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Bloco 'Qué que deu?' nasce como resposta ao etarismo nos blocos de rua

Divulgação/Instagran/@quequedeubloco
Por Alessandra Taraborelli

07/02/2026 | 14h37 ● Atualizado | 16h27

São Paulo, 07/02/2026 - Após quase 20 anos como integrante de um bloco de rua, Maria José de Almeida Cintra, mais conhecida como Mazé Cintra e então com 63 anos, resolveu fundar, junto com algumas amigas, um bloco de Carnaval para combater o etarismo. Foi assim que nasceu, em maio de 2023, o Qué Que Deu?. O bloco começou com 70 mulheres e, hoje, conta com 120 integrantes, a maioria na faixa entre 40 e 60 anos.

Mazé, que é percussionista e cantora, revela ainda que a ideia surgiu ao perceber que os blocos “não aceitam muito bem mulheres com mais de 40 anos". "E eu e minhas irmãs temos mais de 60 anos”, destaca.

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É etarismo mesmo. As pessoas olham com outros olhos, não é qualquer bloco que aceita, e também não é qualquer bloco que essa mulher com mais de 50 se sente confortável para participar. E também tem o etarismo abaixo dos 10, 12 anos, porque as crianças também não são aceitas.”

Mazé explica que, se o bloco não for específico para crianças, muitas mães e avós não conseguem participar do Carnaval. “No Qué Que Deu, as mães que não têm com quem deixar as filhas levam e elas começam a tocar e saem no cortejo”, afirma, ressaltando que é um bloco de mulheres e meninas.

Nome do bloco

A fundadora revela que o nome original do bloco não era Qué Que Deu?. O primeiro nome escolhido foi “Deu no que deu”. Ela explica que a escolha sintetizava um pouco do que ela e as amigas viveram juntas. “O nome surgiu enquanto conversamos sobre coisas que fizemos juntas e no final alguém falou a frase 'deu no que deu', e logo achamos um bom nome para um bloco”, explica.

No entanto, enquanto se preparavam para o primeiro cortejo, foram fazer um levantamento de registros de nomes e constataram que uma emissora de TV tinha os direitos. “Desistimos.”

O novo nome surgiu durante um jantar com as amigas, mas a ideia não veio de nenhuma delas. Um garçom que atendia as amigas ouviu o que as elas conversavam, e perguntou se podia dar uma sugestão: “Vou dar uma ideia para vocês. Eu sou do Nordeste, e, na minha cidade, quando alguém está chegando e quer saber o que que está acontecendo nessa roda, ele fala: Qué que deu?” “Gostamos do nome.”

Bloco aberto

A fundadora do bloco revela que não é necessário saber tocar algum instrumento para entrar. Os ensaios oficiais começam em setembro, mas antes, a partir de junho, há uns ensaios abertos para que as pessoas possam conhecer os instrumentos e informar qual gostaria de tocar. Depois, é divulgado, por meio das redes sociais o processo de inscrição para fazer parte do bloco.

Ela explica ainda que não é necessário pagar nenhum valor para fazer parte e que todo o “pouco dinheiro” que tem vem de rifas, camisetas, e cachês de apresentações pela Secretaria da Cultura e pelo Sesc, por exemplo.

Sem instrumento

Mazé Cintra, fundadora do bloco Qué que deu?
Mazé Cintra, fundadora do bloco, é percussionista e cantora - Divulgação/Instragram/@quequedeubloco

Se você não tem instrumento, sem problema. Mazé revela que há alguns instrumentos para serem emprestados por um período, até que a interessada tenha certeza que quer tocar e participar do bloco, antes de adquirir o seu.

"A gente empresta para você experimentar um pouquinho em alguns ensaios, se quiser ir para o outro, você vai, só não pode demorar muito para escolher, porque tem que ir aprendendo o instrumento que vai tocar no carnaval. É necessário comprar o seu próprio depois. Caso seja uma pessoa sem condições, nós mantemos o empréstimo.”  

Tema para o bloco

Assim como as escolas de samba, os blocos também definem um tema para cada carnaval. Mas, a percussionista conta que, por terem apenas três anos de existência, elas ainda não focaram em ter um tema. "Por enquanto, nós não fazemos tema, nós homenageamos mulheres.”

As músicas tocadas pelo bloco são 90% autorais e são ritmos brasileiros e latinos. “Nós temos várias músicas para mostrar os ritmos. Esses temas falam de mulheres e de questões sociais também.”

Lançamento no streaming

Em fevereiro de 2025, o bloco lançou o single Vem não, gavião no Spotify, após ganhar um concurso de marchinhas. A música, que fala sobre as investidas de homens contra as mulheres e sobre o “não é não”, surgiu a partir de expressões, como "vai procurar sua turma", "não sou obrigada a nada", "me erra", "sai da minha aba", "largadeu", entre outras.

Este ano, o bloco lança um novo single na semana do Carnaval, que é uma música que fala da natureza na cidade, dos povos originais e chama Cidade viva. Para março, Mazé prepara um EP com cinco músicas. “Estamos utilizando os cachês arrecadados para bancar os custos de gravação e produção”, afirma.

Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o bloco, dia 8 de fevereiro elas estarão participando do Carnachico, às 16h, no Casa de Cultura Municipal Ipiranga - Chico Science, na Rua Abagiba, 20 - Vila da Saúde, em São Paulo. 

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