliza a sobrecarga que acompanha a trajetória de muitas mulheres até a maturidade. É como se disséssemos: "que bom que elas vivem mais", sem perguntar o quanto elas carregaram para chegar até aqui.

A mulher 50+ não cabe em caixinhas

Quando olhamos para a mulher 50+, percebemos que ela não cabe nas caixinhas tradicionais do mercado. Ela pode ser profissional, mãe, filha de pais idosos, cuidadora, avó, empreendedora, estudante, líder, consumidora, provedora e reinvenção em andamento. Às vezes, tudo isso na mesma semana.

Por isso, tratar a mulher madura apenas como público-alvo é reduzir uma vida inteira de repertório a uma segmentação demográfica. E esse é um erro estratégico. A mulher 50+ não é apenas alguém que envelheceu. Ela é alguém que atravessou transformações profundas no trabalho, na família, no consumo, na saúde, nos papéis sociais, nas relações afetivas, na tecnologia e na forma como a sociedade enxerga o próprio envelhecer.

A mulher madura não quer ser traduzida por estereótipos. Ela quer ser escutada a partir da vida que construiu e do futuro que ainda deseja viver. Ela viu o mundo mudar. Mas também ajudou a mudar o mundo."

Ainda assim, muitas narrativas sobre mulheres maduras continuam presas a dois extremos pobres: ou a mulher invisível, que desaparece depois de certa idade, ou a mulher da performance eterna, que precisa provar vitalidade, beleza, produtividade e juventude o tempo todo. Nenhuma das duas imagens dá conta da realidade.

A maturidade feminina não precisa ser apagada. Mas também não precisa ser transformada em obrigação de potência permanente.

Mulheres maduras têm desejo, ambição, cansaço, repertório, fragilidades, inteligência, perdas, escolhas, coragem, limites e futuro. Essa complexidade é justamente o que torna a trajetória das mulheres uma lente tão importante para entender a longevidade. Porque elas nos mostram que envelhecer bem não é apenas manter saúde física. É ter autonomia. É ter renda. É ter vínculos. É ter escuta. É ter segurança. É ter reconhecimento. É ter direito ao descanso. É ter espaço para continuar desejando. 

O trabalho invisível que envelhece

A longevidade feminina também expõe outra questão importante: trabalho. Em 2024, entre pessoas de 60 a 69 anos, quase metade dos homens estava ocupada no mercado de trabalho, contra pouco mais de um quarto das mulheres, segundo o IBGE. Esse dado precisa ser lido com cuidado.

Ele não significa que as mulheres trabalham menos. Significa que muitas vezes o trabalho das mulheres envelhece junto com elas, mas nem sempre aparece como ocupação formal, renda protegida ou reconhecimento econômico. O cuidado continua sendo trabalho. A gestão da casa continua sendo trabalho. O suporte emocional continua sendo trabalho. A diferença é que parte desse trabalho segue invisível, não remunerado e socialmente esperado. 

Por isso, a revolução da longevidade, quando vista pela trajetória das mulheres, deixa de ser apenas uma discussão sobre idade. Ela se torna uma discussão sobre cultura. Sobre quem é reconhecido. Sobre quem é escutado. Sobre quem pode descansar. Sobre quem pode recomeçar. Sobre quem teve suas escolhas ampliadas ou restringidas ao longo da vida.

Para marcas, empresas e lideranças, essa leitura é decisiva. Não basta falar com mulheres maduras usando imagens bonitas, campanhas aspiracionais ou discursos genéricos sobre autoestima. É preciso entender contexto. Uma mulher 50+ não quer ser tratada como se estivesse tentando voltar aos 30. Também não quer ser reduzida à ideia de avó, cuidadora ou consumidora de produtos antienvelhecimento. Ela quer ser vista como uma pessoa inteira. Com história e futuro.

Se o Brasil 50+ é majoritariamente feminino, então qualquer conversa séria sobre longevidade precisa incluir as mulheres no centro da análise. Não como homenagem. Como realidade. Não como nicho. Como força demográfica, econômica, afetiva, social e cultural.

Se você está lendo isso e tem mais de 50 anos, saiba: você não é tendência. Você é força. E a diferença entre essas duas coisas é que tendência passa. Força permanece.

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